O que sonhas sobre uma Igreja sinodal?

Este ano poderia ficar marcado pelos passos dados no caminho iniciado de reflexão e comunhão de experiências para uma Igreja Sinodal. Embora este pareça ser um caminho feito no interior da Igreja, talvez seja mais aberto do que pensamos.

As três palavras-chave deste caminho — comunhão, participação e missão — são tudo menos uma chamada de atenção a pensar para dentro. São palavras que expressam antes uma Igreja que testemunha a capacidade de evoluir e deixar-se transformar. Acima de tudo, esta poderá tornar-se uma oportunidade única de partilhar com o mundo qual o impacto que uma experiência de Deus pode ter em cada um de nós no diálogo assente na riqueza da diferença.

A evolução do mundo nunca ocorreu na mesmidade, mas num ciclo de morte que dá vida, na direcção de uma constante diferenciação que nos maravilha sempre que contemplamos a biodiversidade. Porém, através da espécie humana, a evolução biológica deu lugar à evolução cultural, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial com a “Grande Aceleração” dos anos 50. O plano de reconstrução das nações encabeçado pelos Estados Unidos tinha a intenção de evitar mais guerras mundiais no futuro, mas levou a uma gradual e subtil uniformização das diversas culturas. Basta pensar no McDonalds. É mais fácil encontrar um destes restaurantes em cada nação, independentemente das suas raízes culturais, do que nos Estados Unidos encontrar uma pastelaria Vasco da Gama.

Jacob Lund - stock.adobe.com
Jacob Lund – stock.adobe.com

A uniformização dos comportamentos e estilos de vida é a antítese da comunhão. A comunhão exige diversidade de experiências e acolhimento recíproco das mesmas, mas implica o encontro com a misteriosa subjectividade presente em cada pessoa.

Somos feitos de matéria cozinhada na morte de estrelas e, por isso, somos universo. Mas o facto de estarmos conscientes disso, é como se o universo fosse consciente de si mesmo através de nós e da nossa subjectividade. Esta identifica a existência de uma vida profunda e sagrada no interior de cada indivíduo (cujo sentido original da palavra é indivisível).

E quando nos demos conta de como no mundo tudo está relacionado com tudo, apercebemo-nos de que as experiências que nos unem criam um espaço e tempo relacionais que promovem a diversidade para chegar à unidade, não à uniformidade. Podemos viver o mesmo, mas o modo como o vivemos é único para cada pessoa devido à sua unicidade.

Por isso, uma Igreja Sinodal, onde cada um oferece a sua experiência no caminho que fazemos juntos, propõe ao mundo o diálogo feito na escuta profunda para se diversificar e evoluir. Mas não seria de esperar que obtivéssemos respostas definitivas no final deste processo porque o ser humano é, naturalmente, um explorador do desconhecido.

Quando exploramos caminhos novos em caminhadas por florestas ou outros ambientes naturais, estamos atentos aos sinais para nos orientarmos e desenvolvemos a capacidade humana da curiosidade ao notar em coisas novas que acontecem à nossa volta. A experiência de vida espiritual de cada pessoa contém um gérmen de novidade que só dando espaço para que a partilhe poderemos beneficiar todos da sabedoria de Deus contida nessa experiência.

E não existe uma experiência mais iluminada do que outra. Todas contêm um ou outro aspecto inspirados, pelo que o sucesso deste caminho feito juntos está estreitamente ligado ao grau de abertura da mente e do coração à voz do Espírito Santo. Porém, receio que usemos este diálogo para desenharmos um projecto juntos. Não pareceu mau, mas questiono o que é mais importante: projectar ou sonhar juntos? Estranhamente sinto que este caminho da Igreja Sinodal é um convite de Deus a fazer a experiência de sonharmos juntos.

Sonhar ou Projetar?

Muitos poderão pensar que sonharmos juntos leva-nos a viver no mundo das abstracções quando os desafios que vivemos em Igreja exigem respostas concretas que projectos bem definidos podem dar. Por exemplo, poder-se-ia projectar a renovação dos materiais catequéticos e o estilo de aprendizagem, diferenciando-se do meio escolar, pois, conhecer e estar unido a Deus não advém de catecúmenos que sabem bem a matéria, mas antes da experiência comunitária que podem fazer de Deus. Algo que parece aproximar-se mais de um projecto, do que de um sonho. Será?

Na Palavra de Deus, não me recordo de qualquer passagem onde encontre Deus a falar-nos através de projectos, mas são várias que confirmam como nos fala pelos sonhos (Num 12, 6; Act 2, 17; entre outras passagens). Caminharmos juntos pode significar, também, sonharmos juntos partilhando o que sonhamos. O que sonhas sobre uma Igreja Sinodal?

Foto da capa: Papa Francisco com o presidente da comunidade judaica eslovaca. Bratislava, 13 de setembro de 2021. Foto EPA/Luca Zennaro. que pensamos.

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