memória & esperança

Intervenção em nome da Comissão Promotora da Jornada

24 de outubro de 2021, HSM

A primavera de 2021 trouxe-nos o desejado encanto viçoso e verde da natureza, temperaturas mais amenas depois de um inverno particularmente frio, e o lento, mas certo, estender da luz do dia. Trouxe-nos também aos poucos a visão luminosa do fim da incerteza, do medo, do isolamento, a que a pandemia da COVID19 nos tinha votado.

Naquela época – há poucos meses, há muito tempo –, a confiança nas instituições democráticas e na ciência levou um grupo de cidadãos a preparar um Manifesto para apresentar a proposta de uma jornada que pudesse assinalar esse futuro que a primavera nos deixava entrever. Todos queríamos passar a página, mas nesta história não podíamos saltar capítulos.

Os cem primeiros autografantes deste Manifesto são de algum modo um bocadinho do nosso País, diverso e unido. Entre eles, jovens (ainda) desconhecidos, gente de várias cores, mulheres e homens de diferentes culturas religiosas, imigrantes, novos e velhos, continentais ou ilhéus.

Este grupo de cidadãos tornou público um documento com algumas reflexões que nos orientariam num itinerário do luto à esperança; não por querer apresentar um programa de atividades, antes para fazer um convite: querem juntar-se? As iniciativas destes três dias são uma resposta clara.

Por isso, desde que foi apresentado, o Manifesto esteve logo aberto a que mais pessoas e organizações marcassem com o seu nome a presença única de cada biografia.

Falo em nome da organização desta Jornada usando o nós, a primeira pessoa do plural. Faz todo o sentido usá-lo também porque a pluralidade é uma evidência: desde logo, como já referi, o País plural e aberto representado nos primeiros signatários do Manifesto, a variedade das iniciativas promovidas em diferentes lugares e comunidades, os muitos testemunhos que temos vindo a recolher, as distintas formas de estar presente nesta Jornada.

A vivência da pandemia foi singular e plural. Nós certamente não tivemos uma experiência unívoca desde março de 2020. O tempo não foi sempre o mesmo, nós não fomos sempre os mesmos. Faremos balanços diferentes daquilo por que passámos, num plano íntimo e reservado.

A memória, porém, tem também uma dimensão pública

A proposta desta Jornada procurou partir dessa constatação, sintetizada numa frase que usámos em algum material de divulgação: “A pandemia não te aconteceu só a ti!”

Por isso, aqui estamos, tu, eu, nós, vós, eles, declinando em todas as pessoas esta incomum experiência comum (comum não significa igual).

A memória coletiva está profundamente ligada à identidade de um grupo, à identidade da nação. Olhar em conjunto para o passado recente é um momento cívico essencial. Essa matéria memorialística será com o tempo (e pelas pessoas) reorganizada, selecionada, numa narrativa dinâmica, como são sempre as da memória, que se junta a tantas outras que contam a nossa identidade coletiva.

Sem memória não há futuro, sabemo-lo bem

Todavia, cremos também
que o futuro se constrói no presente.
Estar aqui. Agora. Juntos.
Repito, aqui, agora, juntos
.

E por isso, estamos aqui construindo um novo dia, erguendo, a uma só voz, os remos da galera. Escreveu-o em verso António Gedeão: Porque o dia constrói-se, não se espera (“Escopro de vidro”, Máquina de Fogo, 1961)

Viemos honrar os nossos mortos e agradecer o compromisso de quem nunca parou: profissionais de saúde, dos transportes ou da recolha do lixo, bombeiros ou forças de segurança, padeiros e agricultores, professores, jornalistas, psicólogos, eletricistas, canalizadores e caixas de supermercado, e outras profissões que se revelaram essenciais e que estão hoje aqui presentes. Dizemos publicamente que, como país, vos estamos muito gratos.

Viemos também afirmar a nossa esperança. Deixamos como sinal duas árvores. É um sinal, um anúncio, uma promessa a crescer, a construir-se.

É e será a marca exterior de sentimentos profundos de saudade e gratidão. É também a esperança num futuro comum mais solidário e mais justo. Um horizonte inspirado em tantas ações concretas que testemunhámos e de que fomos protagonistas durante o último ano e meio.
Reconhecendo as nossas fragilidades, procuramos sempre ser melhores. E não de forma lírica ou imaginada: ser melhores concretamente. Na qualidade da nossa democracia, na educação, no trabalho, na assistência na saúde, na cultura, na erradicação da pobreza, no apoio à infância e à velhice, na luta contra a desigualdade de género e contra o racismo, na participação cívica inclusiva, na procura de uma economia realmente sustentável, no cuidar do Planeta, a nossa Casa Comum. A pandemia revelou muitas das fragilidades nestas e noutras áreas. O que faremos com o diagnóstico das nossas fraquezas, com a evidência do que nos falta?

Se não aprendemos nada com a pandemia, estaremos diante de uma oportunidade perdida. E já perdemos tanto neste tempo.

Aproveitemos o momento para afirmar a esperança. Afirmar, assim, com a voz firme de uma declaração solene, com as letras todas de um compromisso sólido. Afirmar com ações esta fiel dedicação à honra de estar vivo (Jorge de Sena, Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya, 1959).

Ecoam ainda as palavras de José Tolentino Mendonça, a 13 de maio de 2021, em Fátima. Dirigiam-se aos jovens, mas creio que são um apelo a todos nós.

Transformo-o em imperativo na primeira pessoa do plural: […] ousemos sonhar um mundo melhor. Sintamos que o futuro depende da qualidade e da consistência dos nossos sonhos.

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