Os verbos da salvação: 9.JARDINAR

Um verbo acessível a todos, da varanda do apartamento às hortas urbanas passando pelos espaços rurais, jardinar é uma atividade tão antiga quanto o ser humano, a ponto de ser um mapa para compreender as alianças que constituem a nossa história…

Adelaide Miranda e Rui Pedro Vasconcelos

I – Um brevíssimo passeio pela ciência do jardinar

Foto Kaufmann Mercantile | Unsplash
Foto Kaufmann Mercantile | Unsplash

Hoje vamos passear pelo jardim, pela horta, pela natureza – de mãos dadas com a ciência, pois claro! Neste artigo, quando falamos em jardinar, pensamos também em podar, cultivar, semear, plantar… em todos os verbos que nos levam a pôr as mãos na terra e a tratar de outro ser vivo, quer seja uma flor, uma planta ou uma árvore.

O tema é quase tão antigo quanto o ser humano e, neste artigo, não estamos a pensar em jardinar como uma ação gerida pelo nosso cérebro de caçador-recolector, apesar de Steven Pinker, professor de Psicologia na Universidade de Harvard (EUA) sugerir que o ser humano se começou a interessar por flores porque indicavam comida no futuro, por exemplo, em forma de fruta ou frutos secos.

Contudo, hoje viajamos para um cérebro de pensamento lento de que nos fala Lambert Maffei no seu Elogio da Lentidão, e de que já falámos noutros Verbos da Salvação. O mesmo que levava o filosofo Immanuel Kant (1724-1804) a usar flores como exemplo de beleza “livre”, a beleza à qual respondemos independentemente do seu valor cultural ou da sua utilidade. Será um certo desejo de parcimónia?

De Bento de Núrsia a Hildegarda de Bingen…

Uma das primeiras descrições dos efeitos terapêuticos da jardinagem e das suas atividades chega-nos de Bento de Núrsia (c. 480-547) que descreve como o doente retira força da beleza da natureza. Bento de Núrsia, o grande São Bento, e os beneditinos são descritos como responsáveis por grande parte do trabalho restaurador das terras erodidas deixadas pelo domínio de Roma.

Um mosteiro beneditino tinha por norma vinhas, pomares e parcelas de terra destinadas ao crescimento de vegetais, flores e plantas aromáticas. Um vergel!

São Bento acreditava que a vida do espírito tinha que estar fundamentada numa relação com a terra. Seis séculos depois, ali pelo século XII, surge Hildegarda de Bingen, doutora de Igreja, monja, compositora, teóloga e respeitada herbalista na época. Hildegarda, considerada uma visionária, acreditava que havia uma ligação inevitável entre a saúde do planeta e a saúde física e espiritual do ser humano. Hildegarda colocava no centro do seu pensamento a natureza, apontando que só se pode prosperar quando o mundo natural também prospera. Hoje é considerada por muitos como uma precursora do movimento moderno ecológico.

Como da horta de um mosteiro nasceu a matemática da hereditariedade…

“Ai filha tens a cor dos olhos teu pai!”; “pela pinta deves ser neto de fulano”; “és a cara chapadinha da mãe”; “a doença é de família”. Hoje, falamos de código genético, fenótipos e genótipos, alelos recessivos e dominantes, e a genética é um mundo fascinante cujos fundamentos nasceram num jardim de um mosteiro da atual República Checa.

As ervilhas (as Pisum Sativum) estão de volta! No Verbo da salvação “Escutar e Ouvir” falámos de como as ervilhas “ouvem” através das vibrações; desta vez vamos aflorar como foram importantes para o nascimento da genética.

Pisum Sativum - ervilheira, imagem do livro do Prof. Dr. Otto Wilhelm Thomé, Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz, 1885, Gera, Germany, Foto de Kilom691 | Wikimedia Commons
Pisum Sativum – ervilheira, imagem do livro do Prof. Dr. Otto Wilhelm Thomé, Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz, 1885, Gera, Germany, Foto de Kilom691 | Wikimedia Commons

Não nos poderíamos esquecer, neste verbo da salvação, do agora clássico Mendel, cujo trabalho científico pioneiro só foi reconhecido pelos seus pares, postumamente, em 1900. Durante o século XX e até 2008 (ainda!), há cientistas que discutem acaloradamente se o trabalho de Mendel é escrupulosamente rigoroso ou não. Gregor Mendel foi um frade agostiniano que viveu entre 1822 e 1884. Desde pequeno que gostava de plantas e no mosteiro estava encarregue dos seus jardins. Entre 1856 e 1863, desenvolveu as suas experiências com o que tinha à mão: terra e ervilhas.
O que é que ele estudou nas ervilhas? O que podia observar sem grandes instrumentos: a altura da ervilheira, forma e matiz do tegumento da semente, a cor e a posição da flor da ervilheira, a forma e a cor da vagem.

