Não há lugar para os pobres!

“Sabia que há mais de dois milhões de pobres em Portugal, o país da Europa que mais se afundou nas condições de vida, mas cada português deita fora meio quilo de comida por dia?” Ao mesmo tempo, “a meta de retirar 600 mil pessoas da situação de pobreza até 2030 fica comprometida quando a inflação encolhe o salário mínimo de 705 euros para 639 euros?”.

Assim começa a newsletter Expresso Curto de hoje, dia 17 de outubro, editada pela jornalista Margarida Cardoso.

Hoje é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza e também o Dia Internacional dos Sem-Abrigo.

Deixo aqui uma provocação: que lugar tem ocupado esta problemática nos encontros de preparação para a JMJ 2023? Se mais de 20% dos portugueses são pobres ou estão em risco iminente de pobreza, não podemos organizar uma JMJ 2023, em Portugal, ocultando ou minimizando este pecado social gravíssimo.

Segundo as Nações Unidas, acabar com a pobreza extrema é um desafio que se coloca a todos os países se queremos “alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construir um futuro sustentável para todos”.

O foco deste ano, ao comemorarmos o 30º aniversário da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, está em “agir em conjunto para capacitar as crianças, as famílias e as comunidades a acabar com a pobreza”.
As crianças têm o dobro da probabilidade dos adultos de viver em pobreza extrema. A pobreza condena muitas crianças a dificuldades constantes ao longo da vida e perpetua uma transferência intergeracional de privações. Além disso, se não formos mais ambiciosos, as crianças de hoje irão viver com as consequências devastadoras das alterações climáticas.
Das zonas de conflito ao ciberespaço, do trabalho forçado à exploração sexual, as meninas correm grandes riscos mas também são forças de mudança. Por cada ano escolar que uma menina completa, os seus rendimentos médios aumentam ao longo da vida, a probabilidade de se casar precocemente diminui e há benefícios evidentes para a saúde e educação dos seus filhos, o que o torna um fator essencial para acabar com o ciclo de pobreza.
Uma das chaves para acabar com a pobreza infantil é atacar a pobreza no lar, onde geralmente esta se origina.
Hoje, quase dois terços das crianças não têm serviços de proteção social, pelo que o acesso a serviços sociais de qualidade deve ser uma prioridade. As políticas referentes à família também são indispensáveis, incluindo os acordos de trabalho flexíveis, a licença parental e o apoio às crianças.

https://unric.org/pt/dia-internacional-para-a-erradicacao-da-pobreza/

É urgente colocar a fome na agenda

Armando Borges, camionista em Bruxelas, uniu-se à Porta Solidária.
Armando Borges, camionista em Bruxelas, uniu-se à Porta Solidária. Foto Rui Oliveira/global Imagens, 2020.

Com a devida vénia, continuo a citar a jornalista Margarida Cardodo, no Expresso Curto:

É urgente colocar a fome na agenda. A situação é dramática”, diz ao Expresso o padre Rubens Marques, da paróquia portuense de Nossa Senhora da Conceição, no Marquês, onde funciona desde 2009 um restaurante solidário.
Com o apoio de voluntários e amigos, serve 390 refeições diárias a quem tem fome na cidade. “A procura mais do que duplicou comparativamente ao período pré-pandemia e abrange idosos que esgotam a reforma a pagar o quarto e já nem têm dinheiro para os medicamentos, sem-abrigo, famílias com dificuldades, crianças, imigrantes, em especial de Marrocos e da Argélia”, conta.
A crise reflete-se aqui duplamente: “Os pedidos aumentam e, ao mesmo tempo, a ajuda diminui”, resume Rubens Marques. “Com a inflação, as famílias que faziam donativos começam a ter problemas para gerir os seus próprios orçamentos e retraem-se nas ofertas. Com a subida de custos de produção e a quebra na procura, as empresas que nos ajudam têm a vida mais difícil e também reduzem os apoios”, explica.
Das histórias que vai ouvindo, percebe que “a fome é muitas vezes agravada pela solidão”, por isso acredita ser “importante recuperar as velhas relações de vizinhança”, “estar mais atento ao próximo” e “avançar urgentemente com soluções estruturais”. Afinal, está a trabalhar apenas “para uma resposta de emergência, por isso mesmo insuficiente”.

Margarida Cardoso, Newsletter Expresso Curto, 17 out 2022

Relembro as palavras do Papa Francisco na sua Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres que se celebrará a 13 de novembro: “A solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra”.

A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. Mas também há uma pobreza libertadora como opção para apostar no essencial aprendendo a viver com frugalidade e desprendimento. Se uns comem tudo e não deixam nada, nunca conseguiremos erradicar a pobreza que mata.

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