O coração precisa da casa

Home is where the heart is
and my heart is anywhere you are
Anywhere you are is home”.

Sob um sol estival, Walter Gulick canta estes versos a Rose Grogan, sentada numa charrete sem tração:

Casa é onde estiver o meu coração
e o meu coração está onde tu estiveres;
por isso, onde quer que estejas, aí é casa.

Capa do filme Kid Galahad, com Elvis Presley: Un direct au coeur - Direto ao coração.
Capa do filme Kid Galahad, com Elvis Presley: Un direct au coeur – Direto ao coração.

O filme chama-se Kid Galahad (Phil Karlson, 1962) e o apaixonado cantor é Elvis Presley. Talvez a sua memória não evoque desde já a melodia, caro leitor, mas procure no Youtube (ou quem sabe nalgum LP antigo dos que guarda) e vai certamente reconhecer a voz do rei do rock and roll.

Casa é onde estiver o coração.

Mesmo que não se lembre da música de Elvis, a leitora se calhar já encontrou a frase assim estampada numa caneca da loja dos trezentos ou num quadrinho romântico em tons pastel para pendurar na cozinha.

Casa é uma das palavras mais poderosas da(s) nossa(s) língua(s), não pelas “quatro letrinhas apenas” com que se escreve, mas pelo que significa.
Venham comigo: chão, teto, paredes, calor, luz, aconchego, refúgio, festa, proteção, família, esperança, construção, saudade, cor, frio, vazio, música, cheiros, choros, … Em que mais pensa o leitor, a leitora?
A casa é onde está o coração, cantava Elvis Presley.

É daqui que parto, é aqui que chego ou, pelo menos, é o lugar aonde posso voltar. Vagamundos de muitas errâncias, dentro da mala de cartão que cantava nos anos 1980 Linda de Suza (n. 1948), escondemos, como ela, as nossas ilusões. Na verdade, cada vez que alguém parte, independentemente da mala que carrega ou arrasta, leva consigo, como a mais famosa das portuguesas imigradas em França,

L’univers qui m’appartient
Imprenable, indispensable
Pour demain.

Um universo pessoal
e instransmissível, inexpugnável, único e indispensável
para o futuro.

Que universo era o seu, caro leitor, cara leitora, quando partiu, noutra vida, para as franças, as suíças, os luxemburgos? Se fosse forçado a partir, o que levaria agora?

Em 2016, a Plataforma de Apoio aos Refugiados (em colaboração com o Alto Comissariado para as Migrações, com o Instituto Português da Juventude e com a Direção-Geral da Educação) promoveu uma iniciativa de sensibilização de crianças e jovens para as dificuldades de quem tem de decidir sair de casa por ser impossível viver nesse lugar: “E se fosse eu? Fazer a mochila e partir”. A iniciativa teve um impacto importante nas escolas, mobilizando mais de 600 estabelecimentos de ensino para este tema, e talvez valesse a pena reativá-la neste momento, a propósito da guerra na Ucrânia, quando vemos de novo à nossa beira tanta gente a ter de partir das suas casas e das suas vidas.

O início do texto da Francisca Gigante, O futuro só a Deus pertence (Sete Margens, 28-2-2022), perturbou-me com a sua banal descrição de um dia comum, introduzida pela locução prepositiva “em vez de”: “Em vez de fazer a cama, em vez de abrir o frigorífico, em vez de abrir o armário à procura de uma caneca de café, em vez de colocar os cereais numa taça, em vez de tomar banho, em vez de arrumar o quarto, em vez de dar os bons dias a quem acordou mais tarde em casa, em vez de sair com a mochila e fechar a porta de casa, em vez de tudo o que é normal antes de sair de casa para o trabalho […]”.

Em vez de tudo isso, de tudo isto que são os nossos dias corriqueiros, é preciso partir subitamente, partir com pressa e com medo, sair para tentar chegar a outro lado, sabendo que essa chegada não é realmente a um terminal.

As pessoas que fogem das suas casas, dos seus países, de alguma maneira nunca chegam ao destino. Porque ainda que haja um lugar de acolhimento e de descanso, enfim, não há um final. Só houve a urgência da saída e há o apelo inelidível do regresso à casa de partida.

Na vida da pessoa exilada, os verbos chegar, estar, ficar, são sempre conjugados no “modo” transitório. Num misto de esperança e incredulidade, as pessoas que chegam da Ucrânia a Portugal não vêm à procura de aqui viver. Vêm para poder esperar.

Acolher, neste momento, é sobretudo “cuidar da espera”.

Porque casa é onde está o coração, mas às vezes o coração não está lá, anda à procura. Porque não se pode – para já – voltar, mas o coração precisa da casa.

Foto da capa: Carregando toda uma vida, após ver destruído pela artilharia russa o prédio onde habitava, em Kiev, Ucrânia, 14 março 2022. Foto EPA/PILIPEIA ROMANA.

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