O que é que ele descobriu depois de tantos anos de estudo, a rondar as 30 mil plantas e depois de ter desenvolvido 22 variedades de ervilheiras? Mendel primeiro começou com cruzamentos monohíbridos, desenvolveu previsões estatísticas das características herdadas que depois estudou com cruzamentos mais complexos. E por fim, com a ajuda da matemática, Mendel desenvolveu para a área da biologia métodos estatísticos que conseguem prever características hereditárias. Claro que os agricultores já faziam cruzamentos de espécies há uns bons milhares de anos e, claro que nem todos os organismos transmitem os genes da mesma forma que as ervilheiras, mas o que é importante reter é que a matemática derivada do estudo das ervilheiras do monge Mendel é usada para explicar as características hereditárias, ajudando a salvar vidas…

©candy1812 - stock.adobe.com
©candy1812 – stock.adobe.com

Como a ciência estuda os efeitos da jardinagem…

Apesar de ser quase tão antigo quanto o ser humano, é de tão difícil aproximação para a ciência medir efeitos concretos em parâmetros fisiológicos, que o consenso não é geral. Já sabemos que a ciência gosta de quantificações, estudos que possam ser reproduzidos noutra parte com os mesmos resultados: quando se varia alguma coisa, a outra responde de determinada forma. Tal como vimos no Meditar, não é fácil neste tipo de experiências isolar determinadas variáveis para medir apenas como se comporta outra.

A ciência distingue as atividades de jardinagem das atividades hortofrutícolas. Há um artigo de revisão publicado em 2020, liderado por Michelle Howarth da Universidade de Salford (Reino Unido), onde se analisam estudos publicados quer em atividades de jardinagem, quer em atividades hortofrutícolas. A questão fundamental que tem por base este artigo é: há evidências robustas, baseadas em modelos lógicos e quantitativos, de que a jardinagem e as atividades relacionadas possam servir de base a decisões estratégicas na área da saúde? Que evidências existem de que os jardins beneficiam a saúde física e mental e o bem-estar geral?

A ideia da jardinagem como atividade salutar não é nova. O que é novo é a necessidade de padronização dos estudos para promover a jardinagem como medida de saúde e bem-estar. Em termos fisiológicos foram reportadas melhorias nos níveis de açúcar no sangue, no nível de cortisol (hormona diretamente envolvida no stress), no ritmo dos batimentos cardíacos, no nível de lípidos no sangue, na pressão arterial, no índice de massa corporal, nos parâmetros analisados na urina. Em termos de saúde mental descobriu-se que ter uma horta ajuda a combater o stress, a depressão e as perturbações de stress pós-traumático.
Atenção, não estamos a falar de agricultura de sobrevivência (não é disto que se trata). A comunidade científica que estuda este campo sente necessidade de estudos cada vez mais rigorosos, de modo a haver um consenso em termos de dados quantitativos e qualitativos, para que se possam implementar medidas concretas nesta área.

Sue Stuart-Smith, psiquiatra e psicoterapeuta britânica, tem um livro recente apaixonante: The Well Gardened Mind – Rediscoveing nature in the modern world (traduzido em espanhol), onde explora os efeitos reais da natureza na nossa saúde e bem-estar. De uma forma brilhante combina a história, a neurociência, a psicologia e a psicanálise com casos reais da sua vida e prática clínicas. O livro mostra-nos aquilo que vimos a constatar: num mundo excessivamente urbanizado (onde existe uma relação entre a falta de espaços verdes e o aumento da criminalidade) onde predominam as tecnologias ininterruptas, redescobrir a relação com a terra e com a natureza pode ajudar-nos a navegar pela vida.

Sue acredita que jardinar pode ser um ritual, que transforma a realidade externa e dá origem à beleza, não só à nossa volta, mas também dentro de nós, através do seu significado simbólico. Um jardim põe-nos em contacto com uma gama de metáforas que moldaram profundamente a mente humana durante milhares de anos, metáforas que de tão profundas estão quase escondidas no nosso pensamento.

Seguramente apreciar a beleza de um jardim ou de um vergel, comer um damasco da árvore, sentir o calor, o frio ou a humidade da terra nas mãos, os sons que nos rodeiam, a água a entrar na terra, prestar atenção ao pessegueiro que nos retribui em aroma depois de o regarmos, dar forma a uma árvore ou a umas hidranjas, o aroma inconfundível e a cor vibrante das frísias, das magnólias ou das amendoeiras a anunciar a primavera ou mesmo tratar das plantas lá de casa, sejam umas sardinheiras, umas orquídeas ou uma aromáticas… só pode fazer bem!

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