Parâmetros Bíblicos da Sinodalidade
O desafio a uma nova forma de ser Igreja

Artigo de Frei João Duarte Lourenço

No Documento Preparatório em que o Papa convida a Igreja a envolver-se, durante o triénio de 2021-2023, na preparação do próximo Sínodo dos Bispos que terá como tema central a ‘Sinodalidade na Igreja’, o Santo Padre deixa um grande desafio ao Povo de Deus que passa, essencialmente, por pensar a Igreja a partir da identidade bíblica que lhe serve de fundamento e que deve pautar a sua forma de estar no mundo para que ela possa reencontrar os caminhos de Deus. Esta proposta implica um envolvimento que dê novo ânimo ao Povo de Deus enquanto parte ativa nos dinamismos da história.

Neste contexto, a primeira etapa deste percurso deve ser feita a partir de uma reflexão empenhada sobre a identidade bíblica da nossa fé, as suas raízes veterotestamentárias e a novidade que Jesus introduziu na história como expressão do verdadeiro rosto de Deus para os homens: “quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Por isso, em forma breve, delineamos aqui alguns dos traços marcantes daquilo que deve ser uma sinodalidade bíblica, tal como o foi para o povo de Israel ao longo da sua história e que o Papa coloca em destaque no Documento que orienta esta caminhada sinodal.

1. A sinodalidade está inscrita na caminhada do povo de Deus

A essência da sinodalidade passa, antes de mais, pela experiência de comunhão, partilhada entre Deus que se comunica e se dá a conhecer e o Homem, o Povo eleito, que se coloca em escuta da Boa-Nova que lhe é proposta. Disso faz parte a ‘categoria do encontro’, que define toda a marcha histórica do Povo de Deus.

Efetivamente, e ao contrário das experiências religiosas da antiguidade e daquelas que eram próximas e faziam parte do contexto religioso do antigo Médio Oriente, a fé bíblica tem no seu âmago uma relação de comunhão e não de confronto, de proximidade e não de medo ou de temor.

Isso está bem expresso na itinerância que Deus faz na história com o Seu povo e no diálogo constante, como que ‘institucionalizado’, em que Ele se torna agente da própria história do homem e é nesta que se fazem sentir ‘os Seus sinais, a Sua Palavra e se pressente a Sua presença nos acontecimentos’ (cf. Dei Verbum, nº 2).

Esta presença itinerante marca, desde o início, a revelação bíblica, bem expressa na forma como Ele se dá a conhecer a Moisés: Ex 3,14 (“Eu sou Aquele que sou”), ou seja, ‘Aquele que se faz caminhante com o Seu povo em caminho’ e, hoje, connosco na nossa comunhão em Cristo pela encarnação que tem a sua plenitude no mistério pascal do Ressuscitado.

2. Uma sinodalidade de aliança

A 1ª etapa da identidade sinodal do povo eleito nasce e radica na aliança, momento único na teologia bíblica. Não se trata de um processo de parceria ou de contrato, nem é uma conjugação de esforços a dois, em função de resultados profícuos para qualquer uma das partes envolvidas. Pelo contrário, a aliança é um processo de comunhão que se faz em caminhada, em que se conjugam a participação de Deus, na história do Seu povo e o envolvimento do povo no próprio projeto histórico-salvífico de Deus. É um caminho que comporta uma dinâmica que se expressa em dois momentos, em duas atitudes da parte do homem: a ‘escuta’ e a ‘procura’.

Esta marca da Aliança será, ao longo da história, aquela que dará identidade à fé bíblica, presente em todas a etapas dessa caminhada, uma aliança sempre renovada e aberta ao futuro, em que Deus não desiste, apesar da infidelidade e das recusas constantes do povo de Israel. Os ecos desta presença fazem-se sentir nos grandes momentos da história da salvação em que Deus se faz presente e reforça a confiança do Seu povo, oferecendo-lhe, de forma renovada, os dinamismos necessários à sua fidelidade.

