Igreja – Convento de Santo António dos Olivais

Verdadeiro retrato de Santo António – Sacristia
Verdadeiro retrato de Santo António – Sacristia

Partindo do centro da cidade do Mondego (Coimbra) e subindo sempre no sentido nordeste chegamos ao alto de Santo António dos Olivais. Aqui, no cimo da colina, ergue-se a igreja do antigo convento franciscano e a capelinha de Santo António.
O adro da igreja constitui um miradouro de deslumbrante panorama de contrastes: cidade e campo, serras e vales, aldeias e caminhos, cambiantes de uma paisagem de tonalidades indizíveis, no reflexo de uma atmosfera leve e clara e de um céu docemente azul.
Lá ao longe, a sueste, Semide e as Serras de Penela e da Lousã. Mais perto, rodando os olhos lentamente para norte, os subúrbios dos Olivais, de S. Sebastião, os Tovins, o Picoto com a Mata do Rei, Eiras, Coselhas… Mais adiante, o alto da Mata de Vale de Canas, o Dianteiro, a Carapinheira, o Roxo e a mística Serra do Buçaco. A poente, a planície e os encantos do poético Mondego, a espreguiçar-se vagaroso, mas determinado, entre choupos e arrozais, em busca do Atlântico, depois de saudar Coimbra, Tentúgal, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz.
E, ao final de cada dia de verão, a visão seráfica de um pôr-de-sol incomparável! É o lugar indicado para em uníssono com todas as criaturas, contemplarmos e cantarmos a beleza e a bondade do Criador.
No átrio da igreja pode, ainda, admirar-se a capela do Presépio: uma obra saída da escola de Machado de Castro (sec. XIX).

Vista exterior da igreja de Santo António dos Olivais, em Coimbra
Vista exterior da igreja de Santo António dos Olivais, em Coimbra

Desde o começo da nacionalidade portuguesa, que no alto desta colina existiu uma capela de invocação de Santo Antão. Em 1217-18, a mulher de D. Afonso II, D. Urraca, cedeu essa capela aos franciscanos, acabados de chegar a Portugal, que aqui se estabeleceram precariamente. Recorde-se, a propósito, que a Ordem dos Franciscanos, fundada em 1209, rapidamente se espalhou por toda a Europa.
Junto à capelinha de Santo Antão, fundaram os franciscanos um humilde eremitério. Em 1219, aqui veio pousar Frei Otto com quatro companheiros (Frei Berardo, Frei Pedro, Frei Acúrsio e Frei Adjuto) na sua caminhada para a missão de Marrocos e para a morte, pois são os primeiros franciscanos sacrificados à fé de Cristo, decapitados pelo sultão, Abu-Jacub.

Santo António veste o hábito franciscano: sacristia, quadro de Pascoal Parente (1796)
Santo António veste o hábito franciscano: sacristia, quadro de Pascoal Parente (1796)

Quando em 1220 as relíquias dos Cinco Mártires de Marrocos, trazidas por influência do Infante D. Pedro, filho de D. Sancho I, chegam ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Santo António, que nesse ano tinha tomado a ordem sacerdotal, sente-se irresistivelmente atraído pelo espírito franciscano. Deixa o opulento mosteiro crúzio para ir viver no pobre hospício dos Olivais, troca o hábito e a murça branca de cónego regrante de Santo Agostinho pelo burel franciscano e muda o nome de batismo – Fernando – para o de António e, em Julho desse mesmo ano, parte para Marrocos.
Após a sua canonização, em 1232, este modesto convento dos Olivais de Coimbra, em memória do grande taumaturgo, mudou a invocação de Santo Antão para Santo António.
Em 1247, os frades deixaram os Olivais para se irem estabelecer no amplo Convento de S. Francisco, junto à Ponte de Santa Clara. Mas nem por isso esmoreceu a devoção dos fiéis para com este santuário, que da cidade e das vizinhanças aqui acorriam a visitar uma térrea e estreita cela, que, segundo a tradição, fora habitáculo de Santo António.
Deixada pelos franciscanos, continuou a capela na posse do cabido catedralício, o qual, nos fins do século XV, em virtude do crescente culto antoniano, a mandou reformar e ampliar, ficando a igreja com o âmbito que atualmente tem, à exceção de um ligeiro aumento da capela-mor, feito no século XVIII.
Em 1537, trouxe o cabido obras na igreja, entre elas a construção de um altar, as quais foram pagas a Gaspar Fernandes, o mesmo que construiu a igreja do vizinho Mosteiro de Celas.

