Por que não reparas na trave que tens no olho?

A Palavra de Deus

Naquele tempo, disse-lhes também uma parábola: “Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão ambos numa cova? Um discípulo não está acima do mestre, mas todo o que ficou bem preparado será como o seu mestre. Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, deixa que tire o cisco que está no teu olho’, e não vês a trave que está no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e então verás com clareza para tirar o cisco que está no olho do teu irmão.

Lc 6, 39-42

A palavra de Santo António

O cisco designa a culpa leve; o olho, a razão ou o intelecto; a trave, a culpa grave.
“Quem peca não tem autoridade para castigar o pecador”.

São Gregório, no comentário à proibição feita a David de edificar o templo (2Reis 7, 12-12):
“Quem tem o cuidado da correção das faltas alheias, tem de estar livre de vícios e dos assuntos terrenos, para não sucumbir aos maus desejos.
Na medida em que se exige aos outros observar o dever de os evitar, deve ele mesmo afastar-se deles, por meio do seu conhecimento e da sua vida.

O olho, se estiver carregado de pó, não vê com clareza a mancha no órgão; e as mãos que trabalham com lama não conseguem limpar as sujidades.
Se queres repreender alguém, vê primeiro se tu não és semelhante a ele. Se o és, bate no peito e não pretendas que ele te obedeça, mas admoesta para que se esforce juntamente contigo.

Se não és como ele, mas já o foste noutro tempo ou poderias ter sido, condescende e repreende, não com ódio, mas com misericórdia. Raramente, pois, e apenas por grande necessidade, se há-de empregar a censura, e somente por respeito a Deus, depois de removida a trave do próprio olho”.

Sermões de Santo António, Quarto Domingo depois do Pentecostes

Aprofundemos

Este ensinamento de Jesus, que retoma o essencial do grande Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,27), é comentado por Santo António com numerosos argumentos, espirituais, morais, práticos, de simples bom senso e sabedoria.

O primeiro, tirado de São Gregório, consiste em olhar para si mesmo e para a própria consciência antes de pretender corrigir os outros. Em nome de quem e porquê julgamos os outros, se o nosso olhar, isto é, a nossa razão e a nossa inteligência, são obscurecidas por preocupações materiais e egoístas? O nosso primeiro dever é, portanto, conhecermo-nos bem a nós mesmos, a nossa maneira de pensar e de agir, purificando o nosso olhar para que o nosso olho fique claro. Trata-se apenas de bom senso.

Um olho sujo não pode ver claramente. Mãos sujas de barro são impróprias para limpar as mãos dos outros. Além dessas evidências, António acrescenta outros motivos tradicionais retirados de comentadores de seu tempo. Um médico não está apto para curar os outros se antes não cuida de si próprio; um olhar entreaberto, fingido, como o de um hipócrita, vê apenas os defeitos dos outros, não a sua própria arrogância, que é bem maior. Um poeta sabiamente diz: “Se tu vês as tuas más ações com os olhos cobertos de ciscos, por que olhas tão atentamente para os vícios dos teus amigos?”

Seguindo os conselhos do próprio São Gregório, António sugere, portanto, dois comportamentos. Se tiveres os defeitos que descobres no outro, bate no peito e ajuda o irmão a corrigir-se juntamente contigo. Se tu fores melhor, mas reconheces ter sido como ele no passado ou que poderias sido, corrige-o, não com ódio ou aspereza, mas com doçura e misericórdia.

A misericórdia é a grande característica do Evangelho de Lucas, realçada, além da presente parábola, por aquelas, ainda mais eloquentes, da ovelha, da moeda e do filho, perdidos e reencontrados.

Foto da capa: Arte de rua, Roma, janeiro de 2021, durante a segunda vaga da Covid 19. Foto EPA/RICCARDO ANTIMIANI.

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