Onde está o teu coração

Texto de Gilberto Borghi e Chiara Gatti, Messaggero di sant’Antonio

Jesus no Evangelho lembra-nos que
“onde está o teu tesouro,
aí está também o teu coração”.
As crónicas da época dizem que
António repetiu esta frase
no funeral de um usurário.
E, na verdade, o seu coração
foi encontrado num cofre.

A turma era barulhenta e precisei de gritar “Bom dia!” para chamar a atenção. Conhecia os alunos há cinco anos e não tive dificuldade em inteirar-me logo qual seria o motivo de tal agitação.

Sara, uma das das alunas, era originária de Lomagna, na Lombardia, a mesma cidade da Irmã Luisa Dell’Orto, assassinada no Haiti alguns dias antes. Na verdade, Sara estava a dizer aos seus companheiros que conhecia muito bem a Irmã de que os jornais falavam, porque no seu voluntariado tinha participado numa angariação de fundos para a reconstrução da “Casa Carlo”, uma casa-abrigo que a freira geria num subúrbio pobre de Port-au-Prince, no Haiti.

Enquanto Sara falava, por vezes chorava, pois não conseguia entender porque haviam chacinado num assalto quem tinha entregado a sua vida para estar com crianças da rua, as mais pobres, escravizadas para trabalhar ou para outros tráficos ilegais.

E a Sara repetia como num refrão: “O que é que podiam roubar à Irmã Luísa? A sua porta estava sempre aberta para todos os pobres e necessitados… Ela que era pobre como eles, que tinha escolhido ser um deles!”.

Pedi aos alunos, que estavam à sua volta para a consolarem, para se sentarem nos seus lugares, e convidei-os para falarmos sobre o assunto. Na verdade, as ideias não eram concordantes, embora tivessem todas o objetivo de ajudar a Sara a superar o seu desânimo.

Lucas, do fundo da sala, afirmou: “Eu creio que quem faz uma escolha de vida deste género, sabe que estas coisas podem acontecer. Os pobres não são generosos só pelo facto de ser pobres. Na verdade, às vezes, podem tornar-se violentos para tentar sobreviver e roubar para procurar comida. Nem todos os pobres são bondosos”.

Sara reagiu indignada: “O que queres dizer? Que a Irmã Luísa fez uma escolha absurda para viver assim? Ela amava os pobres, bons e maus, e tentava ajudá-los a todos. Talvez os que a mataram provinham do mundo do crime, não foram os pobres: quem sabe?”.

Entretanto ouviu-se a voz de Clara, normalmente calada, mas era amiga da Sara e queria apoiá-la: “Se os pobres cobiçam o dinheiro, imaginem os ricos!Ouviste o que o cantor Fedez disse numa entrevista, antes de adoecer e ser operado, que o seu objetivo na vida era possuir 200 milhões de euros. Depois, porém, disse que agora isso já não era importante…”

A Júlia entrou na conversa: “Também eu vi aquela entrevista: aliás, ele disse ‘quando tens 200 milhões, queres 300’ e assim por diante, mesmo que consigas chegar aos mil milhões, nunca ficarás satisfeito”.

O Lucas interveio de novo: “É isso aí. A Sara zangou-se comigo, mas era isso que eu queria dizer. Podemos tornar-nos violentos por dinheiro, mesmo sendo pobres! Claro que sim. Fedez e Ferragni possuem biliões, mas a maneira de se relacionar com o dinheiro é sempre a mesma. Creio que o importante é compreender por que vivemos. Talvez o Fedez, graças ao tumor que teve, tenha começado a entender o sentido da vida”.

Achei que tinha chegado o momento de intervir: “Já ouvistes aquele versículo do Evangelho de Lucas em que Jesus afirma: ‘Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração’? O que achais? A que se refere este texto?”

Onde está o teu tesouro,
aí está também o teu coração”. Lc 12, 34. Ilustração de ale@aledigitale

Jade respondeu imediatamente: “Bem, se olharmos para o exemplo da Irmã Luísa acredito que o seu tesouro se concentrava precisamente no amor que tinha por Deus e pelas crianças escravizadas, que ela retirava diariamente das ruas”.

