Frei Domingos (1956-2021)

Ciao Domenico, ti vogliamo bene

O Frei Domingos era administrador do Mensageiro de Santo António, desde 2011, tendo-se envolvido com paixão em várias iniciativas da Associação, de que destacamos os Diálogos com António 2020, onde participou na temática “Ninguém fica para trás”, juntamente com o bispo de Pemba, Dom Luiz Fernando Lisboa, o Carlos João Diogo e a Filipa Pires Almeida, sob a moderação da Sónia Neves. Na sequência do que foi dito o Frei Domingos passou à ação, tendo inspirado e impulsionado a Campanha Cabo Delgado quer Paz.

A 26 de outubro, a irmã morte bateu à porta do nosso irmão Frei Domingos e encontrou-o preparado e pronto para a glória do céu.

O Frei Domingos tinha sido internado no CHUC (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra) a 2 de setembro por enfarte agudo do miocárdio, tendo sido submetido, de imediato, a angioplastia coronária com implantação de stents. Durante o internamento, teve ainda necessidade de implantação de um pacemaker definitivo por bradicardia severa. Após a alta hospitalar, desenvolveu um quadro de insuficiência renal aguda grave e infeção, que motivou novo internamento, que culminou com a morte em choque sético refratário ao tratamento médico.

Em toda esta caminhada de dor, esperança e desânimo, o irmão Domingos tudo aceitou com fé e com um sorriso nos lábios. Estava igualmente pronto para lutar pela cura e para aceitar a vontade de Deus e repousar no abraço do seu Papá.

A sua morte provocou uma onda de consternação e solidariedade não só na comunidade paroquial de Santo António dos Olivais, mas também na Igreja Diocesana de Coimbra e na paróquia de São Maximiliano Kolbe de Chelas, em Lisboa. A sua figura era bem conhecida e apreciada, especialmente pelos seus dons de bondade, hospitalidade, sabedoria, misericórdia e caridade.

O Bispo de Coimbra, D. Virgílio do Nascimento Antunes, quis que o funeral fosse celebrado na Sé Nova de Coimbra, para oferecer mais espaço ao grande número de pessoas previstas para a ocasião. A celebração presidida pelo bispo, teve lugar na sexta-feira, 29 de outubro, às 15h30 e foi transmitida nas redes sociais, com mais de 30 000 visualizações.

Estiveram presentes os frades da Delegação de Portugal, assim como o Frei Gilberto Depeder, Vigário Provincial (o Ministro provincial estava em visita aos frades da Delegação do Chile); bem como vários paroquianos da comunidade de Lisboa onde o frei Domingos exerceu o seu ministério ao longo de 14 anos, antes de chegar a Coimbra.

Queremos aqui deixar alguns testemunhos daqueles que tiveram a graça de tocar com a mão o nosso tão amado Frei Domingos; são ecos que nos chegam de Lisboa e de Coimbra. Muitos outros testemunhos se derramaram pelas redes sociais, mas seria impossível contê-los a todos nesta página.

Ecos de Lisboa

Uma aldeia, chamada Zona J

Era uma Vez uma “aldeia”, em plena cidade de lisboa, chamada Zona J de Chelas…
E eis que chega a este local, pelo ano de 1991, um frei de sorriso fácil, abraço terno, sentido de humor ímpar e muita bondade guardada no coração, pronta a ser distribuída por toda a população, igualitariamente…
O seu nome? Domingos, Frei porque foi essa a Missão de Vida que abraçou, que lhe foi confiada por Deus (o Papá como ele dizia).
A instituição onde se entregou pelo próximo? Centro Social Paroquial São Maximiliano Kolbe onde, ao longo de 12 anos, quem o conheceu sabe que se entregou com entusiasmo à vida pastoral e social.
“Só o amor Cria”, diz São Maximiliano Kolbe.
Sem dúvida… cria amigos … cria exemplos de vida … cria instituições
O Centro Kolbe muito deve de facto a ti frei Domingos.
Um muitíssimo obrigado, de toda uma instituição saudosa da tua presença.
Nós ganhamos mais uma estrela no céu a iluminar a nossa caminhada.
Até sempre

Lena Garcia – C.S.P. S. Maximiliano Kolbe

Falar do Frei Domingos …

Muito fácil, mas hoje com um nó na garganta! Meus olhos não param de jorrar lágrimas, minha alma sem vida, meu coração partido!

Em 9 de outubro de 1991, em Lisboa chegava o Frei Domingos, homem doce e de gargalhada fácil! Eu, e a minha família tivemos a sorte de poder acolher o novo/jovem frei… 35 anos!

