Subamos ao monte do Senhor

Como é possível construir um mosteiro feminino neste lugar, numa terra de onde todos emigram?
Não será loucura e desperdício?

Na linguagem bíblica, o monte do Senhor é o monte Horeb, no deserto do Sinai, lugar onde Deus se manifestou a Moisés e concluiu com ele e o seu povo uma aliança eterna.

A nossa chegada ao Mosteiro de Santa Maria Mãe da Igreja, em Palaçoulo, na tarde de um dia invernal marcado pelo vento e pela chuva, não foi fácil. O planalto trasmontano, rude e desértico, envolvido na neblina invernal, não dava para contemplações, mas para interpelações. Chegamos perante um estaleiro de grande dimensão, uma autêntica “catedral no deserto”, tendo ao lado uma outra construção, já terminada, que soubemos ser a hospedaria do mosteiro e que, de momento, funciona também como habitação das monjas, enquanto não terminar toda a obra prevista; foi aqui que ficamos hospedados.

No dia seguinte, a luz do sol que, entretanto, fez o favor de iluminar de azul o céu trasmontano, permitiu dar-nos conta da grande cerca do mosteiro, do projeto da obra, da forma como foi concebido e como está a ser realizado. Lembrei-me daquilo que uma vez uma irmã contemplativa me disse:

As comunidades contemplativas são colocadas como cidades sobre o monte, como lanternas que iluminam. Ficam no monte, um lugar habitado por quem não vai mais além, por quem é capaz de um amor que sabe abraçar e cuidar a humanidade ferida.

Foi o que aconteceu com Moisés no monte Horeb: Deus quis mostrar o seu amor ao povo de Abraão, Isaac e Jacob.

Enfim, estávamos diante de um grande ponto de interrogação, que não nos deixava sossegados e nos pedia esclarecimentos e confirmações. As interpelações choviam à catadupa: como é possível construir um empreendimento deste género numa terra de onde todos emigram? Qual é a aposta ou o sentido de um mosteiro feminino neste lugar? Não será loucura e desperdício? Pertencendo as monjas ao mosteiro italiano de Vitorchiano (Itália), qual a razão da sua vinda para esta terra trasmontana?

Mosteiro Trapista de “Santa Maria,
Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo,
Miranda do Douro
Mosteiro Trapista de “Santa Maria, Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo, Miranda do Douro

Entrevista

Estivemos no novo Mosteiro Trapista de “Santa Maria, Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo, Miranda do Douro, vivemos um dia com elas e entrevistámos a Madre Maffini Giusi.

Madre Giusi, a vossa vinda para Portugal e, nomeadamente, para este lugar trasmontano, foi uma surpresa que despoletou as mais diversas reações, particularmente no ambiente eclesiástico; nem todos compreenderam as razões que vos levaram a vir até aqui e, muitos ficaram surpreendidos com o tamanho da obra e do empreendimento que está a ser feito. O que está por trás de tudo isto?

Madre Maffini Giusi
Madre Maffini Giusi

O que está por trás é uma comunidade.
Uma comunidade com uma grande história, não merecida, mas levada a sério, no sentido que Vitorchiano (Mosteiro “Mãe” de onde provêm as irmãs) é uma comunidade trapista com 80 monjas que, no decurso da sua história, desde 1968, já realizou 8 fundações: esta é a oitava no mundo.
Porquê? Porque o Senhor sempre nos abençoou com vocações e nós sentimos a responsabilidade de responder a este dom de Deus, oferecendo a nossa vida, para que a vida monástica seja conhecida em todo lado.
Porquê Portugal? Porque Portugal tem uma grande história cisterciense que, depois da extinção das Ordens religiosas, em 1834, deixou de ter qualquer mosteiro.

Porquê esta localização tão afastada dos centros urbanos, numa terra do interior trasmontano, de onde as pessoas fogem? Porquê esta escolha?

Foram as circunstâncias da vida. Graças à Providência conhecemos o anterior bispo da diocese de Bragança – Miranda, D. José Cordeiro, que se mostrou disponível para oferecer o terreno neste lugar.
Nós, quando vimos o terreno, gostamos muito e achamos que estava dentro da nossa perspetiva de vida e da nossa história também, porque os cistercienses sempre procuraram lugares desertos e silenciosos.
Depois, a realidade social fez-nos perceber que era preciso oferecer, também aqui, uma presença neste lugar e, por isso, a necessidade de abrir uma grande hospedaria que tenha a possibilidade de acolhimento.
O mosteiro, propriamente dito, é uma realidade prevista para 35 monjas. Uma comunidade de 35 pessoas não é assim tão grande para um mosteiro beneditino / cisterciense / trapista, porque a nossa vida tem toda uma dimensão comunitária.

O nome trapista, de onde vem?

Vem de “Trappe”, terra francesa que deu nome a um mosteiro onde começou a terceira reforma da regra de São Bento, que permitiu aos cistercienses a sobrevivência, no seguimento da situação que se criou depois da Revolução francesa.
Numa sociedade secularizada e aparentemente alheia aos valores religiosos, mas sedenta de liberdade e de justiça, como é possível implantar o vosso carisma, aqui, longe de tudo,?
Eu digo que a vocação cristã e a vida monástica não têm tempo; o desafio é acreditar que a resposta do homem de cada tempo e de cada idade é Cristo e por isso vale a pena; porque o que faz uma comunidade monástica é realizar na sua radicalidade a proposta cristã.

Um mundo diferente?

