Maria, a mulher do Sábado Santo

Recordo sempre a agradável surpresa que tive, quando li, pela primeira vez, esta expressão: “Maria, a mulher do Sábado Santo”. Foi na altura da publicação da Carta Pastoral do Cardeal Carlo Maria Martini, então Arcebispo de Milão que, no ano 2000, propôs aos seus diocesanos “uma pausa de reflexão, para entender o sentido de quanto estávamos a viver e a sofrer”.

Nessa altura, vivia-se o período do grande Jubileu do ano 2000, marcado pela azáfama das iniciativas e celebrações, e sentia-se a necessidade de uma paragem “para responder com verdade, esperança e amor à pergunta: para onde vai o cristianismo? Para onde vai a Igreja que amamos?”. O cardeal Martini quis comunicar a resposta que brotava do seu coração: “Estamos no sábado do tempo, isto é, no sábado santificado pela ação de Deus, tempo santo em que se concentra a caminhada já realizada e se abre o futuro da promessa, quando chegar para todos o oitavo dia do regresso do Senhor Jesus”.

Carlo Maria Martini examinava o desconcerto dos discípulos após a morte de Jesus e via nisto a inquietação de muitos crentes que, hoje, e em particular no Ocidente, se sentiam “perdidos” perante a “derrota de Deus”. Passava, depois, a contemplar a atitude de Maria que, após o silêncio ao pé da cruz, ficou no “silêncio da espera” sem perder a fé no Deus da vida.

A Carta Pastoral do Cardeal Martini oferece, ainda hoje, uma chave de interpretação da situação que a Igreja e o mundo estão a viver, marcada, primeiro, pela pandemia da Covid-19 e, depois, pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Diante de um futuro incerto e sombrio, podemos cair na inquietação e no medo, fecharmo-nos na solidão e na tristeza ou, então, seguir critérios mundanos e falsos libertadores.

Maria ensina-nos a importância da fé e oferece-nos a consolação que dela brota. Recordando as palavras do seu Filho: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda…” e testemunhando com a sua vida uma viva esperança, ela ensina-nos a confiar e a deixarmo-nos conduzir pelo Espírito Santo. Quem O acolhe, “recebe o dom de passar com alegria e confiança através dos enigmas da história, colhendo em tudo a realização do projeto de Deus para a salvação do homem”.

Maria, mulher do Sábado santo, ensina-nos a viver o “oitavo dia”!

Foto da capa: Pietà Rondanini (escultura incompleta, 1564), Michelangelo Buonarroti. Foto SailKo (Paolo da Reggio) | Commons Wikimedia.

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