Quem toca, fica tocado

Ilustração de Luca Salvagno

António, cujo túmulo agora todos “tocam”,
foi o primeiro a tocar o coração de homens e mulheres.
Um toque abençoado, o dele,
que desencadeou curas no corpo e no espírito.
Isso, sabe-o bem a cidade de Pádua, a sua casa,
um lugar de piedade popular.

O gesto simples de tocar com a palma da mão no túmulo de Santo António em Pádua, rezando num fio de voz, tanto pode ser banal como carregado de significado.

É um gesto que, mais cedo ou mais tarde, cada peregrino faz quando entra na Basílica do Santo. O mesmo gesto une bispos, frades, homens e mulheres de todas as idades, nacionalidades, culturas e religiões. Um gesto tão humano, talvez considerado pouco nobre ou menos sagrado. Faz-se sem vergonha, e sem precisar de explicações, pois manifesta a necessidade de nos apoiarmos noutra pessoa, de a sentirmos concretamente ao nosso lado. Tocá-la. Não é falta de fé, antes pelo contrário, é uma afirmação concreta do nosso crer que, precisamente porque somos homens e mulheres, deve revestir-se de carne e osso, falar não só a linguagem das palavras, mas também a do corpo. Colocamos a mão, acariciamos com os dedos, estabelecemos um contacto físico, mesmo que seja através de um só dedo, como Elliot e E.T., o extraterrestre: e deste modo circula a comunhão entre nós e, neste caso, com Santo António.

Claro que nem tudo é límpido e linear e, talvez, nem sempre correto, naquilo que apelidamos de devoção popular nem sempre num sentido positivo. Mas será que existe um Santo António pop, feito de estampas, responsos, imagens, ex-votos, um António folclórico
e tradicional contraposto a outro, aristocrático e nobre, objeto de ensaios teológicos, sendo que ele próprio é doutor em teologia.

Certa vez, li uma invulgar definição do barroco, como estilo artístico e arquitetónico. O barroco é um estratagema, com os seus exageros, voltas, elipses, espirais, excesso, voltas, multidões de figuras vistosas, ousadas soluções arquitetónicas, abóbodas e tudo para quê? Para manter afastada a angústia, para enganar a luz e espalhá-la. A mesma coisa acontece com a devoção. Também é feita de forma semelhante, para ser capaz de suportar a muita luz, a muita fé, bem como tanto esforço, tanta dor e quantas perguntas.

Assim como a mulher anónima, “que sofria perdas de sangue há doze anos e tinha passado pelas mãos de muitos médicos, gastando todos os seus haveres sem obter qualquer resultado, antes, piorando”, tocou na borla do manto de Jesus (Mc 5, 25-34).
Assim fizeram os habitantes de Sansepolcro aquando da passagem de São Francisco, que acabava de descer do monte Alverne com os estigmas impressos na sua carne. Apinharam-se à sua volta para o tocar com as próprias mãos, sem que ele se desse conta (Vida Segunda de Tomás de Celano, FF 685).

Mas, o que talvez nos escapa é que aqueles que tocam, foram primeiro tocados! Jesus, passando por cima de normas e hábitos sociais de pureza e impureza, tocou olhos, línguas, cadáveres e, também, leprosos e crianças (Cfr. Mc 1,42; Lc 5,13; Mc 10,13; Lc 7,14). António, que todos agora “tocam” no seu túmulo e tentam tocar na imagem levada em procissão, tocou o coração de muitos homens e mulheres, sãos e doentes, livres e presos, pobres e ricos.

Um toque abençoado, que despoletou conversões, curas do corpo e do espírito: olhos que finalmente se abriram, mãos que largaram pedras e punhais, braços que acolheram e que se cruzaram no abraço da solidariedade, lábios que se abriram ao louvor e ao pedido de perdão. Na nossa vida de fé, tudo passa por um “grande toque”!

Imagino a vossa perplexidade. Isto não é muito lógico, não é verdade? Pouco importa, porque muitas vezes os fios da lógica servem só… para fazer tropeçar as pessoas!

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