3. A sinodalidade é uma proposta profética

A história bíblica traz em si um dinamismo profético que marca esta dinâmica de caminhada que os profetas traduzem, de forma sublime, neste binómio: “procurai o Senhor e vivereis” (Am 5,4.6).

Também Oseias recorre a expressões que nos mostram como o Deus da aliança é um deus de proximidade, em caminhada constante com o Seu povo: “Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços … era Eu quem cuidava deles…” (Os 11,3-4). A resposta da parte do homem a esta procura e a esta disponibilidade de Deus só pode ser a da reciprocidade, traduzida na ‘escuta e na procura’, o que faz da fé bíblica uma verdadeira religião (re-ligo) sinodal, de diálogo e de partilha.

Para os profetas, a resposta passa sempre por uma dinâmica de caminhada, em que “o primeiro momento é o desafio à fidelidade e à mudança de coração” (Jr 31; Ez 36,25-30). A primazia da ação está sempre do lado de Deus, mas a comunhão na aliança envolve igualmente todo o povo e esta deve acontecer sempre em diálogo, em partilha ativa de escuta, conversão e discernimento. Deste dinamismo profético sobressai, antes de mais, aquilo que poderemos chamar de ‘itinerância de Deus’.

Uma das mais belas passagens desta identidade profética está bem condensada em fórmula de oráculo na resposta dada por Deus a Nathan – o profeta vidente de David – quando este o manda consultar a Yahwé sobre a construção do Templo em Jerusalém, quando pretendia acompanhar os outros povos e as demais realezas que tinham também um palácio (um templo) para morada das suas divindades.

A resposta não podia ser mais clara e mais expressiva. Ela marcará toda a experiência histórica do povo eleito e pode servir-nos de ponto de partida teológico, mas essencialmente, de fundamento no que à sinodalidade bíblico-cristã se refere. Nesse oráculo, Yahwé diz a Nathan, de forma muito simples e direta, para este comunicar ao rei David:

Eu não careço de qualquer templo; Eu sou um deus que caminha convosco, no meio de vós, indo à vossa frente ou na retaguarda, fazendo o mesmo itinerário.

2 Sam 7,6-7

Este oráculo, de que o profeta se faz eco, faz-nos sentir que Deus não deseja estar retido num templo, pois não é um deus local, um deus de um templo, de uma cidade ou de uma monarquia, mas sim um Deus que faz história com um Povo que elege e caminha com ele pelos mesmos caminhos que os seus eleitos devem percorrer. Este processo não é apenas o seguimento de um “caminho” (um odos), mas sim um deixar-se “caminhar com”, um synodos, ou seja, um percurso de sinodalidade, no que à revelação bíblica diz respeito.

4. A sinodalidade orante do povo de Deus

Uma das fundamentações mais marcantes da sinodalidade do povo eleito é aquela que se traduz na oração, presente nos textos bíblicos, de forma particular nos Salmos, abarcando todas as dimensões da experiência de vida do povo de Israel. A oração bíblica contempla e privilegia a dinâmica de procura e de diálogo incessante entre Deus e o Homem, numa melodia contínua em que as vozes se misturam e se confundem no horizonte de uma harmonia eterna.

Do princípio ao fim, a oração dos Salmos é de facto uma harmonia entre o chamamento de Deus e a resposta do Homem. Por isso, os Salmos são um contínuo chamamento que Deus dirige ao Seu povo, dizendo: ‘Voltai para mim e eu voltarei para vós’ (Zc 1,3; Ml 3,7). Ou então, a resposta de Israel que se traduz desta forma: ‘Fazei-nos voltar para vós, Senhor, e nós voltaremos’ (Jr 31,18; Lm 5,21).

