Santo António dos refugiados

Artigo de Giulia Cananzi, Messaggero di Sant’Antonio

Em Myanmar, país isolado do mundo e devastado pelas atrocidades militares após o golpe de estado de há um ano, estamos a ajudar centenas de refugiados, graças ao apoio da Cáritas Antoniana, de seis freiras birmanesas e dos “Meninos de Santo António”. Uma história de dor e esperança, um testemunho exemplar.

A carrinha arranca pelas estreitas estradas da montanha por entre a densa floresta. O exército da Força de Defesa do Povo (PDF) abre caminho até aos campos de refugiados mais inacessíveis, onde as pessoas se refugiaram para escapar à violência feroz dos militares. Perderam tudo: casa, trabalho, contacto com os outros membros da família. Dentro da carrinha, sacos de arroz, cobertores, lonas e medicamentos dançam ao ritmo dos buracos. Por cima de todo o material, está um cartaz escrito à mão: “Santo António”. Estamos em Myanmar, um país do Sul-leste asiático, um ano depois do golpe de Estado militar, quando, no rescaldo da vitória esmagadora da Liga Nacional da Democracia de Aung San Suu Kyi, os militares contestaram as eleições e tomaram o poder.

As pessoas no campo de refugiados não conhecem Santo António, estão marcadas pelo sofrimento e pelas privações, mas, logo que aparece a carrinha começam a gritar: “Santo António! Santo António!”. Os jovens que estão dentro da carrinha, porém, conhecem bem o Santo, pois desde pequenos, quando frequentavam a escola construída pelas missionárias do Santíssimo Sacramento de Loikaw, viam a imagem do Santo na casa das irmãs. Os rapazes da carrinha, depois das aulas, iam para a casa das Irmãs: por isso Santo António já fazia parte das suas vidas.

Descida para a noite

Loikaw é a capital do Kayah, o território mais quente da guerra em curso, onde se refugiaram muitos dos grupos étnicos reprimidos pelos militares, pelo que foi constituída aqui uma resistência armada que agrupou grande parte da oposição, incluindo muitos médicos e enfermeiros, que foram dos primeiros a reagir contra o golpe.
Mas Kayah é também o estado em que a presença da minoria católica, hoje mais do que nunca perseguida, é mais consistente. Oiçamos a Irmã Rossana, responsável das irmãs em Myanmar. O seu sorriso contrasta com a situação dramática:

As nossas irmãs, todas birmanesas, resistiram em Loikaw enquanto puderam. Protegiam as raparigas, enviavam ajuda para as montanhas, acolhiam os refugiados. “Quanta oração a nossa imagem de Santo António recebeu nessa altura!”.
As 16 paróquias da diocese de Loikaw estão vazias; também as irmãs, divididas em três grupos, dirigiram-se para os campos de refugiados para levar ajuda. Graças a elas e à Cáritas Antoniana, procuram ir ao encontro daqueles que estão em extrema dificuldade. Com o apoio da Cáritas, conseguimos também recuperar um poço, que hoje dá água a 200 famílias.

Fora dos campos o caos reina e a situação é dramática, diz a irmã Rossana:

Nos primeiros três meses após o golpe de Estado não houve grandes mudanças. Tudo começou com as medidas anti-covid: não era possível sair de casa, a não ser uma hora e meia de manhã para ir ao mercado. O controle tornou-se mais apertado. Em maio, a situação em Kayah tornou-se infernal. Os militares entravam nas casas e vasculhavam-nas para encontrar sinais de pertença às pessoas do PDF. Em caso de suspeita, havia detenções sumárias, espancamentos e toda a família era atingida. Os militares queimavam bens, arroz e, às vezes, aldeias inteiras. Houve, até, cenas de crueldade horrível: há dias, prenderam, torturaram e mataram seis adolescentes, entre os 15 e os 17 anos. As pessoas, primeiro, refugiaram-se nas igrejas, que inicialmente eram poupadas, mas, depois, começaram a bombardear indiscriminadamente, a destruir casas, mercados e todo o tipo de atividades, até que a permanência nas aldeias se tornou impossível. A pobreza e o medo fizeram com que algumas pessoas se tornassem espiões do governo: fingiam-se refugiados, mas depois, em troca de alguns tostões, denunciavam quem tivesse algum contacto com os rebeldes. Assim, a situação tornou-se ainda mais angustiante.

Também nós, em Loikaw

No dia 24 de dezembro, que passou à história como “o massacre de Natal”, os militares mataram 35 pessoas, inclusive quatro crianças, queimando-as vivas. A notícia conseguiu passar para o Ocidente, absorvido pelo Covid, só porque entre os mortos havia dois jovens birmaneses membros da Save the Children.

À direita: Irmã Ri Moe consolando uma refugiada. Fotos messaggero di Sant’Antonio, edição de 1/3/2022.
À direita: Irmã Ri Moe consolando uma refugiada. Fotos messaggero di Sant’Antonio, edição de 1/3/2022.

No dia 23 havia também uma carrinha de Santo António nas montanhas ao redor de Loikaw − recorda a irmã Rossana. O ambiente era de festa, porque a ajuda tinha felizmente chegado. Alertei a Irmã Giusy, a superiora, para que avisasse os rapazes da ajuda de Santo António para não continuarem a viagem, pois podia ser muito perigoso. No dia seguinte chegou a notícia dos 35 mortos, que nos abalou. O massacre ocorreu no mesmo caminho que os nossos rapazes deveriam ter feito.

Hoje, as mortes sumárias estão na ordem do dia; 400.000 pessoas fugiram das suas casas, 30.000 procuraram asilo nos países vizinhos. Myanmar mergulhou na miséria: a moeda entrou em colapso, a inflação está a subir, uma em cada duas pessoas vive abaixo do limiar da pobreza. Uma tragédia imensa que o mundo continua a ignorar e que o Papa Francisco insiste em denunciar, como na audiência geral do início de fevereiro, quando sublinhou que não podemos ficar indiferentes à “violência que está a ensanguentar Myanmar”, relançando depois o apelo dos bispos birmaneses “para que a comunidade internacional trabalhe pela conciliação das partes”.

E enquanto os grandes da Terra decidem (ou não decidem) o que fazer, é emocionante pensar que também nós, na noite mais escura de Myanmar, juntamente com os “meninos de Santo António” e as Irmãs de Loikaw, estamos nos campos dos refugiados, ao lado dos mais pobres dos pobres.

Repete a irmã Rossana, traindo a emoção:

É um milagre: conseguimos comida, medicamentos, cartões telefónicos e conforto através das irmãs. Às vezes, desanimo, mas, quando penso na coragem das minhas irmãs e das pessoas, no amor que eles têm pelo seu povo, volto a esperar e confio que a noite irá acabar. Obrigado pela vossa ajuda, muito, muito preciosa. Não nos abandoneis. Rezai, rezai, rezai.

Acompanhe este projeto em www.caritasantoniana.org

Foto da capa: Irmã Cristina com algumas crianças, antes do golpe de estado.

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