Santo António liberta o pai da forca – Painel de azulejos, interior da igreja
Santo António liberta o pai da forca – Painel de azulejos, interior da igreja

Ainda no século XVI, o titulo de propriedade passou do cabido para os franciscanos capuchos da Província da Piedade, que em 1673, por uma nova divisão de províncias da Ordem, ficou adstrito à da Soledade.
Conservaram os frades a igreja e empreenderam a reedificação da veneranda cela de Santo António que foi adaptada a Casa do Capítulo. Construiu-se também a nova mas modesta residência conventual, custeada por D. Álvaro da Costa, no local hoje ocupado pelo cemitério, ficando o claustro no espaço do atual terreiro da igreja. Na primeira metade do século XVIII, iniciaram-se grandes obras, algumas das quais só foram concluídas na segunda metade do mesmo século: modificação da frontaria da igreja, sacristia, pórtico e escadaria de acesso e suas capelas laterais.

Imaculada Conceição – Fresco na abóbada do presbitério da igreja
Imaculada Conceição – Fresco na abóbada do presbitério da igreja

Extintas as ordens religiosas por decreto de 30 de Maio de 1834, foi o convento vendido no ano seguinte ao padre Manuel António Coelho da Rocha, vice-reitor da Universidade de Coimbra. Na noite de 10 para 11 de Novembro de 1851, ateou-se violento incêndio que devorou as dependências do convento, salvando-se, contudo, a igreja e a sacristia. Por decreto governamental de 20 de Novembro de 1854, sendo bispo de Coimbra D. Manuel Bento Rodrigues, foi criada a freguesia de Santo António dos Olivais, por desanexação da Sé, tendo servido interinamente de matriz a igreja de Nossa Senhora da Piedade de Celas, até que, em Maio de 1855, concluídas as obras de restauro, a igreja santuário dos Olivais passou a ser definitivamente a igreja paroquial.
Em Novembro de 1974, depois de terem pastoreado a paróquia de Nossa Senhora de Lurdes, desde 1968, como que com o sabor e o significado de um regresso às origens, os Frades Franciscanos Conventuais (que procuram viver e incutir nos paroquianos o espírito franciscano) tomaram conta da populosa paróquia de Santo António dos Olivais.

Arte

Pela sua origem e evolução, esta igreja pertence ao tipo de santuários do alto. Na descrição da igreja seguiremos a ordem que será naturalmente a do visitante.

Pórtico e escadaria

Escadaria da igreja de Santo António dos Olivais
Escadaria da igreja de Santo António dos Olivais

Vencendo a rampa natural da colina, dá acesso à igreja uma larga escadaria de tipo popular, do século XVIII, que produz no visitante o efeito de monumentalidade que o templo realmente não tem.
A escadaria setecentista, composta por 30 degraus de pedra divididos em seis lanços, é ladeada por seis capelinhas, três de cada lado: do lado esquerdo, a “Oração no Jardim das Oliveiras”, a “Verónica” e o “Calvário”; do lado direito, a “Traição de Judas”, a “Flagelação” e a “Descida da Cruz”. Estas capelas são de planta quadrangular, de coruchéu piramidal revestido de azulejos de orelha, esmaltados de verde e cor de mel.
A frontaria, da primeira metade do século XVIII, embora sóbria, é de boas linhas arquitetónicas. O largo arco rebaixado, característico das igrejas franciscanas da época, dá acesso ao átrio e à igreja por uma porta de ferro chapeado, recente, tendo pela parte de fora uma outra porta de grossas barras de ferro forjado do século XVIII, possivelmente, das oficinas de Coimbra. A parte superior da fachada tem ao centro uma janela a abrir para o coro, ladeada por dois nichos, cada qual com sua imagem: a de Santo António, à direita e a de S. Francisco, à esquerda.

Átrio

O átrio, de planta retangular, é característico das antigas igrejas franciscanas em Portugal, tendo pintado no teto o emblema franciscano. De cada lado do átrio existem duas capelas. A do lado direito, de plano octogonal, é de invocação de Nossa Senhora das Dores.
A porta, em ferro forjado, é obra do artista coimbrão Daniel Rodrigues, datada de 1941. No ferro chapeado da parte superior, tem gravados três medalhões: ao centro, Nossa Senhora das Dores; à esquerda, Santo Antão (orago da capela primitiva); à direita, o profeta Daniel (nome do artista).
Do lado esquerdo do átrio, outra porta em ferro forjado, do mesmo artista. Tem igualmente três medalhões na parte superior: ao centro, Jesus coroado de espinhos; à esquerda, Santo António (atual orago); à direita, Santa Berta (nome da filha do artista).
Ladeiam a porta da igreja, à altura do arranque do arco, duas grandes lápides, em letras do alfabeto minúsculo, escritas em estilo laudatório. Envolve as paredes uma guarnição de azulejos de motivos independentes, mas de melhor categoria que os do escadório. Sobre o átrio fica o coro alto, com um cadeiral do século XVIII.
A porta de acesso do átrio à igreja, tendo ainda as impostas, mas já sem capiteis, é da construção realizada na segunda metade do século XV.

