Metaverso: uma bolha sem fora

A empresa Facebook mudou de nome e passou a chamar-se Meta. Há quem diga que foi um golpe publicitário para desviar as atenções das críticas externas e internas de que tem sido alvo pela forma como tem utilizando os dados pessoais que voluntariamente lhe oferecemos e pela utilização propositada de algoritmos que supostamente favorecem a disseminação das fake news, incentivam comportamentos socialmente reprováveis e promovem conteúdos ideologicamente manipulados.

A nova empresa Meta passa a ser o chapéu para uma série de aplicações algumas já existentes, como Facebook, Instagram, Whatsapp, outras que irão ser entretanto desenvolvidas como Horizon, seguindo as tendências tecnológicas emergentes que se autodenominam de metaverso.

O projeto Horizon pressupõe que as pessoas vão querer usar óculos de realidade virtual (que tapam os olhos com pequenos ecrãs) e realidade aumentada (que justapõe artefactos digitais) sobre objetos reais.

Hoje, pode parecer um pouco louco o uso de “óculos tecnológicos”, mas basta lembrar os antigos walkmans ou os “fones XXL” de alguns melómanos mais audazes, para confirmar que as modas apenas precisam que alguém as inicie.

©knssr - stock.adobe.com
©knssr – stock.adobe.com

Mas o que é o metaverso?

O metaverso é um mundo virtual alternativo ao mundo real e aspira a ser a plataforma candidata a suceder aquilo que hoje denominamos Internet. É como se fosse uma Internet corpórea onde podemos interagir com uma sensação de presença imersiva, como se estivéssemos ali com outras pessoas, num outro lugar, jogando xadrez ou participando num concerto, presentes “fisicamente” através do nosso avatar.

Quem se lembra do Second Life? Foi talvez uma primeira tentativa, mas não havia ainda os meios tecnológicos (velocidade da Internet e capacidade de processamento dos computadores) para uma experiência de imersão satisfatória.

Antevê-se que a interação com o metaverso, além dos dispositivos atuais, tenderá a ser, sobretudo, através de óculos muito mais minimalistas que os atualmente utilizados na Realidade Virtual 3D. Terão ecrãs nas lentes e capacidade de processamento superior aos nossos telemóveis topo de gama. Hologramas (ou seja imagens corporizadas em 3D no espaço real) farão parte também do metaverso.

O metaverso integrará, portanto e de forma mais sofisticada, aquilo que hoje chamamos de Realidade Virtual 3D e Realidade Aumentada (ou seja informação adicional sobreposta a objetos reais), como informação adicional visual e auditiva sobre uma obra de arte que estamos a ver num museu real, ou informação sobre um produto que pegamos nas mãos numa loja física.

O metaverso permitirá ainda entrar virtualmente numa loja física e aí fazer compras, experimentando inclusive a roupa, sem sair de casa. Mas permitirá, sobretudo, visitar espaços que só existirão virtualmente (ruas de lojas, escritórios, recintos de espetáculos, campos desportivos). E já há arquitectos e engenheiros a desenhar e a construir estes espaços e empresas a vendê-los e a comprá-los.

O metaverso pretende converter-se num espaço virtual compartilhado, criado pela convergência entre a internet, a realidade aumentada e a realidade física virtualmente aprimorada. Suas tendências existem já hoje em jogos de computador como Roblox, Fortnite e Animal Crossing.

O conceito de metaverso, um mundo em que avatares 3D interagem num universo digital, foi um conceito desenvolvido primeiro no mundo da literatura, mais concretamente na ficção científica.

Há muito que este tipo de literatura imagina mundos digitais, em que avatares conseguem conviver num ambiente totalmente digital, como se de uma réplica do mundo real se tratasse. O termo metaverso foi cunhado pela primeira vez no livro de ficção científica escrito por Neal Stephenson, em 1992, chamado Snow Crash, em que as personagens utilizam complexos computadores para se ligarem a um mundo digital onde existem avenidas, casas, bares e autoestradas.

