UMA VIAGEM TÃO LONGA
E FICAMOS SEM VER OS PETRÓGLIFOS

No princípio, temos uma mulher finlandesa, Laura, arqueóloga. Estamos em Moscovo. Há uma festa em casa, mas ela parece desconfortável. Os cinéfilos sublinham logo a cena inicial, a sua saída da casa de banho, envergonhada, porque quem bateu à porta vai entrar e cheirar ainda o odor que ela deixou. Não é agradável.

Hytti nro 6 | Compartimento Nº 6, de Juho Kuosmanen, Drama, M/12, RUS/FIN/ALE/Estónia, 2021. Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza 2021. Argumento baseado na obra homónima da finlandesa Rosa Liksom.
Hytti nro 6 | Compartimento Nº 6, de Juho Kuosmanen, Drama, M/12, RUS/FIN/ALE/Estónia, 2021. Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza 2021. Argumento baseado na obra homónima da finlandesa Rosa Liksom.

Laura vive uma relação com uma mulher russa e vai fazer uma grande viagem, de Moscovo a Murmansk, para ver umas gravuras antigas inscritas na pedra. Chamam-se ‘petróglifos’. A questão das palavras e da linguagem vai ser importante. Ela não devia fazer aquela viagem de 1 500 quilómetros sozinha, mas é o que vai acontecer, porque a sua companheira não esteve disposta a ir.

Quando chega ao comboio e entra no compartimento nº 6, as coisas complicam-se. No mesmo compartimento viaja um homem russo – Ljhoa – que parece ocupar e tomar conta do espaço todo. Não começa nada bem a convivência inevitável. Ela vai mesmo procurar trocar de lugar, mas não consegue. Tem de aguentar e ficar ali. O seu desconforto aumenta diante de um homem que come e bebe e fala com modos brutos, demasiado intrusivo, grosseiro e machista.

A câmara, dada a estreiteza do espaço, está naturalmente colocada ‘em cima’ das personagens, mostrando-nos toda a tensão que se estabelece entre eles, só aliviada quando algum deles sai para o corredor e para o restaurante, ou a câmara ‘sai’ pela janela, para nos mostrar uma paisagem fria, nebulosa, com neve a cair.

Logo na primeira paragem, em São Petersburgo, Laura ainda tenta voltar para trás, mas do outro lado do telefone percebe que já não é desejada. É um momento decisivo. Ela vai continuar. Vai deixar para trás a sua infelicidade e abraçar o momento. E vai começar a olhar de modo diferente para o seu companheiro de compartimento. E para a sua vida. Vai descobrir, pouco a pouco – por exemplo, a quando da visita que fazem a uma estranha e sábia amiga de Ljoha – como aquele ar e atitude agressivos dele escondem, afinal, uma imensa ternura e uma grande capacidade de ajudar.

De facto, quando ela chega à última paragem do comboio, Murmansk, ainda falta o mais difícil para conseguir chegar aos tais petróglifos. Vai revelar-se uma missão impossível, ninguém está disposto a levá-la até lá naquela altura do ano. E vai ser precisamente Ljoha, para quem não há impossíveis, tal é a sua generosidade e inconsciência, que vai conseguir que ela cumpra o seu desejo. Lá chegados, ele fica sentado, a ver o olhar dela. Mas é aí que acontecerá o momento de viragem: os dois a brincar como crianças na neve e sentados na sucata de um barco velho a falar do Titanic.

Verdadeiramente e apesar de tanta proximidade, nada ‘acontece’ entre eles, não se trata de um filme romântico. Já depois da despedida, ele vai fazer-lhe chegar, nas costas do retrato que ela lhe tinha pedido para desenhar, a ‘frase mágica’, em finlandês. Ele está a dizer que a ama, ainda que a frase signifique uma coisa completamente diferente. Ela tinha-o enganado na tradução, mas ela sabe perfeitamente o que ele está a dizer-lhe.

Para quem, como eu, ainda fez algumas longas viagens de comboio, lugar de encontros e desencontros, este é um filme apaixonante. Um belo filme sobre a vulnerabilidade que se esconde na força mais bruta, no rosto mais duro, na paisagem mais agreste, na mais longa viagem ao interior do outro. É um filme, afinal, de grande humanidade e simplicidade sobre a procura e as contradições que cada um esconde mas tem de enfrentar.

Hytti nro 6 | Compartimento Nº 6, de Juho Kuosmanen, Drama, M/12, RUS/FIN/ALE/Estónia, 2021. Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza 2021. Argumento baseado na obra homónima da finlandesa Rosa Liksom.

%d blogueiros gostam disto: