Papa Francisco…
Há nove anos

No dia 13 de março de 2013 ouviu-se uma nova linguagem no Vaticano. Recordar esse momento é olhar para os sinais proféticos que vimos e ouvimos com emoção:

Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado!

Depois de rezar pelo seu antecessor, o Papa Francisco conclui:

E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo… este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!
E agora quero dar a Bênção, mas antes… antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim…

Surpresa e espanto diante duma saudação fora das regras, fora das linguagens hierárquicas…
Mas uma saudação que anuncia aurora de novos tempos na Igreja.
Nunca nenhum papa tinha tido o nome de Francisco. Ele assume-se herdeiro dum projeto fraternal que coloca no centro os pobres. “Não te esqueças dos pobres” ter-lhe-á pedido o Cardeal Hummes.

Estes nove anos reabrem portas fechadas, relativizam normas e cânones, iniciam diálogos imprevisíveis no campo religioso e cultural.

Francisco na Audiência Geral, 25 SET 2013. A unidade é o aspeto fundamental que define a Igreja. EPA/Claudio Peri.
Francisco na Audiência Geral, 25 SET 2013. A unidade é o aspeto fundamental que define a Igreja. EPA/Claudio Peri.

O Concílio Vaticano II volta a surgir como farol iluminador dos caminhos de uma Igreja em saída, uma Igreja Samaritana, uma Igreja do perdão e da alegria. A profecia não estava enterrada… emerge com a força da palavra e com os gestos de mudança deste Papa vindo do fim do mundo. As vozes que tinham sido obrigadas ao silêncio fazem-se ouvir de novo, reivindicando o projeto evangélico do Reino. A alegria surge como luz nos primeiros documentos: A alegria do Evangelho, A alegria do Amor, Alegrai-vos e Exultai.

Abrem-se pontes para territórios que muitos achavam interditos: a ecologia e o cuidado da Terra com a Laudato Si’ e o diálogo inter-religioso e intercultural com Fratelli Tutti. Nove anos que estão a revolucionar práticas e modelos de Igreja, com uma abertura sem precedentes às surpresas do Espírito que sempre vai soprando na Igreja. Os jovens e a mulher são parte importante dos sonhos de Francisco. A Querida Amazónia abre uma prática exigente de uma igreja Sinodal, capaz de escutar os anseios e as aspirações dos povos.

Mas Francisco é também o Papa mal-amado pelos setores saudosistas da glória de uma Igreja conquistada no tempo. Só para salientar este aspeto é curioso verificar que a Infovaticana (Portal de informação religiosa conotado com os católicos mais conservadores) sublinha apenas dois aspetos nos 9 anos do Papa Francisco: o seu apoio e compromisso na vacinação contra a COVID-19 e a publicação de Traditionis custodes. De facto, setores significativos de alguns cristãos, bispos incluídos, continuam a manifestar a sua distância em relação às propostas do Papa nas exigências da tolerância 0 à pedofilia, ao clericalismo, às riquezas da Igreja.

A última surpresa foi o anúncio, no dia de São José, de Predicate Evangelium: um decreto de reforma da Cúria Vaticana. Uma Igreja Sinodal, tendo como linha prioritária o anúncio da boa nova do Reino a que todas as estruturas se devem subordinar. A primavera continua… Louvado seja o Espírito que urge escutar, Espírito presente neste povo que é o Povo de Deus.

Obrigado, Papa Francisco!

Foto da capa: Francisco e Edith Bruck, sobrevivente do Holocausto. Casa de Santa Marta, Vaticano, 27 JAN 2022. EPA/Vatican Media.

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