©Creativa Images - stock.adobe.com
©Creativa Images – stock.adobe.com

Não temos a certeza de como o metaverso se irá desenvolver, mas as suas características básicas estão estabelecidas – abrange o mundo real e o virtual, é centrado numa economia digital baseada em criptomoedas. Permite que os utilizadores viajem por seus diversos “espaços” com facilidade, mantendo os avatares (representações virtuais de si próprios) e as mercadorias virtuais que compraram. Imaginemos um parque temático sem limitação de tamanho e criatividade. Depois, imaginemos que é possível mover-se nesse ambiente para um concerto de música virtual com milhares de outras pessoas participando, todas no mesmo universo digital. Isso poderá ser possível com essa nova fronteira tecnológica.

A Meta (anterior Facebook), a Google, a Microsoft, a Apple, a Sansung, a Sony, são alguns dos colossos que estão investindo biliões para modelar esta futura realidade paralela, em que as criptomoedas e a tecnologia blockchain terão uma papel fundamental.

Mas, de facto, ainda não existe o metaverso, e muitos inclusive, duvidam que possa tornar-se viável no curto prazo. Mas quando há orçamentos bilionários e interesses de peso dispostos a construí-lo, a sua possibilidade torna-se altamente verosímil.

A experiência da pandemia da Covid-19, somada ao convívio intenso nas redes sociais, veio acelerar alguns processos. Segundo Paula Sibilia, professora e investigadora da cultura digital, numa entrevista dada à revista IHU online:

Habitamos agora um terreno fértil para as realidades paralelas, virtuais, aumentadas, filtradas, turbinadas, instagrameadas e ambiguamente falsas, de um modo geral. A estranheza do isolamento motivado pela pandemia de Covid-19 não fez mais do que intensificar essa tendência, adubando um solo muito propício para que brotem todo tipo de metaversos bem-sucedidos.

Paula Sibila

Paula Sibilia chama ainda a atenção, na mesma entrevista, para os riscos dos algoritmos programados para maximizar os lucros da existência digital nesses ambientes:

O capitalismo baseado em dados está no cerne dessa empreitada. Tendo testemunhado o que vem ocorrendo nos últimos anos com o uso dos algoritmos nas redes sociais da internet, é assustador imaginar o que pode vir a acontecer numa atualização desses sistemas que leve ainda mais longe a ilusão de uma ‘bolha sem fora’ suscitada pela experiência da interação digital.

Paula Sibila

A fronteira entre o real e o digital, já bastante ténue e cada vez mais nebulosa, tenderá a desaparecer ao serem eliminadas barreiras como teclados, monitores, dispositivos que serão substituídos por óculos, sensores ou conexões neuronais. “Em vez de ver apenas o conteúdo, estaremos dentro dele”, explicou Zuckerberg, dono da Facebook, agora Meta, numa entrevista. Por isso, provavelmente esses dispositivos serão muito mais eficazes que os atuais na sua capacidade de aprisionar a nossa atenção e os nossos sentidos, com todos os efeitos de dependência e manipulação que isso poderá comportar.

Muitos dos nossos netos não sabem trepar a uma árvore ou subir a um escadote com mais de 5 degraus; não têm grandes hipóteses de sujar as mãos na lama, acariciar ovelhas ou correr atrás das galinhas; e isto não só porque a sociedade já não está configurada para estas experiências, mas também porque a superproteção dos pais as dificulta ou torna impossíveis.

No metaverso essas experiências voltarão a ser possíveis e seguras, mas a que preço?

Em jeito de parábola conclusiva descrevo um dos últimos anúncios da NOS, não é futuro, está a passar agora no Youtube: NOS NATAL 2021 – O Amigo Impossível. A trama do anúncio pode resumir-se assim.

Uma criança sonha com um boneco de neve e os pais tudo fazem para concretizar o seu desejo. Primeiro constroem no jardim um boneco com lã ou algodão, um cachecol e um chapéu, mas não era bem isto que a criança queria. Então tentam de novo com esferovite. Procurando ser mais realistas a mãe disfarça-se de boneco de neve. Em vão. Mais uma tentativa, agora modelando blocos de gelo, e, depois, uma rodoma mágica junto da árvore de Natal com um boneco de neve lá dentro e flocos de neve flutuando. Por último tapam os olhos à criança e levam-na até ao jardim com uns óculos de realidade virtual. Agora sim, é um boneco de neve “de verdade” e até a neve rodopia no ar.

Será este o futuro que estamos a desenhar para os filhos dos nossos netos?

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