O mundo é diferente no sentido de que está ainda afastado deste anúncio, mas é feito para receber este anúncio, para ser cativado por este anúncio. Não é diferente, tem sede dele, mas não o conhece.

Mosteiro Trapista de “Santa Maria,
Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo,
Miranda do Douro
Mosteiro Trapista de “Santa Maria, Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo, Miranda do Douro

O vosso mosteiro é dedicado a Santa Maria, Mãe da igreja. Porquê este nome?

A decisão da fundação deu-se no ano centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima. Achamos que a Igreja é a grande possibilidade de salvação para o mundo de hoje e a vida monástica é uma realidade da vida da Igreja. Portanto, pedimos à nossa Mãe para nos acompanhar nesta missão.

Hoje, a Igreja está metida numa caminhada sinodal. O vosso mosteiro sente-se envolvido nesta caminhada?

A caminhada sinodal é uma possibilidade que o Papa Francisco providenciou e que podemos acolher como um desafio positivo, mas isso já fazia parte da vida da Igreja. Dentro da Ordem cisterciense, procuramos fixar o caminho da Ordem dentro desta perspetiva sinodal que, antes, se chamava “eclesiologia de comunhão”. Eu acho que tudo o que fomenta o crescimento da comunhão na Igreja é abençoado.

Como explicar a vossa fecundidade, num tempo de crise de vocações sacerdotais e religiosas, particularmente nos países ocidentais? Qual é a receita?

Não há receitas! Acho que se trata de um mistério e de um desígnio de Deus. O Senhor é livre de fazer e escolher o que quiser, também nos meios mais pobres.
As pessoas que acompanharam este processo foram pessoas enraizadas em Cristo e na Igreja com uma sede de encontrar os jovens e, com humildade, ouvi-los e propor-lhes um caminho com uma forma particularmente significativa e profética.
Eu reconheço que sou herdeira de uma realidade maior e, com a minha imensa pobreza, tento transmitir por minha vez, assim como sou, porque o Senhor sabe o que faz. É uma questão de obediência ao desígnio de Deus.

Como foi formada esta comunidade e qual é o seu objetivo?

A nossa comunidade nasceu em Vitorchiano (Itália).
Depois da decisão da sua fundação, a Madre Superiora daquele mosteiro, num diálogo com as irmãs, escolheu 10 pessoas, com o objetivo de uma boa integração e de forma a poder cobrir todos os quadros necessários para uma nova fundação.
Somos dez: a irmã com mais idade, 85 anos, agora está em Itália para cuidados médicos, mas é uma presença providencial, pois marca com a sua serenidade e sabedoria os primeiros passos desta comunidade. Ela tem jeito para muitas coisas.
Depois venho eu, com 59 anos: sou monja desde 1988 e tento criar unidade dentro da comunidade ou, melhor, tento reconhecer a unidade que o Senhor quer construir connosco. Há outra irmã, da minha idade que é a segunda superiora e se ocupa da produção de bolos.
As outras irmãs são mais jovens, de 39 a 45 anos, e cuidam de outros ofícios: o canto, a liturgia, a economia e as obras de construção.
Enfim, procuramos abrir a porta a quem quiser entrar e, sobretudo, procuramos louvar o Senhor, dia e noite, porque a nossa vida é fundamentalmente fazer memória das maravilhas que Ele faz, rezar e louvar.

Mosteiro Trapista de “Santa Maria,
Mãe da Igreja”, de monjas Trapistas, em Palaçoulo,
Miranda do Douro
Mosteiro Trapista de “Santa Maria, Mãe da Igreja”

Tiveram já algumas jovens que quiseram entrar no mosteiro?

Agora temos uma aspirante; temos ainda umas jovens que estão interessadas nesta vida. Damo-nos conta do desafio que isto representa para elas, porque não é fácil ficar num lugar tão afastado, tão silencioso e longe do mundo. Mas têm sede da verdade e da grandeza de Deus.
O ambiente humano, social e religioso acolheu-vos bem?
Damo-nos conta de uma grande disponibilidade, de pessoas muito generosas; por exemplo, o nosso pároco não sabe o que fazer mais para nos apoiar, mas é um lugar pobre, um lugar muito envelhecido.

Para finalizar, o que diria aos Padres e aos Religiosos da Igreja portuguesa, onde se nota um certo cansaço devido às muitas preocupações, e desânimo por falta de vocações?

Deixar para trás as preocupações e recomeçar uma nova relação com Deus! Também eu sinto o cansaço que me prende pelas preocupações, mas nunca a preocupação deve ser o problema. O problema verdadeiro dá-se quando eu deixo de confiar na presença do Senhor e, então, começo a entrar em pânico por achar que devo pensar em tudo para resolver as coisas.
O Senhor já sabe o que vai acontecer, conhece o desafio em que estamos metidas. O caminho para a plena libertação do Reino de Deus nunca se interrompe, nem fica parado, nunca, porque Deus é Deus e o homem… é pouca coisa. Portanto, todos os dias temos de dizer: “Senhor, que queres que eu faça?”. É a nossa fé que falha, Ele não falha nunca!

Todos os tempos são difíceis. Não há um tempo fácil. Não há um tempo certo, um tempo lindo, mas todos os tempos são lindíssimos, basta abrir os olhos para Deus. Devemos reconhecer que somos pecadores e que todos os dias é necessário recomeçar. Tenho a impressão de que a crise da Igreja está ligada ao distanciamento de se reconhecer pobre e necessitada.

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