Fixei-a nos olhos: o seu rosto estava vermelho pela timidez. Compreendi que ela queria transformar aquelas palavras no seu modo de vida, mas tinha vergonha de o proclamar abertamente diante de toda a turma. Então, incentivei-a: “Muito bem, Jade! De facto, aquelas crianças, para ela, eram mais importantes do que todo o dinheiro do mundo e, talvez por essa razão, não tinha tanto medo das consequências e do risco de poder morrer. Acho que esta forma de estar com eles, enchia plenamente o seu coração: aí estava verdadeiramente o seu tesouro!”

As palavras criaram um profundo silêncio: um daqueles momentos em que todos ruminavam dentro de si qual seria realmente o tesouro no qual queriam colocar de bom grado todo o seu coração. Vi que as emoções saíam, senti as palavras a quererem brotar, bloqueadas, ainda, pela vergonha.

Era a altura certa para aumentar a dose: “Sabeis que também os santos se esforçaram para entender qual era o seu tesouro e como podiam dar a Deus o lugar de honra dentro dos seus corações. Por exemplo, Santo António falava muitas vezes sobre isto. Um dia usou o exemplo de um homem rico e avarento que tinha trocado o seu coração por um cofre, não podendo assim amar a Deus e aos irmãos. Portanto, onde está agora o vosso coração? Coragem, agora, não amanhã!”

Alexandre ainda não tinha falado. Era um dos mais atentos, e eu esperava mesmo que interviesse naquele momento. Mexeu-se na cadeira e disse em voz baixa: “Eu não vou colocar o meu coração no dinheiro. Sim, preciso de um pouco de dinheiro para fazer algumas coisas, mas não estou interessado em me tornar rico. Pelo contrário, gostaria de ser admirado pelos outros. Ao pensar no Fedez, eu invejo-o, acima de tudo, por todas as pessoas que o seguem… é por isso que, para mim, ele é grande!”

Clara parecia continuar o seu pensamento anterior e acrescentou: “Certo, mas depois, se pensarmos bem, durante a pandemia Fedez e a Ferragni ofereceram fundos para a construção de um hospital: que emoção pensar em quantas pessoas ajudaram. Nessa altura, eles eram considerados quase uns salvadores! Essas são as emoções que, a mim, me enchem o coração.São os gestos de bondade, mesmo os mais pequenos: por exemplo, se os meus pais voltassem a ficar juntos e voltássemos a ser uma família, acredito que sentiria muita alegria ao voltar para casa. Ou, então, se o meu namorado me amar, estiver apaixonado por mim e fizer bater o meu coração a cada minuto e eu puder confidenciar o que sinto às minhas amigas…. É isso: quero sentir-me viva a cada momento!”

O professor relançou o diálogo: “Mas, na vossa opinião, o coração da Irmã Luísa batia neste sentido? O que dizes tu, Sara, que a conhecias bem?”

Sara olhou para mim, um pouco espantada com a pergunta. Hesitou por momentos antes de responder: “Bem, prof, não é que a conhecesse bem. Quando falava das suas crianças era muito doce, mas quando contava as dificuldades que devia enfrentar, era forte: eu acho que ela se agarrava ao valor do bem que fazia!”

Então, o Alexandre, parecendo ser o porta-voz da inquietação de todos, perguntou numa tonalidade talvez demasiado alta: “Mas, se não sentirmos emoções especiais, como podemos saber que temos um tesouro no coração?”

O professor rematou em jeito de conclusão: “Ouçam… não temos nenhuma pressa. Faço-vos uma proposta: escrevei este versículo do Evangelho algures no vosso quarto ou noutro lugar onde o possais ler com frequência. Asseguro-vos que, mais cedo ou mais tarde, chegareis a entender onde está o vosso coração! Demo-nos algum tempo e voltaremos a falar sobre o assunto”.

Foto da capa: Santo António e o milagre do coração do avarento. Alto relevo de Tullio Lombardo. Pádua, Basílica de Santo António, Capela da Arca do Santo. Foto GIUSEPPE RAMPAZZO / ARQUIVO MSA.

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