Guerra, Paz e Sinodalidade

É com estupefação, angustia e muita tristeza que de forma algo inesperada assistimos atos de barbárie bem no coração da Europa que nos remetem para um passado, não muito longínquo, onde a iniquidade e o mal foram tratados como coisas banais.

Nunca como no século XX tinha a humanidade sido submetida a tamanha demonstração do poder do mal, mal ético-político, incarnado em pessoas cujo objetivo era apenas o do engrandecimento próprio à custa do sofrimento alheio.

A fé vê na violência, mesmo naquela que é aparentemente mais racional, uma negação do projeto de Deus para a humanidade e, portanto, um mal que não é apenas um “mal físico”, mas sim, uma soma incalculável de sofrimento humano, um “mal espiritual”, na medida em que a interrupção brusca de muitos sonhos e projetos e as vidas aniquiladas representam o fracasso da própria humanidade.

Na sua etiologia a guerra é, sobretudo, um “mal teológico” pois constitui uma rutura do diálogo entre Deus e o Homem e, em certo sentido, um mal que atinge o próprio Deus no seu amor pela humanidade.

O projeto de Deus para a humanidade é, na verdade, um projeto de comunhão: dos homens com Deus, mas também dos homens entre si.

Mesmo no furor da violência a necessidade de paz sentida na interioridade ética do ser humano e a solidariedade objetiva que liga todos os Homens num mesmo destino e os torna responsáveis uns pelos outros, são o sinal dessa vocação para a comunhão.

Se a problemática da guerra entre nações assenta em pressupostos geoestratégicos, a decisão de a fazer é da exclusiva responsabilidade pessoal de quem detém o poder, supostamente em nome do povo. O ato de guerra, exercido coletiva ou individualmente, representa sempre um atentado à vida de terceiros, configurando indubitavelmente um “mal comum” e, como tal, um mal infinitamente mais gravoso do que os eventuais resultados aportados aos vencedores.

Por outro lado, a paz assenta sempre no ato de amor que se traduz no carácter pacífico e não violento das relações entre pessoas e que exprime uma das necessidades e aspirações primárias de todos os povos. Sintetizou bem esta ideia João Paulo II num discurso aos elementos do corpo diplomático acreditado na Santa Sé em 2003:

a guerra nunca é uma fatalidade e é sempre uma derrota da humanidade. O direito internacional, o diálogo leal, a solidariedade entre Estados, o tão nobre exercício da diplomacia, são os meios dignos do Homem e das nações.

De facto, a negatividade da guerra produz não só sofrimento, perda de vidas e de bens, mas também deixa um rasto de ódio, de desconfiança recíproca e de insegurança coletiva. A guerra, que sempre foi um “mal comum”, tornou-se cada vez mais absurda e intolerável com o aumento da eficácia destruidora das armas e dos custos humanos e económicos que impõe a toda a comunidade internacional, independentemente dos povos diretamente envolvidos no conflito.

Centro Escolar de São Teotónio que integra estudantes com 32 nacionalidades, distingue-se pela integração de alunos migrantes. Odemira, 9 de março de 2022. NUNO VEIGA/LUSA
Centro Escolar de São Teotónio que integra estudantes com 32 nacionalidades, distingue-se pela integração de alunos migrantes. Odemira, 9 de março de 2022. NUNO VEIGA/LUSA

Mas, o que tem a ver a guerra e a paz com a sinodalidade? Tenho para mim que a prática da sinodalidade no mundo, à semelhaça da sinodalidade na Igreja, pode ser comparada ao caminhar da família humana, o que pressupõe um clima de diálogo que permita que as relações se desenvolvam num clima de confiança recíproca.

Se queremos que o século XXI, não seja novamente um tempo desumano de grandes destruições devemos envidar esforços para evitar opções que recorram ao uso da violência para dirimir diferentes interesses e educar para o respeito e amor pelo outro.

Só assim será possível edificar a polis onde o bem de cada um é alcançado através do bem de todos.

A opção pela guerra é um jogo de sorte e de azar com consequências imprevisíveis, mas sempre trágicas.

Aceitemos, por isso, o convite à reflexão que o Papa Francisco nos endossa na sua mensagem do Dia Mundial da Paz deste ano:

Quero propor, aqui, três caminhos para a construção duma paz duradoura. Primeiro, o diálogo entre as gerações, como base para a realização de projetos compartilhados. Depois, a educação, como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento. E, por fim, o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana. São três elementos imprescindíveis para tornar possível a criação dum pacto social, sem o qual se revela inconsistente todo o projeto de paz.

Foto da capa: Grupos sinodais, Paróquia de Santo António dos Olivais, Coimbra. Foto MSA março 2022.

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