O ingrediente secreto na criação de hábitos

A vida frenética durante os períodos de trabalho justifica a busca de algum descanso durante as férias. E os hábitos de lazer descurados com a desculpa do trabalho, encontram nos períodos de descanso a sua oportunidade de nos transformar, ajudando-nos a descobrir novas identidades.

Os meses de descanso não servem apenas para recuperar as forças físicas, mas representam uma oportunidade de recuperar ou adquirir hábitos que podem transformar, inclusive, o modo como trabalhamos.

Num momento de comunhão entre amigos, um partilhava como não conseguia criar o hábito de ler. Na cara espelhava como o trabalho e a logística familiar seriam as razões para isso. Mas como ler aguça a mente, e sabendo eu que o seu trabalho exigia uma mente aguçada, diria que a leitura seria o melhor remédio para manter um nível elevado na qualidade do seu trabalho.

Existem hábitos passivos como ler, escrever, pintar, desenhar, costurar, fazer puzzles que parecem ser atividades de lazer (e são), mas produzem, nas nossas capacidades motoras, cognitivas e de sensibilidade espiritual, grandes efeitos, muitas vezes, negligenciados. Como durante os períodos intensos de trabalho não é evidente fazermos exames de consciência sobre o estado de arte dos nossos hábitos, os períodos de férias são o kairos, isto é, o tempo certo para isso.

Porém, existe um ingrediente que muitos se esquecem e que pode ser a pitada de sal que faz toda a diferença.

As pessoas lêem para relaxar ou adquirir conhecimentos; escrevem para se libertar das dores interiores ou partilhar com os outros alegrias; pintam para dar cor e forma ao que sentem; desenham para desenvolver uma capacidade de expressão; costuram para poupar na roupa ou pelo simples gosto de a fazer; e fazem puzzles para se divertir em família. Mas, apesar destes e qualquer outro motivo, o que se alteraria se desenvolvessem cada hábito por amor?

S. João da Cruz disse: “onde não existe amor, coloca amor e encontrarás amor”. Logo, se colocarmos amor nos hábitos que podemos desenvolver em momentos de lazer, encontraremos amor permeado pelas nossas férias e estaremos a desenvolver a possibilidade de manter essa chama do amor acesa ao longo do ano. Pois, um hábito é uma mudança de comportamento que perdura no tempo.

Por outro lado, os hábitos são processos que ligam o que somos aos resultados que queremos, pelo que o efeito de colocar amor nesses processos pode ser um algo-mais que faz a diferença. Imaginemos o caso de alguém que escreve: quer publicar um livro para ser escritor ou sendo escritor quer publicar um livro?

Publicar um livro é um resultado. Ser escritor faz parte da identidade da pessoa. E só com um hábito de escrita criado se desenvolve o processo que liga resultado e identidade.

Mas existem duas direções possíveis a que a pergunta anterior alude. A direção que parte do resultado (publicar um livro) para chegar à identidade (ser escrito); e a direção que parte da identidade (ser escritor) para chegar ao resultado (publicar um livro). Qual a melhor direção quando ambas parecem ser justas e lógicas? É aqui que o amor que cria o hábito ajuda a entender a direção certa.

O amor faz de nós pessoas que desejam ser dons-de-si-mesmos, projetando a interioridade para fora, de modo a transformar a exterioridade. Quando as pessoas consideram o amor como uma força interior é por ser um parte inextricável do nosso ser que transforma o mundo à nossa volta. No amor, como dom, não nos voltamos para nós mesmos, mas para tudo e todos os que estão fora de nós mesmos.

Assim, a direção sugerida quando colocamos amor na criação de um hábito é a que parte do interior (identidade) e se dirige para o exterior (resultado). Sentem como o amor liberta?

Quantas pessoas evitam os hábitos (processos) que podem ajudá-las a realizar os seus sonhos (resultados), ou que recusam o que são (identidade) por não possuírem os hábitos que lhes permitem chegar ao sonho (resultado). O amor desbloqueia estes entraves e esse é um dos seus muitos efeitos.

Neste período que para muitas pessoas é a oportunidade de descansarem, se colocarem amor na criação daqueles hábitos passivos que parecem ser apenas para aqueles que nada têm para fazer, talvez se deem conta como esses hábitos ajudam a descobrir uma identidade em nós mais profunda do que a de um trabalhador exímio naquilo que faz.

Aliás, quem sabe se a pintura não suscitará novas ideias para o trabalho? Por exemplo, a mais simples ideia de aprender a colocar amor em tudo o que fazemos para sermos mais e melhores do que somos.

tetxu - stock.adobe.com
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