Sentido e caminho

A escuta da voz de Deus no grito humano pela paz preparação para o caminho de vida

Toda a vida humana é sinodal. Não se trata somente da vida dos cristãos ou dos judeus. O termo “sínodo”, como se sabe, é, aliás, grego, formado a partir da gramática de um povo pagão. A sinodalidade da vida humana é não só universal, mas necessária: “sinodalidade” significa “modo político” de existência, quer dizer, modo de se ser sempre como relação entre duas ou mais pessoas.

Todo o ser humano nasce de uma relação política, o ato sexual de que provém (ou algo que o substitua, mas que implica sempre um outro que o realize). É aqui que a sinodalidade fundamental do “ser-se humano” tem a sua origem mais remota em termos antropológicos universais.

Para o cristão, a sinodalidade tem o seu início absoluto em forma trans-mundana na relação política necessária entre criador e criatura: só somos, cada um de nós, porque, em ato político, Deus nos criou, a cada um de nós, iniciando, assim, a fundamental sinodalidade, essa que existe entre esse que criou e esse que foi criado.

Toda a nossa existência, se manifesta, assim, como ato sinodal, em que a convivência política é sequência mundana da convivência entre Deus e a sua criação.

Ora, como se prova mítica e simbolicamente no livro fundador da nossa tradição, o Génesis, não é possível que haja uma sinodalidade que permita que se cumpra o melhor bem possível para as criaturas, se não houver paz: quando Caim mata Abel, é a possível sinodalidade humana que se aniquila. O humano aniquila a possibilidade do humano. A história da humanidade deveria ter ficado bloqueada neste e por este ato. Não ficou.

É com a antropologicamente terrível cena de Sodoma e Gomorra que o sentido da ausência de paz, de ordem que permita a vida digna de humanidade, mais grave se torna.

Perante a ausência de paz que se vivia em tais aglomerados de pessoas − não são cidades, que, para o serem, têm de “ser em ordem”, estar em paz − logicamente se levanta a iminência da sua aniquilação. Todavia, também perante tal iminência, levanta-se a voz humana, em suprema aflição e cuidado para com os justos, cuja ruína – aniquilação – macularia o sentido da ação do próprio Deus: “salva as ‘cidades’ em nome do absoluto de bem presente nos justos aí presentes!”.

Segundo a mesma lógica de absoluto de bem, irredutível, pois é marca substantiva do próprio Deus, dele indiscernível criaturalmente (o bem é sempre consubstancial a Deus), Deus acede a poupar as ‘cidades’ se nelas houver algum bem. A narração é bem conhecida: “e se houver n? – Sim, salvo”; “e se houver (n – x)? – Sim, salvo”; […]; “e se houver dez? – Sim, salvo”.

Como se sabe, não havia, depois de a voz humana que pediu e seus justos amigos terem saído, rastro de justiça em tais ‘cidades’, pelo que a sua destruição, aniquilação, seguiu a lógica que a provocou.

Sodoma e Gomorra aniquilaram-se por falta de justiça, que o mesmo é dizer, por falta de paz, pois apenas em justiça há paz. Esta última não é senão o modo de vida em que a justiça, em sentido divino, não como direito positivo (o mesmo que produziu as infames e legais ‘Leis de Nuremberga’), impera.
O mito de Sodoma e Gomorra, que não deixa de ser “palavra de Deus”, significa, então, que não pode haver vida propriamente humana sem justiça, sem paz.

Significa, assim, que a sinodalidade da vida humana como possível comunidade política – se perfeita, cumpre-se como “cidade de Deus”, como Agostinho tão bem intuiu – não é passível de ser sem que haja justiça e consequente paz.

Significa, para lá de muitas outras ‘coisas’, uma outra fundamental em termos antropológicos, éticos e políticos: é que quem tem de realizar a justiça e a paz no mundo são os seres humanos, não Deus.

Memorial de Treblinka (pormenor). Foto Tajchman Maria, 2013, Commons Wikimedia
Memorial de Treblinka (pormenor). Foto Tajchman Maria, 2013, Commons Wikimedia

Não é Deus quem realiza por cada pessoa humana o seu labor próprio: não é Deus quem está em Auschwitz ou em Treblinka, mas os que agem segundo o mesmo bem que é Deus; então, através do ato humano de bem, Deus está presente. Todavia, apenas através deste ato. O mais é magia, estultícia, desresponsabilização: “Deus não foi a Treblinka resolver ‘aquilo’”. Porém, tu também não, tu soldado, tu seminarista, tu operário, tu camponês, tu diplomata.

No entanto, quando cada um dos acima invocados paradigmaticamente, por exemplo, Aristides de Sousa Mendes, fez o bem que podia fazer contra o mal triunfante, este não triunfou exatamente por meio de sua ação, e, nela e por ela, Deus esteve presente.

É este o cerne de qualquer possível sinodalidade: a comunidade de ação segundo o bem; o caminho em comum segundo o bem, que é, por ser segundo e para o bem, sempre, para Deus.

No momento presente, em que a bestialidade predadora de tiranos e oligarcas, a quem tudo se permitiu em nome do poder e da exterior riqueza de que os impotentes são sempre avaros, em que há tantos e talvez tão inesperados atos espontâneos de humana generosidade, encontramos, neste caminhar com as vítimas inocentes da guerra, dando-lhes o divino bem do abrigo e do pão, a melhor forma de sinodalidade.

Caminho conjunto da paz. Sem este caminho conjunto de paz, uma humanidade transformada na bestial aldeia de lobos raivosos de Hobbes, cavará a sua definitiva sepultura, como Sodoma e Gomorra. Se assim for, negada a paz dos vivos, paz eterna a seus cadáveres.

A misericórdia de Deus não é burguesa psicologia mágica: precisa de nós como instrumentos sinodais de bem, de paz.

Foto da capa: Caim mata Abel. Xilogravura de Albrecht Dürer, Nuremberga, 1511. Foto Rijksmuseum, 2019, Commons Wikimedia.

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