O lugar do Humano no Desenvolvimento Sustentável: A visão da Teologia

João Manuel Duque


Tem sido frequente, no recente debate ecológico, atribuir precisamente ao judaísmo e ao cristianismo a responsabilidade pela construção daquela perspetiva de relação dos humanos ao resto do mundo – genericamente denominada antropocentrismo – que conduziu ao paradigma da exploração do mundo não humano, tanto animal como vegetal ou geológico, num processo interminável, que com a intensificação tecnológica resultou no denominado antropoceno.
No antropoceno, ao contrário do holoceno a que sucede, o impacto dos humanos sobre o planeta tem efeitos significativos, potencialmente desequilibradores e destrutores. O apelo, apresentado em Gn 1, 28 para crescer e “submeter a terra” estaria na raiz dessa influência. Mas será mesmo assim?

É claro que a terminologia usada nos textos referidos é “forte” e pode permitir essa leitura. E também é certo que, sobretudo através da sua transformação moderna e com o desenvolvimento da ciência e da correspondente tecnologia, a relação do humano com o resto do mundo, na contraposição dualista entre cultura e natureza, acabou por resultar num processo de exploração sem limites; os humanos, assumindo-se como donos absolutos do planeta, consideraram poder fazer com os recursos existentes tudo o que desejassem, sem consequências problemáticas.

No entanto, apercebemo-nos cada vez mais que as consequências são graves e que pode haver um fim, provocado precisamente por nós. E isso tem-nos levado a repensar o lugar do humano no seio do planeta. Será que o novo modo de conceber esse seu lugar contradiz o modo como as tradições judaica e cristã o concebiam? Ou a questão é mais complexa?

O Papa Francisco, na Laudato Si’, dedica a este assunto – que é o assunto teológica e antropologicamente mais significativo da discussão – o segundo e o terceiro capítulos. Do ponto de vista fundamental, ainda que o referido texto de Génesis seja um texto bastante agressivo, a sua compreensão do humano está bem distante da deriva a que a modernidade deu corpo e impulso. O próprio texto referido enquadra-se num contexto em que o humano tinha sido colocado num jardim, que lhe foi confiado para o cultivar (Gn 2, 15).

Assumindo a metáfora fundamental do texto – já que o texto é para ler precisamente nesse significado inspirador, e não como texto histórico – a terra foi entregue por Deus ao cuidado do humano; não é seu produto nem sua propriedade. Ao humano também não é dada a posse da terra, mas a missão do seu cuidado. Aliás, sendo o jardim marcado sobretudo pela presença da vida, nas suas variadas formas – para além dos outros recursos não vivos – o grande problema originário é, precisamente, a pretensão de se apoderar da “árvore da vida”, como se os humanos fossem seus proprietários. O “pecado original” seria precisamente essa pretensão de propriedade fundamental e sem limites. E quando essa pretensão é auxiliada com as possibilidades tecnológicas, então transforma-se em tecnocracia.

É precisamente a este tópico que Francisco dedica o 3º capítulo, discutindo aí a questão do antropocentrismo. De facto, a junção do sonho de poder absoluto sobre o mundo (também sobre as outras pessoas), típico de certa ideologia moderna, com a capacidade tecnológica entretanto adquirida, é que tornam o antropocentrismo problemático.
Interpretado como posse absoluta do mundo e aplicado sem limites, conduzirá à progressiva destruição das condições gerais de vida no planeta, espécie a espécie, com graves consequências sobre as condições de vida dos humanos, mas sobretudo com consequências catastróficas para todo o planeta.

A reação de certas tendências contemporâneas a esta perspetiva – que denominam, genericamente, humanismo – tem levado à afirmação do denominado pós-humanismo, claramente não antropocêntrico. No lugar do humano coloca-se a vida (vitalismo ou biocentrismo) ou a terra, no seu conjunto (geocentrismo), ou então o habitat como ambiente equilibrado (ecocentrismo).

No entanto, esta destituição do humano a uma manifestação da vida, entre muitas outras, ou a um elemento do planeta, entre muitos outros, não deixa de ser problemática. É certo que favorece a consciência de pertença a algo mais vasto, o que é verdade; favorece também a consciência de dependência em relação aos múltiplos agentes do ambiente, o que também é verdade.

Mas não permite pensar, sequer, a específica responsabilidade do humano, nomeadamente como potencial culpado de muita destruição que acontece (nomeadamente de muitas espécies), dos efeitos sobre o clima e das consequências sociais que daí possam resultar (já que os pobres são sempre os mais atingidos, como recorda Francisco).

Mas a questão não se fica pela culpabilização. Numa visão completamente pós-humanista e anti-antropocêntrica, a responsabilidade positiva, em relação ao que pode ainda ser feito, também não teria enquadramento.

Se não somos mais do que qualquer outro animal, ou árvore, ou pedra, não poderemos ser chamados a responder, em liberdade, por qualquer responsabilidade no cuidado do planeta. Não seremos, pois, convocados a cuidar do jardim que nos foi confiado e que não é nosso – nem de nenhum indivíduo, nem de nenhum grupo ou cultura ou país. Porque, para assumirmos essa responsabilidade, temos que nos perceber como sujeitos éticos e, nesse sentido, como diferentes dos outros habitantes do planeta, embora a todos ligados. Nem mais, nem menos.

Foto da capa: Pintura biodegradável, tintas de carvão, giz, água e leite, do artista franco-suíço Saype, projeto Beyond Walls (Além das Paredes). Bienal de Veneza 2022. Foto EPA/VALENTIN FLAURAUD.


João Manuel Duque

João Manuel Duque

Professor Catedrático com Doutoramento em Teologia Fundamental pela Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt (Alemanha), sob orientação de Jörg Splett e como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996, com uma tese sobre a filosofia da arte de Hans-Georg Gadamer, em perspetiva teológico-fundamental. Agregação em Teologia Fundamental pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) em 2011.

Professor Catedrático da Faculdade de Teologia e Investigador integrado do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER) e colaborador do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos (CEFH), ambos da UCP. Docente de Teologia Sistemática (Teologia da Fé, Mistério de Deus, Cristologia, Estética Teológica). Realiza investigação sobre a relação entre teologia, filosofia e cultura contemporânea, com especial incidência na fenomenologia e na antropologia da cultura digital.

Membro da Comissão Científica da coleção «Perconoscenza» da editorial EDB de Bolonha e membro dos Conselhos Científicos Internacionais das revistas Salmanticensis (Salamanca), Teologia (Milão), Perspetiva Teológica (Belo Horizonte), Limina (Graz), Kairós (Fortaleza). É diretor da revista Ephata, Revista Portuguesa de Teologia, da Faculdade de Teologia. Membro da Sociedade Científica da UCP, da Associação Europeia de Teologia Católica e da Sociedade Brasileira de Teologia Sistemática

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