Uma fé inquebrável

O homem que desafiou António, dizendo que só acreditaria em Deus
se ao atirar um copo ao chão este se não partisse,
não pedia um ato de magia, mas um milagre
que o ajudasse a sentir o amor de Deus.

Os milagres não são atalhos,
mas oportunidades que a vida nos oferece
para nos fazer sentir o amor que Deus tem por nós,
a sua proximidade e a sua ajuda nas fadigas do nosso viver.

A sua avó acreditava nas cartomantes, ou melhor, “numa” cartomante. Na verdade, desde criança, quando a Helena estava com ela, a avó arrastava-a por um carreiro íngreme para visitar Luna, a “feiticeira” da aldeia.

A Helena não sabia ainda decidir se gostava ou não, mas ficava sempre perturbada pelo ambiente de meia escuridão em que a Luna as recebia, por aquele cheiro a mofo e poeira que permeava a sala mobilada com velhas poltronas de veludo e pesadas cortinas, onde parecia que a luz e o ar fresco nunca entravam.

Luna tinha grandes olhos verdes e muitas rugas num rosto escuro com lábios carnudos avermelhados. Mas, acima de tudo, tinha uma voz profunda e persuasiva que penetrava nas pessoas e daí não saía; mais, tinha umas mãos grandes, ósseas e escuras com unhas sempre pintadas de roxo. Unhas que, com evidente ansiedade da avó, tocavam as bordas das cartas de tarô antes de as virar, para revelar o mistério do problema pelo qual a feiticeira tinha sido procurada.

Mas o que deixava a Helena deveras incomodada era ver como a avó, naquelas tardes de visita, se transformava. Doía-lhe ver como ela ficava nervosa antes de ir para a “feiticeira”, até mesmo um pouco ríspida para com ela, quando normalmente era doce e ternurenta.

E, durante a “sessão”, era penoso ver como estava inquieta e ansiosa pela resposta, muitas vezes enigmática: se a resposta era positiva ficava quase histérica de alegria, se, pelo contrário, a resposta era negativa ou dúbia, afundava-se num desespero que durava toda a tarde. Acontecia até que, no caminho de regresso, lágrimas silenciosas lhe caíam pela face e, uma vez em casa, até se esquecia de preparar o lanche, enquanto telefonava às amigas e, com frases codificadas, comunicava o que a “feiticeira” lhe tinha dito.

Depois, já à noite, quando a mãe voltava e encontrava a avó naquele estado de prostração, Helena ouvia a mãe dizer à avó: “Não terás, por acaso, levado contigo a menina à dita mulher? Mãe, sabes bem que eu não quero e.… lembra-te, ela é minha filha!” A avó não respondia e a Helena perguntava-se, porque é que a avó não respondia.

Helena, depois de avó já ter morrido e já com 18 anos voltou a pôr-se a mesma pergunta depois de ter acontecido uma coisa muito má com Lucas, o rapaz com o qual namorava há já dois anos.

Certa tarde, tinha visto, por acaso, uma troca de mensagens no telemóvel do Lucas, entre ele e a sua melhor amiga, Júlia. Na verdade, tinha sido a própria Helena que os apresentara e já se tinha apercebido que muitas vezes andavam na brincadeira, o que achava normal. Porquê, então, trocavam mensagens em particular? Lucas dizia coisas muito queridas à Júlia e ela parecia “alinhar”. Era como se o mundo lhe tivesse caído em cima, mas, mesmo assim, decidiu não dizer nada ao Lucas, nem à Júlia, que continuava a ser a sua melhor amiga a quem, até há pouco tempo, contava tudo.

À noite, quando voltou para casa, Helena trancou-se no quarto e pôs-se a chorar. Foi então que lhe surgiu um pensamento: se calhar, a Luna, a “feiticeira”, ainda estava viva? Começou, então, a procurá-la e, de facto, conseguiu. Dois dias depois, já tinha a consulta marcada. Enquanto subia pelo mesmo carreiro que tinha feito tantas vezes com a avó – um pouco mais desconfortável, porque não tinha a avó ao lado e, sobretudo, porque agora era ela a pessoa nervosa e angustiada – teve uma iluminação: talvez fosse por isso que a avó nunca respondia à mãe; talvez quisesse legar-lhe o conhecimento daquela estranha mulher… Talvez?!

