Sínodo: ponto ao meio dia

Fazer o ponto ao meio dia significa, em linguagem marinheira, o cálculo da posição do navio, ao meio-dia solar, como o nome indica, durante uma singradura oceânica, posição esta que permite analisar o caminho percorrido e confirmar o rumo para o destino final.

É este o objectivo deste pequeno texto relativamente ao “navio do sínodo” que se encontra agora em alto mar em velocidade de cruzeiro.

O documento agora publicado pela Secretaria Geral do Sínodo, designado por Documento de Trabalho para a Etapa Continental, (DEC), surge depois da uma primeira fase consultiva.

Na primeira fase consultiva foram implicadas milhões de pessoas, cujos contributos foram enviados pelas diversas comunidades às Dioceses, que os sintetizaram e enviaram às Conferências Episcopais.

O DEC, que recolhe e restitui às Igrejas locais quanto o Povo de Deus do mundo inteiro disse no primeiro ano do Sínodo, tem por finalidade guiar-nos e permitir-nos aprofundar o discernimento, tendo presente a interrogação de fundo que anima todo o processo:

Como se realiza hoje, a diversos níveis (desde o local até ao universal), aquele caminhar juntos que permite à Igreja anunciar o Evangelho, em conformidade com a missão que lhe foi confiada? E quais os passos que o Espírito nos convida a dar para crescer como Igreja sinodal?

Segundo este documento, a participação a nível global foi superior a todas as expetativas. À Secretaria do Sínodo chegaram as sínteses de 112 das 114 Conferências Episcopais e de todas as 15 Igrejas Orientais Católicas, às quais se juntam as reflexões de 17 dos 23 dicastérios da Cúria Romana, além das que vieram dos Superiores Religiosos (USG/UISG), dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, de Associações e Movimentos de fiéis leigos.

Além disso, chegaram mais de mil contributos de pessoas singulares e de grupos, além de sugestões recolhidas nas redes sociais.

Estes materiais foram distribuídos a um grupo de peritos provenientes de todos os continentes e com competências disciplinares muito variadas que se reuniram durante duas semanas com o grupo de redação. Em conjunto trabalharam num clima de oração e discernimento para partilhar os frutos da sua leitura tendo em vista a elaboração deste documento.

O DEC é o instrumento através do qual na Etapa Continental se pode realizar o diálogo das Igrejas locais entre elas e com a Igreja universal. Para levar por diante este processo de escuta, diálogo e discernimento, a reflexão centrar-se-á à volta de três interrogações:

  • Depois de ter lido o DEC em ambiente de oração, quais intuições ecoam, de modo mais intenso, com as experiências e as realidades concretas da Igreja do vosso continente?
  • Quais as experiências que vos parecem novas ou iluminadoras, quais as tensões ou divergências substanciais que surgem como particularmente importantes na perspetiva do vosso continente? Consequentemente, quais são as questões ou interrogações que deveriam ser enfrentadas e tomadas em consideração nas próximas fases do processo?
  • Olhando para aquilo que emerge das perguntas precedentes, quais são as prioridades, os temas recorrentes e os apelos à ação que podem ser partilhados com outras Igrejas locais no mundo e discutidos durante a Primeira Sessão da Assembleia sinodal em outubro de 2023?

Cada Assembleia Continental é chamada a pôr em ação um processo de discernimento sobre o DEC que resulte apropriado ao seu contexto local, e redigir um Documento Final que disso dê conta. Os Documentos Finais das sete Assembleias Continentais serão utilizados como base para a elaboração do Insrumentum laboris, que será concluído até junho de 2023.

O processo que conduzirá à redação do Instrumentum laboris será o seguinte:

  • a) O DEC será enviado a todos os bispos diocesanos, que, juntamente com a equipa sinodal diocesana que coordenou a primeira fase, organizará um processo eclesial de discernimento sobre o DEC, a partir das três perguntas acima indicadas. Cada Igreja local terá assim a possibilidade de se pôr à escuta da voz de outras Igrejas, recolhidas no DEC, e de dar resposta a partir da própria experiência.
  • b) Com o envolvimento da própria equipa sinodal, cada Conferência Episcopal tem a tarefa de recolher e sintetizar, na forma mais apropriada ao seu contexto, as reflexões acerca das três perguntas vindas das diversas Dioceses.
  • c) A reflexão e o discernimento de cada Conferência Episcopal serão depois partilhadas no interior da Assembleia Continental, segundo as modalidades individuadas pela Task Force continental.
  • d) Ao programar o desenrolar de cada Assembleia Continental, poderá ser útil refletir sobre como usar o método difundido e muito apreciado da conversação espiritual (cf. Vademecum, Apêndice B, n. 8), que pode facilitar o envolvimento de todos no discernimento. São valorizadas especialmente as suas três fases: o tomar a palavra por parte de cada um dos participantes, a ressonância da escuta dos outros e o discernimento dos frutos por parte do grupo.
  • e) Cada Assembleia Continental redigirá o próprio Documento Final de cerca de vinte páginas, confrontando-se com as três perguntas a partir do próprio documento específico. Os Documentos Finais deverão ser transmitidos por cada uma das Task Force continentais à Secretaria do Sínodo, até 31 de março de 2023. Sobre a base dos Documentos Finais das Assembleias Continentais, até junho de 2023, será redigido o Instrumentum laboris.
Navio escola Sagres, 2009
V. J. Matthew - stock.adobe.com
Navio escola Sagres, 2009 V. J. Matthew – stock.adobe.com

Para o Papa Francisco, pôr em prática uma Igreja Sinodal é um pressuposto indispensável para um novo impulso missionário que envolva todo o Povo de Deus. Ao propor a dimensão sinodal como objecto de reflexão do Sínodo dos Bispos, Francisco quer incluir não só toda a Igreja, mas também todas as sociedades onde esta está inserida, alargando o seu horizonte e propondo novos diálogos. Assim, com o Espírito Santo a soprar no velame, o “navio do sínodo” segue o seu rumo

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