Interior da igreja

Milagre do pé cortado – Painel de azulejos Interior da igreja
Milagre do pé cortado – Painel de azulejos
Interior da igreja

A igreja, de uma só nave, é de traçado rebaixado e de lunetos, de construção simples e com abóbada de tijolo.
As paredes estão revestidas quase até ao arranque da abóbada com painéis de azulejos da primeira metade do século XVIII, tendo muito interesse pelo desenvolvimento da composição. Representam cenas da vida de Santo António.
Do lado direito, a pregação aos peixes; o milagre do pé cortado; a aparição de S. Francisco, em Arles; a morte de Santo António.
Do lado esquerdo, Santo António cura um noviço; Santo António livra o pai da forca; a tomada de hábito franciscano; o milagre da Eucaristia.
De cada lado do arco cruzeiro está um altar: o de S. Francisco, do lado direito e o de Santo António, do lado esquerdo. Pendentes do teto, dois vistosos candelabros em ferro forjado, de autoria de Daniel Rodrigues. O púlpito é de linhas simples.
Junto ao altar de S. Francisco encontra-se uma bela e artística pia batismal, em estilo revivalista, dos princípios do século XX, obra do artista coimbrão José Barata.

S. Francisco aparece a Santo António no capítulo de Arles (França). Painel de azulejos no interior da igreja.
S. Francisco aparece a Santo António no capítulo de Arles (França). Painel de azulejos no interior da igreja.

As paredes da capela-mor estão inteiramente forradas com azulejos azuis dos finais do século XVII, decorados com dois motivos, um de composição de folhas acantiformes e outro de entrelaces quadrifoliados com rosetas centrais.
O altar-mor, em pedra lavrada, saiu das oficinas de cantaria de João Machado. O retábulo tem ao centro uma grande tela representando Nossa Senhora da Conceição, assinada por Pascoal Parente, datada de 1779. Dos lados, estátuas de S. José e S. João Baptista.
No teto, um fresco representando a Imaculada Conceição.
No corredor para a sacristia há alguns quadros dos séculos XVII, XVIII e XIX.

Sacristia

Morte de Santo António – Quadro na sacristia
Morte de Santo António – Quadro na sacristia

A sacristia faz lembrar uma pequena igreja com capela-mor. A sua arquitetura é da primeira metade do século XVIII, mas a decoração só na segunda metade foi concluída. Aí se encontram, em molduras de madeira dourada, vários episódios da vida de Santo António. À direita, o episódio da tentativa de envenenamento; a aparição de S. Francisco, em Arles; Santo António na sua primeira pregação, em Forlí. À esquerda, o milagre da bilocação; o milagre do pé cortado; a morte de Santo António.

Milagre da bilocação – Quadro na sacristia
Milagre da bilocação – Quadro na sacristia

Sobre o arco encontra-se um retrato de Santo António, a óleo, que a tradição diz ser autêntico; frescos no teto com enrolamentos de acanto, vendo-se ao centro um brasão eclesiástico, pouco legível; ao comprido da parede, um grande e magnífico móvel, em ótimo estado, com duas portas e nove gavetões muito trabalhados (por cima, no tampo, embutidos de marfim); três esculturas de barro do século XVII, 12 meios corpos de santos relicários, da segunda metade do século XVIII, assentes nas mísulas da abóbada; um espelho com moldura do século XVIII; um quadro a óleo representando Santo António a tomar o hábito franciscano, assinado: Pascoal Parente o pintou no ano de 1796.

Capela de Santo António

Do lado norte da igreja, perpendicularmente a ela e com frontaria para o terreiro, foi construída, nos finais do século XIX, uma pequena capela, em substituição da anterior que marcava o sítio da antiga casa do capítulo conventual, sítio que a tradição diz ser o da cela de Santo António. Imita o género gótico do século XIII.
O retábulo de madeira entalhada da segunda metade do século XVIII veio da igreja de S. João de Almedina. A imagem do Espírito Santo, na forma costumada da Trindade, em madeira colorida, da época manuelina, pertenceu à vizinha capela dessa invocação. Há aí também uma imagem de Santo António e um alizar de azulejos, de aresta, sevilhanos, do século XVI.

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