Mergulhada nestes pensamentos, chegou a casa da Luna, que a recebeu de imediato: era mais velha do que pensava, mas ainda tinha as mesmas unhas roxas “sabedoras”. Ela disse-lhe que o Lucas e a Júlia tinham uma história secreta, pois as cartas falavam claro a este propósito; enquanto para ela estava marcado um futuro luminoso com um homem bonito que iria mudar-lhe a vida… A Helena saiu daquela sala escura como um autómato: que lhe importava o homem bonito, só queria era morrer. Chorando de raiva, foi para casa ter com a mãe: sabia que tinha feito uma das coisas que mais iria entristecê-la, por isso não lhe falou, nem a cumprimentou. Mas depois de um longo silêncio, desatou a chorar, contando-lhe tudo.

ilustração de Chiara Raineri
ilustração de Chiara Raineri

A Helena viu uma nuvem escurecer o rosto da mãe: a Luna estava de volta às suas vidas! Mas este regresso, ao mesmo tempo que a magoava, acentuou ainda mais o facto de ela ser uma mulher madura e crente, com uma fé profunda.

A mãe da Helena tinha aprendido que na vida não era possível meter-se por atalhos, como, pelo contrário, pensava a avó, de forma infantil. “Só agarrando-nos a Deus, com coragem e esperança, podemos fazer a diferença nas nossas escolhas”, disse a mãe. Não lhe falou do Lucas e da Júlia, nem tentou consolá-la.

Em vez disso, falou-lhe da força que havia nela para superar essa grande dor; disse-lhe que um novo rapaz bonito não seria a solução, porque a beleza, a que ela tinha de se agarrar, era aquela que estava escondida dentro dela. Depois contou a Helena um “milagre”, como ela o definia, explicando que os milagres realizados pelos santos nunca eram atalhos perigosos (como o de recorrer à Luna), mas oportunidades que a vida nos oferece para nos fazer sentir com mais intensidade o amor que Deus tem por nós, a sua proximidade e a sua ajuda nas fadigas do nosso viver, que ninguém nos poderá tirar.

Há muito tempo atrás − começou a mãe − um homem sem fé, chegou a Pádua: queria gozar com Santo António e com sua santidade e desafiou-o, na frente de outras pessoas, dizendo que só acreditaria em Deus se ao atirar o copo que tinha na mão ao chão, este não se partisse. Em suma, queria uma espécie de “prova”, um milagre por parte do Santo. Então, agarrou no copo e atirou-o com força para o chão e, milagrosamente, o copo não se partiu. Aquele homem não só ficou estupefacto, mas contou a todos, inclusive aos confrades do Santo, o que lhe tinha acontecido, bem como a partir daquele momento, se tinha convertido e mudado de vida.

Helena ouviu, mas ficou muito irritada: o que é que uma coisa tinha a ver com a outra? E ficou calada. Mas a mãe não tinha pressa, sabia que tinha de dar tempo ao tempo, para refletir sobre o que tinha acontecido e o que lhe tinha dito. Passaram-se alguns dias e uma noite, enquanto preparava a mesa, Helena disse, subitamente, virando-se para a mãe:

Tinhas razão, acho que a avó e a Luna estavam erradas… Aquele fulano do copo fez um gesto estúpido, mas talvez precisasse para entender. De facto, depois disso, ele agarrou a sua vida sozinho, com a ajuda de Deus. De que serve ser guiados por “enigmas” que vêm sabe-se lá de onde, e fazem de nós escravos, como a avó? O que adianta se não percebes o que realmente queres ser? Eu não quero perder o Lucas e, se ele me explicar o que aconteceu com a Júlia, pensarei nisso e decidirei se quero ou não ficar com ele. Que sentido faz dar tudo como certo, sem dialogar e emitir um julgamento sem conhecimento de causa, ficando à espera que alguém, não sei quem, coloque as coisas no seu lugar? Eu é que devo decidir a minha vida!

A mãe sorriu: tinha entendido com alívio que a Helena agora estava em condições de escolher uma vida mais livre e mais plena. No entanto, como num flash, apareceu na sua mente o carreiro íngreme que conduzia à casa de Luna, o mesmo que também ela, quando era ainda criança, tinha percorrido tantas vezes com a sua mãe.

Foto da capa: Milagres, não feitiços: G. Mosca e P. Stella: O herege Aleardino converte-se graças ao milagre do copo, Pádua, Basílica do Santo, Capela da Arca. Foto de Giorgio Deganello / Arquivo MSA.

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