Memórias no verão

Não sabemos muito bem quando, mas há um dia em que percebemos que as nossas memórias têm patine. Ou seja, já não são apenas acontecimentos do passado, mas sobre eles correu o tempo que lhes deixou essa camada de envelhecimento natural e, digamos, requintado, selecionando, e por isso reconfigurando, o passado.

A infância, a adolescência, a primeira juventude, passam de ter uma cronologia exata a organizarem-se em laivos de vivências: os namoros, as festas de verão, a viagem mais longa, as promessas de amor, os segredos e os contratempos, a aventura mais louca…

A tecnologia de ponta que usamos ligada a uma corrente invisível mas bem presente – o nosso telemóvel, mais ou menos smart e, afinal, muito pouco móvel, porque o trazemos sempre agarrado à mão – é capaz de concretizar esta sensação de apurada distância com diversos filtros destinados a transformar qualquer foto desenxabida numa peça de marketing pessoal do mais alto gabarito.

O papel fotográfico das fotos a.t. (antes de telemóvel) também vai envelhecendo a seu modo, numa experiência digna do laboratório de físico-química, a uma velocidade bem mais lenta e incerta do que a do rápido clique no filtro preferido. Com o filtro, tapamos sem ocultar, depuramos, iluminamos e colorimos, apagamos (imper)feições e reescrevemos momentos. Não são necessariamente mentira, os filtros, são amiúde apenas novas histórias, feitas para reinventar a vida vivida e aquela sonhada.

Não sabemos muito bem quando, mas há um dia em que percebemos que a patine sobre as nossas memórias as traz para o presente como uma dádiva, transportando um bocadinho menos do que fomos e mais do que cremos ter sido: garotada livre pelas ruas do bairro, malandragem da boa pelas estradas da terra, segredos roubados enquanto se esperava a camioneta, risinhos nervosos atrás do campo da bola, nos intervalos da escola.

Cremos e queremos ter sido aquela juventude cheia de hesitações e certezas sobre os mesmos amores, cheia de planos infalíveis para ser feliz, aquela juventude a reclamar da injustiça tremenda de ter horários, de ter de fazer TPC, de apanhar grande secas com a família, de não poder dormir de dia porque de noite é que é.

Gente a sonhar com as férias, esquivando o olhar dos pais, a beber a primeira imperial às escondidas e a armar-se em grande, tossindo com o cigarro na mão. Rapaziada diante de espelhos distantes, mas paralelos, nas horas de pôr perfume e de preparar a toilete para a festa mais aguardada, a malta de sempre (ou a do momento, mas sempre a nossa malta), protagonista da madrugada, enevoada ou clara, prestes a perder-se entre as brumas da memória ou destinada às narrativas épicas dos encontros futuros entre os sobreviventes de tais façanhas.

Não sabemos muito bem como, mas há um dia em que percebemos que essas memórias com patine nos surpreendem no quotidiano, recordando sonhos substituídos, amigos esquecidos, músicas cuja letra perdêramos, a sensação dos ténis novos nos pés velozes, a antecipação da alegria do fim das aulas, os pores-do-sol imensos na praia vazia, os projetos para o melhor trabalho, a paixão avassaladora, o amor eterno, a certeza de mudar o mundo.

É muitas vezes no verão que isso acontece. Os dias soalheiros e estendidos, as quentes carícias do vento nas pernas, os sons da noite (as cigarras insistentes ou o teclista motivado que se ouvem demasiado perto), a fruta morna acabada de apanhar da árvore, a algazarra das esplanadas cheias, tudo isso e mais alguma coisa, traz de longe memórias de felicidade e esperança.

Mas não são como fotografias que revemos segurando na ponta dos dedos e das lembranças; são como visitas que nos brindam calorosamente, que se sentam connosco e nos acompanham por momentos (já agora, não demasiado tempo, a visita demasiado tempo perturba), partilhando aquela confiança alegre da juventude, que já para sempre será nossa.

Foto arquivo Inês Espada Vieira.

Fotos: Arquivo Inês Espada Vieira.

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