Querida Amazónia… Dois anos depois

2 de fevereiro de 2020 é uma data para registar. Foi o dia escolhido pelo Papa Francisco para o lançamento da Exortação Apostólica Sinodal Querida Amazónia.
É uma carta de sonhos. De quatro sonhos. O sonho desvenda o futuro, indica horizontes de caminhos por trilhar. Faz acontecer o que se espera. Uma Carta Apostólica não é um documento para arquivar. É um processo dinâmico a reunir vontades e a concretizar desafios. Dois anos depois como vão os quatro sonhos do Papa Francisco?

Várias vozes surgiram neste aniversário para sublinhar as sementes que germinaram desta sementeira em terra arada e revolvida. A estruturação do Sínodo da Amazónia e a sua realização são um modelo orgânico para o desenvolvimento de uma Igreja sinodal, capaz de se deixar converter pela escuta e pela descoberta do que está a acontecer no interior do povo de Deus.

São vozes de gente que no terreno vai acompanhando e esperando o milagre da germinação das sementes espalhadas há dois anos. Apresento uma pequena seleção de vozes com diferentes responsabilidades no acompanhamento da seara que vai germinando.

1. CELAM

O Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), Héctor Miguel Cabrejos Vidarte, OFM, arcebispo de Trujillo, no Peru, salienta as repercussões no interior do próprio CELAM, que realizou uma reestruturação profunda das suas estruturas para que estejam mais próximas do povo e possam ser mais ágeis no desenvolver de iniciativas:

Em comunhão com a Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama) e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), o Celam abraçou esses sonhos em seu recente processo de renovação e reestruturação – ressalta o arcebispo – assumindo-os como ‘pedra angular’ e referência permanente de seus eixos prioritários, em torno da centralidade de Jesus Cristo e como expressão de nosso compromisso com o desenvolvimento humano e a ecologia integral, e com uma Igreja sinodal em saída missionária.

Destaca, em seguida:

Os projetos e o trabalho que surgiram à luz da renovação são alimentados pelo Magistério Pontifício que recebemos através da ‘Querida Amazónia’ e procuram ser uma resposta efetiva aos gritos proféticos dos pobres e da Mãe Terra, através da inculturação do Evangelho nos territórios, da defesa dos direitos dos povos e das culturas ancestrais, dos quais temos muito a aprender.

2. Arcebispo de Palmas e presidente do regional Norte 3 da CNBB, D. Pedro Brito Guimarães

Numa das entrevistas realizadas pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) sobre os dois anos de Querida Amazónia, a primeira é com D. Pedro de Brito Guimarães, aqui citada a partir do Vatican News:

Foi uma agradável surpresa esta carta. Primeiramente pelo estilo. Na verdade, esta carta é uma verdadeira carta de amor à nossa região, à região Amazónica, com todas as suas belezas, riquezas, debilidades, conflitos, problemas e desafios. Eu queria destacar este género literário.
Quando todo mundo esperava um documento dogmático, canónico, de permissão e proibição, como é o estilo de nós todos, chegou uma carta de amor, o que para alguns foi um banho de água fria, mas para nós que temos este viés mais poético, este viés mais místico e contemplativo, nesta carta o grande significado, a mudança está no estilo, no género literário e nas abordagens, sobretudo, dos sonhos.
Isto parecia pouco para muita gente. Porque sonho é uma coisa normal a que as pessoas não dão valor. A partir de agora as pessoas consideram que sonho não é coisa de quem não tem nada que fazer ou está dormindo no travesseiro. Sonho é querer, é sede e desejo. Ai da pessoa, organismo ou instituição que não tenha sonhos. Quem já não sonha, morreu…
Eu diria que os três pontos positivos que estão acontecendo na Amazónia e que vêm do Sínodo, da preparação do Sínodo e da Querida Amazónia são a reunião, a revisão e a recriação. Parece-me que estes três pontos estão em processo de entendimento e de implantação. São processos lentos, graduais, invisíveis, mas estão sendo interiorizados no coração da Igreja e dos fiéis na Amazónia.

Floresta Amazónica. Foto 2015, Antonio Campoy | Commons Wikimedia.
Floresta Amazónica. Foto 2015, Antonio Campoy | Commons Wikimedia.

3. Daniela Cannavina, secretária geral da Confederação Latino-americana de Religiosos

São várias as congregações religiosas que diariamente tornam presente a missão da Igreja no mundo da Amazónia. Eis o testemunho de Daniela Cannavina:

Há uma tarefa pendente para continuar a fortalecer processos num tempo não muito amplo e de maneira comunitária…
A vida consagrada sente-se fortemente convocada uma vez mais a despertar para a Amazónia, sem nunca deixar de sonhar, já que os sonhos nos convertem em profetas. Continuamos a estimular muitas congregações a formar equipas itinerantes para continuar a dinâmica de escuta das realidades amazónicas, à luz do processo sinodal.

4. O secretário-geral do Sínodo dos Bispos, o cardeal Mario Grech

Por último e pelas suas responsabilidades no desenrolar da experiência sinodal da Igreja, a palavra do Cardeal Mario Grech:

Algumas sementes ainda estão em processo de germinação, outras ainda não deram frutos, mas muitas cresceram, estão florescendo e seguirão dando vida por gerações futuras. Em tudo isso, ‘Querida Amazónia’ permanece tão relevante agora quanto foi ao ser publicada. Continua sendo uma carta de amor escrita para e com o Povo de Deus que peregrina neste belo e ameaçado território; continua sendo uma carta que emana da gratidão do Papa Francisco pela força com que o Espírito Santo irrompe deste lugar teológico (locus) para iluminar e despertar o coração do mundo e da Igreja.

5. Dom Lauro, bispo de Colatina

Termino com o relato de um gesto. Ao tomar posse, o bispo de Colatina, Dom Lauro, surpreendeu tudo e todos com um gesto inesperado. Ele beijou os pés do indígena pataxó António Carlos, da aldeia Pau-Brasil, de Aracruz, e afirmou:

Queremos ser a igreja sempre mais fiel ao evangelho de Jesus, uma igreja pobre nos seus meios e para os pobres. E se há alguém com quem nós temos uma grande dívida, são os povos originários.

Então, chamou António Carlos até ao altar:

Eu gostaria que você recebesse este gesto dirigido a todos os povos originários, a todos os pobres, a todos os sofridos.

Foto da capa: Índios da tribo Pataxó. Foto 2006, Agência Brasil.

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