Teologia da libertação

50 anos de caminho

Foi em 1971 que Ediciones Sígueme apresentou ao público o livro de Gustavo Gutiérrez: La Teologia de la Libertación. Iniciava-se um caminho que abre perspetivas impensadas de transformação e de vida para a Igreja.

Gustavo Guterriéz era um jovem teólogo com uma história singular. Nascera em Lima, em 1928. Criança frágil, com problemas graves de saúde. Uma osteomielite fez com que dos 12 aos 18 anos só se pudesse movimentar numa cadeira de rodas. Aos 14 anos inscreveu-se como membro da Ordem Terceira de São Francisco, “A pobreza já estava presente na minha vida de filho de família modesta, marginalizado pela doença, e nas minhas escolhas”, diz numa entrevista.

Aos 18 anos inicia o estudo de medicina. Na Universidade é militante dos movimentos universitários cristãos e participa ativamente na vida política da Universidade. Aos 24 anos faz nova viragem na sua vida e decide ser padre. O Bispo de Lima achou que o Seminário nessa idade não era a melhor opção e enviou-o para Lovaina onde estudou filosofia e psicologia. Estudou teologia na Universidade Católica de Lyon, no Instituto Católico de Paris e na Universidade Gregoriana de Roma.

O contacto com os grandes mestres da teologia marca as suas escolhas: Albert Gelin, que orienta a sua pesquisa sobre os pobres de Javé, Gustave Martelet e dominicanos (como Marie-Dominique Chenu, Cristian Duquoc, Claude Geffré, Henri Bourgeois, Maurice Jourjon, Christian Duquoc, Jean Delorm, Bernard Sesboüé, Vicent Cosmâo e Gérard Defois.

Quando regressou ao Peru e depois da sua ordenação como presbítero, em 1959, é nomeado para uma paróquia do bairro pobre de Rimac, em Lima, e assistente da União de Estudantes Católicos (UNEC). Dedicou-se ao seu trabalho pastoral, dando aulas também na Universidade Católica

Como dizer ao pobre que Deus o ama?

Mas havia um problema que o atormentava: “como dizer ao pobre que Deus o ama?”.

É no contacto com os pobre de Rimac, nos grupos universitários que usam nas suas reuniões o método da Revisão de Vida (Ver, julgar e agir) e no contacto com as Comunidades de Base do Brasil que Gustavo Gutiérrez vai juntando interrogações e aprofundando as perspetivas bíblicas sobre os processos libertadores.

A sua participação no Concílio Vaticano II, com o rasgar de novos caminhos para a Igreja e o Mundo de uma Igreja Serva e Pobre, bem como os horizontes abertos pelo grupo do Pacto das Catacumbas com a sua opção preferencial pelos pobres e, sobretudo, o seu empenho na redação dos textos preparatórios da Conferência de Medelin (1968), tudo isso vai naturalmente constituir a base da sua reflexão que aparece sintetizada na Teologia da Libertação.

Gustavo iniciava um caminho novo na Igreja. No Primeiro Encontro Ibero-Americano de Teologia realizado no Boston College, em fevereiro de 2017, afirma: com Pio X e Pio XII, “os pobres tinham que ser humildes para receber ajuda; e os ricos, generosos para ajudar os pobres”. Somente com João XXIII se começou a falar “das causas da pobreza”. Nesse Encontro Gutiérrez apresentou, assim, as bases do seu pensamento: “A pobreza nunca é boa, nunca, porque sempre é morte precoce e injusta” e “o compromisso com o pobre não pode evitar a denúncia das causas da pobreza”. Porque o “pobre é uma ‘não pessoa’, um não considerado pessoa, um insignificante”.

Ou, como disse Hannah Arendt, “o pobre é aquele que não tem direito a ter direitos”. Por isso, a pobreza é um “assunto teológico”. E para explicar isso, Gutiérrez recorreu à seguinte metáfora: “A mensagem cristã é como carne congelada. Ela está aí, mas não é possível comê-la. É preciso descongelá-la, isto é, situá-la na realidade atual”. Como o Papa, “que se situa neste nível básico, no viço do Evangelho”.

Papa Francisco com duas jovens refugiadas na ilha de Lesbos, Grécia, 5 DEZ 2021. Foto EPA/LOUISA GOULIAMAKI.
Papa Francisco com duas jovens refugiadas na ilha de Lesbos, Grécia, 5 DEZ 2021. Foto EPA/LOUISA GOULIAMAKI.

Que os gestos de poder deem lugar ao poder dos gestos

Quanta água já correu sobre as pontes… Nestes 50 anos, a teologia da libertação fez parte dos inimigos a abater. Os seus autores e seguidores foram sendo sistematicamente perseguidos não apenas pelas instâncias do poder, mas também por várias correntes dentro da própria Igreja. Mas, quando, em setembro de 2013, Gustavo Gutiérrez se encontra com o Papa Francisco e concelebra com ele, um passo para uma nova etapa era dado.

O respeito pelo sofrimento dos teólogos que durante tantos anos foram colocados sob suspeita deve ser, agora, ocasião para uma grande reconciliação e para colher o contributo que esses homens têm para dar à Igreja neste seu encontro com os pobres desta terra.

A Teologia Pastoral tem que deixar-se fecundar pelo encontro com outras vozes que, por estarem mergulhadas nas “Alegrias e nas esperanças, nas tristezas e nas angústias dos homens de hoje” são capazes de rejuvenescer esta Igreja em caminho sinodal, tentando escutar o que o Espírito lhe diz.

Em tempo de Natal, olhar a fragilidade de uma Criança numa gruta é uma inspiração. Que o Papa Francisco, peregrino entre os pobres, ajude a Igreja nos caminhos inspirados para que vão caindo as torres da arrogância e os “gestos de poder” deem lugar ao “poder dos gestos”.

Foto da capa: Papa Francisco cumprimenta Gustavo Gutiérrez, em audiência no Vaticano aos missionários que participaram do IV Encontro Missionário Nacional em Sacrofano (Roma), no qual Gutierrez foi um dos oradores. Foto Vatican News, 2014.

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