São Carlos de Foucauld – A mística do último lugar

A um de Dezembro celebra-se a memória litúrgica do Irmão Carlos, recentemente canonizado. Revisitemos esta figura, que poderá ser inspiradora para a renovação da Igreja, no seu atual processo de sinodalização.

Nascido de uma rica família aristocrática e burguesa, Carlos de Foucauld rejeitou, após a adolescência, a sua educação religiosa. Ao serviço militar no exército francês, (tendo tido aí problemas disciplinares, por ser rufião e desordeiro), foi enviado para a Argélia, onde começou o seu fascínio pelo Norte de África.

O contacto com os muçulmanos devotos marcou o princípio da sua conversão. Testemunhou num dos seus escritos que o Islão o “sacudiu até à medula”, explicando desta maneira a razão do seu fascínio: A visão dessas pessoas que vivem na presença contínua de Deus, fez-me vislumbrar algo maior, mais verdadeiro do que as preocupações mundanas. Comecei a estudar o Islão e, em seguida, a Bíblia.

Após o seu regresso a França, deu-se a sua fulgurante conversão, que lhe abriu um novo horizonte para a vida: Assim que eu acreditei que havia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele. A minha vocação religiosa data do mesmo momento em que começou a minha fé.

Este que fora um aristocrata e aventureiro mundano veio a tornar-se num verdadeiro revolucionário na forma de anunciar o Evangelho, ao viver um amor apaixonado por Jesus, de quem procurou imitar os trinta anos da sua vida obscura em Nazaré. No seu diário deixou escrito que a sua vocação seria a de pregar o Evangelho em silêncio, como fizera Jesus na sua vida escondida em Nazaré e como tinham feito Maria e José. À procura desta radicalidade, faz-se monge trapista, a seguir eremita em Nazaré e finalmente escolhe ser ordenado presbítero. Não satisfeito com as comunidades religiosas por onde passou, escolheu viver a simplicidade do Evangelho no meio das pessoas mais simples.

Foi este estilo de presença apagada que o levou a uma despojada doação aos mais pobres dos pobres, vindo a acabar os seus dias em Tamanrasset, um pequeno povoado de uma região remota das montanhas vulcânicas de Hoggar.

Percebendo que seria muito difícil converter um muçulmano ao cristianismo, viveu uma radical forma de inculturação, em terras remotas do Norte de África. Foi aí que ele aprendeu a língua dos nativos, tendo feito um dicionário tuaregue-francês e francês-tuaregue. No mais profundo do deserto do Sahara, quis fazer a experiência do amor incondicional de Jesus entre os mais distantes e desprezados, fazendo-se irmão de todos. Em contraste com uma atitude muito comum na época, sustentando que o mundo é o lugar do mal e que a Igreja deveria retirar-se daí para não se manchar, o Irmão Carlos aproximou-se da vida quotidiana do povo simples e pobre, sem fazer distinção de raça ou religião. Não visava converter pelo proselitismo, mas anunciar o amor gratuito de Deus, através do trabalho e da oração, em total comunhão de vida com o povo.

Num dos seus escritos, deixou-nos este testemunho: Quero acostumar todos os habitantes, cristãos, muçulmanos, judeus e idólatras, a considerar-me como seu irmão, o irmão universal. Refere num outro texto que o seu dia mais feliz foi quando os pobres nómadas começaram a chamar fraternidade à casinha em que habitava. Como nos lembra a encíclica Fratelli tutti, “foi este testemunho que levou as pessoas a descobrir que ali estava quem queria ser o irmão de todos”. Ao receber os membros da Associação Família Espiritual Charles de Foucauld, o Papa avançou que “como Igreja, precisamos de voltar ao essencial, não nos perdermos em tantas coisas secundárias, com o risco de perder de vista a pureza simples do Evangelho”. Advertindo que vivemos “num tempo em que há o risco de fechar-nos nos particularismos, ou de aumentar a distância, de perder de vista o irmão”, o Santo Padre destacou que a abertura à universalidade de que o Irmão Carlos deu exemplo constitui um importante caminho a ser percorrido pela Igreja.

Lê-se no documento-síntese da consulta sinodal que “as periferias podem ser o lugar em que ecoa um apelo à conversão e a pôr decididamente em prática o Evangelho” (nº 32). O carisma deste novo santo poderá ser muito inspirador para este propósito de caminhada sinodal da Igreja.

O despojamento de honrarias e o testemunho de simplicidade e pobreza do Irmão Carlos constituem um dos travejamentos da renovação da Igreja, libertando-a das roupagens mundanas, que ainda persistem, por exemplo, nos tratamentos nobiliárquicos e anacrónicos títulos hierárquicos da sua hierarquia.

O desejo de gritar o Evangelho com a vida, de que Carlos de Foucauld nos deixou um notável exemplo, é a grande chave do rejuvenescimento da Igreja, neste tempo em que, como nos lembrava Paulo VI, as pessoas escutam mais os testemunhos dos que os mestres.

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