Os Salmos são este eterno hino do regresso do povo eleito à amizade com Yahwé e é por meio deles que este permanente desejo de regresso se manifesta nas suas múltiplas formas, tal como já diziam os rabinos: 49 são os modos (as tonalidades) do Saltério e 49 são as portas do regresso a Deus. Cantando este eterno regresso à comunhão com Deus, os profetas conferem à sinodalidade um dinamismo de procura e de conversão que abre a esperança do povo a uma plenitude sinodal de comunhão.

5. Os horizontes da sinodalidade do Novo Testamento

Numa das primeiras referências que o Papa faz ao Evangelho de S. João (Jo 3,8, cf. Documento Preparatório, nº 2), o diálogo entre Jesus e Nicodemos, Francisco destaca a ação do Espírito que, como o vento, “sopra onde quer; ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai”, pretendendo com isso realçar a surpresa da ação que o Espírito realiza no coração dos crentes e interpelando à necessidade da ‘escuta’.

Esta surpresa, sendo um dom do Espírito, é também um dinamismo que decorre da partilha da mesma identidade batismal, que se abre às solicitações dos Irmãos e que nos congrega na mesma comunhão em Cristo. O texto de João lança diversos desafios que são fundamentais para que este encontro se realize: sair para ir ao encontro de Jesus.

O texto do encontro entre Jesus e Nicodemos, à semelhança de muitos outros, mostra-nos a importância do “sair ao encontro de…” e faz-nos sentir que sem esse sair não se chega ao encontro e assim não é possível chegar à compreensão do amor de Deus que em Jesus atinge a sua plenitude. Chegados aqui, é importante parar para escutar, já que, à semelhança do que já referimos acerca do AT, sem escuta não há acolhimento e sem acolhimento não chegamos ao discernimento do caminho.

Foto MSA 2018
Foto MSA 2018

6. “Eu sou o caminho…” (Jo 14,6) O que é ser o ‘caminho’?

‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14,6) é uma das frases mais emblemáticas do IV Evangelho, na qual Jesus se define como o ‘caminho’ (odos) que leva ao Pai e que todos devem percorrer para alcançarem a plenitude da vida. Nesta afirmação, Jesus apresenta-se como um itinerário de sinodalidade e mostra-nos como esta dinâmica sinodal é, essencialmente, ‘um caminhar com’ (synodos) que nos abre a uma relação de comunhão com Deus e de proximidade eclesial na descoberta do verdadeiro caminho para o Pai. Ora, esse caminho não é outro se não o caminho que é o próprio Jesus: “ninguém pode ir até ao Pai se não por mim” (Jo 14,6). Por isso, a sinodalidade é o caminho de Jesus em comunhão com o Pai e com os Irmãos que em Cristo se faz caminho, sabendo que Ele e só Ele é o verdadeiro ‘caminho’ e não há outro.

7. Lucas – o Evangelho da Sinodalidade itinerante

Lucas, vindo de um mundo diferente e de uma cultura mais humanista, destaca a dimensão itinerante que a presença de Jesus assume, numa caminhada que tem um duplo sentido: a procura e o encontro com Deus.

Eis alguns textos, personagens e dinâmicas narrativas que perfazem toda a narrativa lucana e que fazem deste Evangelho um verdadeiro percurso em dinâmicas de sinodalidade. Vejamos, de forma sucinta, algumas das referências mais marcantes desta proposta de Lucas.

7.1 – No ‘Evangelho da Infância’ – Lc 1-2

A dinâmica sinodal de ‘encontro e de proximidade marca desde logo os dois ‘Cânticos Evangélicos’ (Magnificat e Benedictus), onde se exalta a Misericórdia de Deus para com o Seu Povo e a presença do Salvador que, do seio de Maria, visita todos aqueles que o esperam (‘os pobres de Yhawé’).

Temos um Deus que manifesta a sua hesed (ternura), a sua rehem (amor, compaixão – as suas entranhas maternais). Todas estas dimensões da ‘misericórdia’ de Yahwé para com o Seu povo partem da relação de aliança em que Deus se compromete com o Seu povo e com ele quer fazer uma família.

