Não tenhais medo de chorar

As lágrimas do Papa Francisco diante da imagem da Imaculada Conceição ficarão como testemunho vivo do “chorar com os que choram”.

Vale a pena recordar um dos momentos da visita do Papa às Filipinas no seu encontro com os jovens (18 de janeiro de 2015). Glyzelle Palomar e muitíssimas crianças sofreram com o tufão devastador que atingiu as Filipinas no ano anterior. “Por que Deus deixou acontecer isto?” perguntou a menina ao Papa, cobrindo a sua face com as mãos enquanto soluçava. “Existem muitas crianças rejeitadas pelos pais”, disse ela ao Papa Francisco. E acrescentou: “Muitas também se tornam vítimas e muitas coisas horríveis acontecem, como drogas e prostituição. Por que permite Deus que coisas assim aconteçam, mesmo que não seja culpa das crianças? E porque é que temos tão poucas pessoas a nos ajudar?”.

O papa agradeceu o seu testemunho a uma pergunta que não tem resposta.

Só quando formos capazes de chorar sobre as coisas que vivemos é que podemos compreender qualquer coisa e dar alguma resposta…
No mundo de hoje falta o pranto…
Se não aprenderdes a chorar, não sois bons cristãos. Sede corajosos, não tenhais medo de chorar.

É longa a citação, mas abre o coração, ao lado da misericórdia e da compaixão.
Alguém chamava às lágrimas do Papa Francisco diante da imagem da Imaculada o sorriso da misericórdia.

Na visão do Papa sobre a guerra há um crescendo de palavras duras sobre este nosso drama. Na mensagem dirigida aos polacos presentes em Roma, no dia cinco de dezembro, data em que o Centro de Relações Católico-Judaicas da Universidade Católica de Lublin comemorou o aniversário da “Operação Reinhardt”, que durante a Segunda Guerra Mundial resultou no extermínio de quase dois milhões de vítimas, sobretudo de origem judaica, o Papa afirma:

Que a lembrança deste terrível acontecimento desperte em todos nós propósitos e ações de paz. E a história, repete-se, repete-se. Vemos agora o que está acontecendo na Ucrânia. Rezemos pela paz. Abençoo de coração todos vós aqui presentes e aos vossos compatriotas.

A ligação entre estes dois acontecimentos é contundente e não deixa margem a interpretações simplistas.
A Operação Reinhardt (em alemão: Aktion Reinhardt ou Einsatz Reihardt) foi o nome da operação do Terceiro Reich para exterminar o povo judeu, o povo cigano, os nómadas, etc.
Recordo, numa passagem pelo campo de extermínio de Majdanek, na Polónia, perto da fronteira com a Ucrânia, o pesado silêncio que nos esmagava e como o teólogo espanhol González Ruiz, ao chegar ao crematório, não conseguiu entrar, nem conter as lágrimas.

E depois da visita, já no autocarro, sentei-me ao lado duma senhora polaca, também ela em lágrimas, e que as explicava dizendo: eu sei que há muita perversidade no ser humano, mas não consigo entender como é que uma mulher, a esposa do comandante do campo, podia viver com os seus filhos na sala contígua ao crematório, separada apenas por um tabique de madeira, para aproveitar o aquecimento produzido pelos fornos.

A construção e a administração dos campos foram supervisionadas por Christian Wirths que, como muitos outros na Operação Reinhard, foi fundamental para o programa de eutanásia proclamada neste tristemente célebre texto:

O líder do Reich Philipp Bouhler e Dr. Brandt estão encarregados da responsabilidade de ampliar a competência de certos médicos, designados pelo nome, de modo que aos pacientes, baseando-se no julgamento humano [menschlichem Ermessen], que forem considerados incuráveis, possa ser-lhes concedida a morte de misericórdia [Gnadentod] após exigente diagnóstico.

E a história, repete-se, repete-se… Vemos agora o que está acontecendo na Ucrânia.

Dias antes o Papa tinha lembrado o drama do Holodomor (uma palavra ucraniana que quer dizer “deixar morrer de fome”, “morrer de inanição”). Tal palavra passou a ser empregada no contexto da história ucraniana para definir os acontecimentos que provocaram a morte por fome de milhões de ucranianos entre os anos de 1931 e 1933.

A atrocidade do Holodomor remonta às políticas económicas que Stalin implementou logo que assumiu o poder, em 1928. Uma das medidas consistia em controlar a produção de cereais dos países da União Soviética por meio da “requisição compulsória”, um artifício burocrático que obrigava os camponeses a fornecerem grande parte da produção para o Estado a baixos custos. Seguiu-se a política de coletivização forçada das propriedades agrícolas, cuja administração passou a ser completamente controlada pelo Estado soviético.

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