Liderar é Servir: Uma Nobre Vocação

João Pedro Tavares

A missão de um líder empresarial ou de uma empresa não pode, não deve ser o lucro. Sendo o lucro fundamental para a sustentabilidade da atividade económica deve ser encarado como um meio para um fim maior que é criar e distribuir valor de uma forma justa e responsável.

Do mesmo modo o líder deve ser um promotor deste mesmo propósito para todos os envolvidos (stakeholders). Todas as organizações devem convergir no sentido de contribuírem para a criação de valor económico, social, ecológico, mas, também, pessoal, familiar e comunitário, na promoção de capacidades partilhadas e no bom uso dos recursos.

Também a forma como são conseguidos os resultados importa, sendo imprescindível que as organizações cumpram obrigações éticas, de respeito pela dignidade da pessoa, de uso adequado dos recursos (sem abuso ou uma pegada que comprometa o planeta), de sã transparência, de espírito de serviço ou de justiça económica (que é contrária à especulação ou aproveitamento ilícito da conjuntura).

O foco deve ser de o desenvolvimento e não apenas o crescimento. Existe uma crescente consciência de que a responsabilidade das empresas vai para lá do curto prazo ou do foco nos resultados estritamente financeiros o que levou a que se desenvolvessem iniciativas de responsabilidade social, tendo sempre presente que esta deve antes ser antecedida pela responsabilidade e compromisso pessoal, em particular de quem lidera. Existem relatórios e indicadores, mas são apenas partes de um longo caminho que ainda vai no seu início.

A título de exemplo, importa referir que estudos recentes comprovam que existem bolsas de pobreza em famílias de pessoas que trabalham e, nesse sentido, os líderes empresariais estão a mobilizar-se para aferir a situação das famílias à sua responsabilidade, de modo a comprometerem-se com iniciativas que possam erradicar a pobreza nessas famílias.

A ACEGE irá lançar o semáforo para avaliar estas situações e mobilizar muitos agentes que se irão comprometer no acompanhamento e, se possível, na erradicação das situações de pobreza. Todo este trabalho partirá das famílias e das empresas. Sendo o mundo do trabalho e das empresas um agente económico muito relevante, importa mobilizá-lo para objetivos que extravasam os tradicionais limites.

Deve-se, pois, fomentar a visão da empresa como uma comunidade que inclui os seus colaboradores e as suas famílias, mas também os seus clientes, os seus fornecedores e a comunidade em geral em que se insere. As empresas, os seus colaboradores e, em particular, os seus líderes, devem atuar como motores do desenvolvimento sustentável.

Por outro lado, apesar das dificuldades especificas que se nos colocam, o tempo presente oferece-nos imensas oportunidades. Confrontados com um planeta que tem sido explorado para lá dos seus limites de rejuvenescimento, com recursos cada vez mais limitados e que precisam de ser partilhados para que possam chegar a todos e não apenas a alguns. Assolados por uma pandemia absolutamente inesperada seguida de uma guerra que nos toca de perto, somos apanhados sem preparação e poderemos reconhecer que não somos tão autossuficientes quanto pensávamos, não temos capacidade de planear tudo, não temos respostas nem soluções para tudo. É por isso fundamental cooperar em objetivos que sejam comuns, partilhados e convergentes sem extremar posições, nem fomentar individualismos.
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Por todos estes motivos, o tempo presente oferece-nos, enquanto líderes empresariais, a oportunidade (forçada) de entendermos, em conjunto, que os modelos do passado precisam de ser mudados e repensados. Não se trata de ignorar o passado, mas, precisamente, de o tomar como lição procurando reconstrui-lo de forma distinta, com outro alcance. Não vivemos um tempo de trevas, mas de esperança. Não vivemos um tempo perdido, mas de enorme valor, apesar do sofrimento e da perda. As empresas e as instituições, os líderes e o mundo do trabalho terão de ser, obrigatoriamente, muito diferentes, com novas responsabilidades e desafios. Com maior impacto e justiça. Como agentes de desenvolvimento sustentável.

Foto da capa: Papa Francisco na prisão de Civitavecchia, perto de Roma, à conversa com um recluso, durante o lava-pés de quinta feira santa, 14 abril 2022. Foto Vatican Media.


João Pedro Tavares

João Pedro Tavares é católico, casado e pai de 4 filhos. Licenciado em Engenharia Civil pelo IST e pós-graduado em Gestão Financeira pela Universidade Católica Portuguesa e em Liderança e Estratégia pelo INSEAD. Tem 35 anos de experiencia em consultoria de gestão, e foi Vice-Presidente da Accenture Portugal. Trabalhou em Serviços Financeiros, Banca, Seguros e Mercado de Capitais e, mais recentemente, na consultoria de investimento, em Banca de Investimento.

É atualmente Presidente da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) e serviu em múltiplas ONG’s como a Junior Achievement Portugal, o IES – Social Business School, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Gaudium Magnum, Fundação Santander, entre outras, sendo consultor de várias organizações.

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