Sinodalidade da Igreja como comunidade em caminho

O termo sínodo tem como raiz etimológica os termos gregos syn e hodos. Syn quer dizer em conjunto, todos juntos, ao mesmo tempo, de que se pode derivar ‘num mesmo ato’, num ato comum. Ora, é este ato comum que constitui a assembleia, que, também em grego, se diz ekklesia, ecclesia, igreja.

A Igreja é, assim, imediatamente, este syn, esta assembleia que a todos reúne, Igreja que consiste num ato comum. De notar que este acto comum não significa um ato ‘misturado’ ou um ato confuso, ou um ato anónimo. O que o syn cria é a relação profunda e verdadeiramente íntima entre os membros que congrega, as pessoas. A Igreja é um ato comum de pessoas, isto é, de seres humanos todos diferentes, mas todos semelhantes, semelhança que cria a própria possibilidade da Igreja, pois, sem ela, como reunir o, de outro modo, disperso?

É nesta qualidade relacional do syn que se encontra o cerne da Igreja, que é humano, transcendentalmente, mas que é também divino, pois é o dom de semelhança, que permite a diferença pessoal (não é, assim, uma igualdade aniquiladora da possibilidade do diferente), que permite também o encontro, a reunião, que permite pôr em comum isso que, no concreto da ação de cada pessoa, cria a assembleia.

Esta assembleia cristã funciona ao invés das outras assembleias, que se formam pela exclusiva resposta às necessidades humanas, apenas passíveis de serem respondidas, quiçá, anuladas através da reunião dos diferentes talentos. A assembleia cristã não nega a necessidade humana – que não é negável, é substancial –, mas não se funda nela, antes, numa dinâmica própria diversa, assenta sobre o sentido do dom, do puro dom, que pode ser exercido mesmo quando não há necessidade, sobretudo quando não há necessidade.

Este sentido do dom fundamenta-se no ‘dom dos dons’ que é o ato criador primeiro realizado pelo próprio Deus, que, a partir da sua infinita grandeza positiva e do nada do restante criou o mundo, isto é, todo o acto do que, de algum modo, se move, se diferencia.

É no vetustíssimo Génesis, logo nos seus primeiros atos, que se encontra o sentido profundo do Logos de Deus, não apenas como palavra – talvez ilusoriamente decalcada da frágil palavra humana, tão dada à falta de rigor –, mas, precisa e modelarmente de forma definitiva, como ato. Neste ato, Deus transmite todo o poder-ser para o bem às criaturas, mormente à criatura humana.

É o primeiro ato de reunião, de assembleia, de ‘igreja’, em que Deus, pela posição de tudo no ser, cria o primeiríssimo syn, a primeira, total, congregação de todas as criaturas (como São Francisco percebeu isto tão bem!). Esta ‘igreja’ é o primeiro ato litúrgico, duplo, de serviço de Deus ao mundo, criando-o – serviço absoluto –, e de serviço do mundo a Deus, não em vão louvor de palavra, mas em ato de louvor a Deus, ao cumprir-se a si próprio em bem realizado a partir do bem possível, que é criaturalmente. Esta primeira ‘igreja’ é o mítico paraíso. Todavia, possível como real, se se cumprir em movimento de bem.

Chega-se ao segundo elemento do termo sínodo, hodos, o caminho. O termo, em grego, significa, para lá de caminho, também estrada, estrada larga, que são objetos estáticos uma vez criados; todavia, significa, ainda, marcha, marchar, caminhar, viajar por terra ou por mar, no que já é um modo ativo, precisamente esse que cria estradas, caminhos, carreiros.

Como é evidente, hodos é fundamentalmente o caminhar, pois é este que cria o caminho, o caminho próprio – e não há outro, senão ilusoriamente; cria caminho, vida e ser, trilhando, abrindo passagens onde passagens não havia.

Ora, se, na vez de caminhar, se puser agir, percebe-se que cada pessoa coincide em ato com o seu próprio caminho, como o seu próprio hodos. A Igreja é, deste modo, o caminhar em comunidade das pessoas que, em cada momento que se queira considerar, criam um determinado caminho.

Todavia, que caminho é este? Não são todos os atos de todas as pessoas também assim sinodais, mesmo quando tal sinodalidade tem como fim e meio a prática do mal? A resposta a esta última questão é: sim.

Deste modo, à Igreja não basta a simples sinodalidade, que pode ser posta tanto como criadora do caminho para a Nova Jerusalém como para a “nova auschwitz” (o uso de minúsculas é propositado).

Que marca e estabelece, então, a diferença fundadora da sinodalidade própria da Igreja, que não é uma qualquer?

A marca ‘são’ três: Deus, na sua sinodalidade própria de Santíssima Trindade. Este é o fundamento da sinodalidade da Igreja e sem ele não há sinodalidade alguma, não há Igreja alguma, apenas ilusões eclesiásticas, negadoras do que há de mais precioso na Igreja.

É Deus como sinodalidade de Amor entre as Três Pessoas em que o seu ato consiste que é o paradigma da sinodalidade da Igreja. O Pai, absoluto criador do mundo; o Espírito, segundo o Logos que é e com que o mundo foi criado, como ato lógico de amor divino; o Filho, fundador da Igreja histórica, possibilidade de mundano cumprimento de um comum caminho de bem num mundo que já não é o prístino ato de amor acabado de sair das mãos de Deus, mas que é, ainda e sempre, passível de se reencaminhar, de se ‘re-sinodalizar’ como caminho de bem, para Deus, até Deus: ‘Adeus’.

Ora, o modo deste sínodo, deste caminho, não apenas comum em ato, mas em ato de comunidade, é único e recebe o nome – tão acarinhado por Francisco, o Papa – de “misericórdia”. A sinodalidade da Igreja é o caminho em comunidade de misericórdia de Deus através de quem assim o quiser, batizado pela água da santa pia ou apenas pelo próprio ato criador de Deus, agente batismal primeiro.

Se há um batismo de fogo, não poderá haver um batismo de misericórdia, prévio a qualquer outro e único capaz de reunir todas as criaturas humanas? O limite desta Igreja da Misericórdia não é o próprio mundo? Deste limite até Deus é o caminho a trilhar.

A sinodalidade é, assim, o trilhar de caminhos em comunidade no seio da possibilidade infinita de divina misericórdia, quer dizer, do mundo.

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