Sonhe com as mãos

Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixe o coração no presente e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.
Sérgio Vaz

O brasileiro Sérgio Vaz é o “poeta das periferias”. Apresenta-se assim, com o cognome que é também uma espécie slogan do seu trabalho. A poesia, aliás toda a arte, é menos inspiração e mais trabalho: olhar o mundo, vê-lo, ouvir os sons que fazem os pés dos homens e das mulheres a caminhar vida fora, superar a banalidade assumindo-a na sua grandeza, estudar com tempo e (de)vagar os dias e as noites, estar ao lado das pessoas e ser na comunidade presença de alegria, de dignidade e de esperança.

Que tudo isso se possa fazer ainda hoje com a poesia, num país gigante como o Brasil ou noutro país qualquer, é em si mesmo um milagre que devemos celebrar e que nos deve inspirar. Sérgio Vaz di-lo: “milagres acontecem quando a gente vai à luta”.

Imagine o leitor uma espécie de tenda, como em alguns casamentos, mas desta vez cheia de pessoas que vieram ouvir poesia; imagine o café mais antigo da terra com fila à porta, lá dentro mesas corridas, velhos e novos sentados e de pé para ouvir declamar poesia; imagine o salão de uma escola a abarrotar de miúdos surpreendidos porque há um poeta que não está morto; imagine que o grafiti mais famoso e protegido do bairro reza “Vida loka é quem estuda!” Outra das suas frases mais pintadas ou imprimidas nas ruas recorda: “Não confunda briga com luta. / Briga tem hora para acabar. / A luta é para uma vida inteira”.

Este Poeta, as suas palavras e os seus gestos, nascem nas/das periferias – sociais, culturais, educacionais, raciais – e na/da invisibilidade das vidas de quem as habita. Sérgio Vaz fundou e gere a COOPERIFA – Cooperativa Cultural das Periferias – e nos seus Saraus, fala-se de educação, de literatura, de arte, de música, de pôr as mãos ao serviço do presente e do futuro. Nos saraus da COOPERIFA ouvem-se alto vozes outras vezes murmuradas ou abafadas pelos ruídos do centro. Ouvem-se e ouvem, num diálogo que é festa.

Trago-o a este texto como um exemplo dessa festa e da confiança que é preciso ter e proporcionar, da confiança comum que é preciso construir. Em fronteiras inóspitas das nossas terras, em lugares secos onde não crescem mais do que as obrigações de uma vida empurrada para a frente, onde não há outro alimento do que as “migalhas do quotidiano” (cito um poema de Vaz), há também quem estenda o braço, atravessando o caos – estridente ou silencioso – com uma luz em punho (recordo aqui o braço que irrompe da direita para o centro do quadro Guernica (1937), de Picasso).

Mas, dizia antes, trago-o como um exemplo, para nos ajudar a recordar pessoas e organizações (feitas de pessoas, claro está) que nos lembram que outro mundo é possível. Ou, quando não é possível outro mundo, pessoas que fazem deste um lugar mais habitável – sonham com as mãos, num “artesanato da paz”.

Faço uma pequena lista de organizações com quem tenho contactado nos últimos anos e com quem tenho partilhado o sonho de um mundo mais justo, mais simples, mais alegre. É uma homenagem sem todas as palavras que mereceriam, mas com a palavra do seu nome, que é o primeiro sinal da sua identidade.

Convido os leitores a procurar conhecê-las melhor, ou a juntar a esta parca lista a sua própria experiência. No final de mais um ano esta é, quiçá, uma maneira bonita de celebrar os dons que recebemos.

  • ACEAG – Associação Centro de Ensino e Agricultura do Gurué (Moçambique)
  • Asociación Familia Vicenciana (Espanha)
  • Associação Casa do Mimo
  • Associação Santa Teresa de Jesus – Dignidade e Desenvolvimento
  • Cáritas Portuguesa e Cáritas de Lisboa
  • Conferências Vicentinas
  • Fundação Lar Maria Droste
  • Marcha Civil por Alepo
  • Semear – Terra de Oportunidades
  • Serviço Jesuíta aos Refugiados
  • UNITED against refugee deaths (Países Baixos)

P.S. Por mero acaso, este texto, o último da secção “Pés na terra” na revista Mensageiro de Santo António, é sobre pessoas que sonham com as mãos. Ou afinal talvez não seja acaso, mas sim uma nota de completude. Porque mudar o mundo é uma tarefa de corpo inteiro.

Cara Inês, o nosso bem hajas.

Ao fim de uma colaboração de mais de seis anos, deixas-nos um recado: “sonhar com as mãos”, o que nos obriga a manter afinados a nossa mente e o nosso coração.
Os teus “pés na terra” ajudaram-nos a entrar nas periferias do mundo e no coração das pessoas, a saborear o perfume das coisas belas e genuínas e a escutar o grito da humanidade que anseia pela liberdade e pela verdade. Tudo, na ponta dos pés, mas, também, dando saudáveis… pontapés!
A tua contribuição na elaboração da nossa revista foi apaixonada, sincera e inteligente, por isso, seremos eternamente gratos à tua pessoa; a amizade e a comunhão no projeto que a revista leva para frente não deve acabar, mas pode e deve continuar viva como estímulo para o futuro das nossas vidas, seja ele qual for.
O Senhor te dê a paz e o bem.

A Redação

Foto da capa: Crianças jogam basquete num campo recentemente restaurado, numa rua de Caracas, Venezuela. É uma iniciativa dos vizinhos, tentando libertar-se da violência do ‘submundo’, que os aprisiona no próprio bairro. Foto EPA/Miguel Gutierrez.

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