O Deus êmet (verdadeiro) coloca o homem em movimento e estabelece com ele uma dinâmica de ‘saída’ para se fazer testemunha da misericórdia, como o faz Maria na sua caminhada ao encontro de Isabel, levando consigo a Boa-Nova da esperança que, do seu seio, irradia a salvação que Israel esperava.

7.2 – Nas parábolas da Misericórdia – Lc 15

O conjunto das Parábolas da Misericórdia (Lc 15), com as suas três facetas − o Bom Pastor e a ovelha perdida; a dracma encontrada e, sobretudo, a Parábola do Filho Pródigo − constituem o verdadeiro rosto de uma teologia sinodal em que se realça o caminho (a procura), o encontro (regresso do filho) e a festa, ‘porque o teu irmão regressou com vida’. O tema do regresso que leva ao encontro, à comunhão e à reintegração filial, é algo central à teologia bíblica. ‘Regressar’ ou ‘deixar-se encontrar’ implica sempre um ‘voltar às origens’ (bem expresso no uso de um verbo hebraico – shum – que significa regressar às origens, às fontes) e essas origens são os braços amorosos do Pai, onde o regresso ganha forma e sentido.

Este regresso é a sacramentalidade, que perfaz a reconciliação, sara a rutura da perca ou da fuga, reintroduzindo uma nova harmonia na relação com Deus que conduz à verdadeira sinodalidade de comunhão com Deus e também eclesial.

7.3 – A liturgia sinodal do ‘caminho de Emaús’ – Lc 24

Para além das Parábolas da Misericórdia, Lucas 24 (o caminho de Emaús – 24,13-35) é um dos textos que nos oferece um programa acerca das diversas dimensões da sinodalidade cristã, apresentando-se como uma verdadeira proposta sinodal para a vida da Igreja, hoje. Trata-se, na verdade, de uma proposta de caminho, onde acontece o encontro, se acolhe a companhia do Mestre, mesmo que Ele ainda não tenha sido reconhecido, se escuta a Palavra e esta se abre ao seu sentido pleno que dá ‘calor ao coração’ e alento ao caminhar, se invoca a bênção e se partilha eucaristicamente o pão, expressão sacramental desse encontro e a partir do qual se é enviado em missão para anunciar e testemunhar o Ressuscitado junto dos outros e no meio do mundo.

Todo este rito que o texto nos oferece, em que Lucas nos procura apresentar o ‘verdadeiro encontro’ com o Ressuscitado, perfaz, de forma perfeita, todas as etapas de uma verdadeira sinodalidade. Do acolhimento à escuta, do caminhar juntos em busca de sinais para ‘O reconhecer’, até à partilha do Pão, tudo aqui é de facto um percurso que se faz paradigma de sinodalidade: o ‘caminho de Emaús’ é a melhor expressão da sinodalidade neotestamentária.

Por isso, a primeira grande reflexão que somos convidados a fazer passa, antes de mais, pela procura da fundamentação bíblica da sinodalidade, numa espécie de aprendizagem contínua desta caminhada de comunhão e de encontro, superando a tentação de pensar que a sinodalidade é uma ‘agenda de reuniões e de encontros’. É acima de tudo uma dinâmica nova de comunhão que se descobre seguindo os passos de Jesus e fazendo d’Ele o caminho que nos conduz ao Pai.


Frei João Duarte Lourenço

Frei João Duarte Lourenço é membro da Ordem Franciscana (OFM).

Professor Catedrático emérito da Faculdade de Teologia. Doutor em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum.

É autor de diversas obras e artigos científicos na área dos Estudos Bíblicos.

Diretor do Centro de Estudos Sócio-Pastorais (1989 a 1991) e do Centro de Estudos Religiões e Culturas (CERC de 2005-2011).

Foto da capa: sunsinger – stock.adobe.com

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