Rostos femininos que deixam marca

Na nossa apresentação de profetas do nosso tempo, não podia faltar o perfil de mulheres que mudaram a história desafiando a sociedade do seu próprio tempo. Ainda por cima, estamos no mês de Março que tem um dia especial dedicado à mulher.

Sem dúvida, é incalculável o número de mulheres “profetas” que marcaram a história, a ciência, a cultura, a arte e até o universo religioso do nosso tempo. Mulheres fortes que lutaram e lutam para entregar um futuro melhor ao ser humano do amanhã. Resolvi escolher três perfis, sabendo que deixo para trás muitas outras e provoco desilusão pela visão de vida que cada uma encarna. Mas, porque não ouvir e escutar também quem está fora do nosso recinto antropológico, cultural, religioso (e também ideológico)?

Vivemos numa sociedade que continua a exaltar as personagens masculinas. Conhecemos muito bem os nomes, as empresas e as virtudes de figuras históricas do passado como Júlio Cesar, Carlos Magno, Napoleão (dispenso a referência aos ídolos masculinos do nosso tempo!)… enquanto é mais fácil esquecer ou ignorar mulheres que contribuíram para o bem da humanidade.

Rosalind Franklin

Uma destas é Rosalind Franklin, um nome talvez desconhecido, mas que, de facto, foi uma mulher que mudou a história.

Nasceu em Londres, a 25 de julho de 1920, de uma família judaica.
Estudou Ciências Naturais no Newnham College em Cambridge, onde se formou em 1941. Nos primeiros anos foi pesquisadora no âmbito da físico-química.

Rosalind Franklin tornou-se famosa no seu tempo pelo trabalho com imagens da difração de raios-X do DNA, particularmente pela foto 51, que levou à descoberta da dúplice hélice do DNA. A fotografia foi roubada sem ela saber e caiu nas mãos de James Dewey Watson que, juntamente com o seu colega Francis Crick, depois da publicação na revista Nature, ganhou o Nobel da Ciência graças a esta foto. Enquanto Rosalind morreu poucos anos depois, a 16 de Abril de 1958, com apenas 37 anos, por um câncer nos ovários, devido aos raios-X!

Outro âmbito de pesquisa de Rosalind Franklin foram as estruturas moleculares dos vírus. Graças a ela, outro cientista, Aaron Klug, ganhou em 1982 o Prémio Nobel de Química.

Malala Yousafzai

Ainda hoje existem numerosos países onde os direitos são muito diferentes entre homens e mulheres. É o caso do Paquistão, onde às mulheres é negado o direito à educação.

Malala Yousafzai tinha 11 anos quando foi baleada pelos talibans a caminho da escola por não ter baixado a cabeça aos abusos, tornando-se um exemplo de mulher que muda a história.

Em 2009, os extremistas religiosos conseguiram impor a sharia, a lei islâmica, e o terror entrou na sua aldeia, com as adolescentes a serem perseguidas por frequentarem o ensino. A situação começou a ser relatada por Malala num blogue da BBC, foi ela a única a ter coragem para o fazer porque as professoras temiam as consequências.

O sucesso do seu Diário chamou a atenção dos talibans que, a 9 de outubro de 2012, dispararam sobre ela, atingindo-a na cabeça. A menina foi levada para o Hospital da Rainha Isabel, em Birmigham, Reino Unido, onde esteve em coma durante vários dias. Malala sobreviveu ao ataque e ficou mais forte. A jovem paquistanesa, ouvida hoje em dia em todo o mundo, discursou nas Nações Unidas e tornou-se a pessoa mais nova a receber o prémio Nobel para a Paz, com 17 anos de idade.

Greta Thunberg

É talvez uma das mulheres com mais publicidade. A revista Time dedicou-lhe a capa da edição de dezembro 2019, eleita como personalidade do ano. Trata-se da jovem Greta Thunberg, a ativista sueca que com as suas intervenções chamou à atenção do mundo inteiro para as mudanças climáticas. Com razão, foi definida a “voz das novas gerações”.

Com apenas 15 anos, Greta deu vida a um movimento global de jovens capazes de dar a cara perante o mundo dos adultos e da política que até agora falharam. Uma geração que manifesta o próprio “descontentamento” – disse o Papa Francisco – contra a destruição da nossa terra, a casa comum, de que somos responsáveis em primeira pessoa. O que iniciou no mês de agosto de 2018, nos degraus do Parlamento de Estocolmo, uma adolescente sozinha, com o capucho do casaco na cabeça e uma tira com a escrita “greve escolar pelo clima”, tornou-se uma queixa global em 150 países, com acerca de 6 milhões que se uniram na maior manifestação pelo clima da história da humanidade.

Haverá muita coisa para melhorar, nas incongruências juvenis, mas só uma cultura farisaica não quer ter olhos para reconhecer que algo de novo está a germinar.

Foto da capa:
Em cima: Malala Yousafzai nos 25 anos do Prémio Sakharov (Foto de Michel Christen | European Union 2013 – EP) e raparigas Paquistaneses com cartazes de Malala por ocasião da atribuição do prémio Nobel da Paz 2014 (Foto EPA/SOHAIL SHAHZAD)
Em baixo: Greta Thunberg liderando uma manifestação em Antuérpia, Bélgica, 28 Fev 2019, com cartaz onde se lê GREVE PELO CLIMA (Foto EPA/STEPHANIE LECOCQ) e Rosalind Franklin (Commons Wikimedia). Em baixo: Desenho de Rori, 2017 CC-VY-SA.

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