Quanta sorte a minha de, em agosto 1993, estando os Freis Paulo e Franco de férias, poder contar com o abraço, o conforto no funeral do meu pai… e a história repetiu-se em 2000, com a morte da minha mãe… lá estava o frei Domingos, por mim, pela família e principalmente para as minhas crianças, que hoje recordam com nostalgia a presença do frei!

Eu era Emília, até o Frei Domingos me batizar de Mila. Hoje, todos me tratam por Mila. Obrigada pela Herança!

Durante o confinamento, que felicidade ter a oportunidade de escutar as homilias do frei Domingos!

25 de agosto de 2021, depois de um passeio com uma amiga, decidi ir à missa.
Quando cheguei, estava o Frei Fabrizio a cuidar do jardim e disse-me: hoje, não vou celebrar… quem celebra é o teu prior, toca a campainha. Quem abriu a porta? Frei Domingos, de braços abertos e foi o abraço de costume, quanta cumplicidade, ternura e bem querer.
Depois da Eucaristia, um abraço de despedida e a promessa de nos vermos antes do regresso a Itália o tão desejado ano sabático … e não chegou!

O nosso Deus de bondade, decidiu outra coisa… Como dizia o Frei Eliseu, hoje há festa no Paraíso, mas cá na terra um silêncio! 30 anos e tantos momentos e ficam tantas histórias por contar …

Beijo e abraços Mila

Mais leve, mais alegre e mais livre

30 anos de vida em Portugal, deixando grande marcas: em Lisboa e em Coimbra.

Mas tinhas chegado com grandes saudades de Roma, da paróquia de S. João Evangelista, o teu primeiro amor “de vida pastoral”.

E para que ninguém te visse, ias à beira do Oceano, a derramar lágrimas e a gritar “Porquê!?”, como São Francisco no Monte Alverne.

Mas a saudade das noitadas romanas não te impediu de mergulhar na vida das pessoas.

Contigo, Domingos, fiz o noviciado. Eu tinha 19 anos, um puto e tu, irmão mais velho, 24. Partilhávamos os sonhos daqueles anos, entusiasmados com um documento que a Igreja publicava em 1981: «a escolha preferencial dos últimos». E nós queríamos vivê-lo a sério, suspendendo o noviciado para ir no Sul de Itália, ao encontro das povoações vítimas do tremor de terra. Não foi possível, mas a chama não morreu.

Dez anos depois, em 1991, chegaste a Lisboa, na recém-criada Paróquia de São Maximiliano Kolbe, onde levaste a paixão e a loucura dos primeiros anos de sacerdócio vividos na periferia de Roma no meio de famílias ainda marcadas pela emigração, fiel ao historial da tua família. Chelas, outra periferia, ainda mais desafiadora. Não tiveste medo de te lançar, aproximar, escutar, aconselhar, chorar e rir com pequenos e grandes, brancos e pretos, ricos e pobres…

Cheguei três anos mais tarde, e novamente encontrei um irmão mais velho, muito paciente, benévolo, às vezes desordenado, mas extraordinariamente carinhoso. Com o exemplo ensinavas que para acolher bem um hóspede bastava preparar uma boa “pastasciutta”, conversar à mesa e lançar ao ar algumas anedotas.

Deixaste Lisboa com mais uma choradeira e te lançaste num desafio que não tinhas programado, mas por obediência aos teus superiores e, apesar das dificuldades iniciais, foste para frente, dando o melhor nas responsabilidades que te foram confiadas como cuidador dos frades, pastor das ovelhas de Santo António dos Olivais e capelas limítrofes, e colaborador na pastoral diocesana e ecuménica de Coimbra.

Depois de 30 anos, sentias que precisavas de revitalizar o teu organismo a nível físico, psicológico e espiritual e com sabedoria pediste um tempo de paragem, um tempo que costumamos chamar de “sabático”, com um programa rico e saudável, preparado, nos detalhes com os superiores. Tudo estava pronto. Até tínhamos combinado que depois do dia 26 de outubro podias voar “leve, livre e alegre” para Itália.

“Deus te trocou as voltas”, escreveu alguém. Sim, é verdade, mas não te encontrou “com a lâmpada apagada”. Nos 55 dias de enfermidade, do fatídico 2 de setembro ao 26 de outubro, preparaste-te e nos preparaste. Mais do que nós, sentias que se aproximava a hora não de um simples ano sabático, mas do oitavo dia, o dia da Páscoa, o dia da contemplação daquele rosto de Deus que é Pai, Filho e Espírito de Amor. Mais leve, mais alegre e mais livre.

Obrigado Domingos, amigo e irmão. Ficarei com o teu sorriso transbordante.

Frei Fabrizio, 27 outubro 2021

Tudo é belo

O frei Domingos chegou a Lisboa e rapidamente contagiou a pastoral juvenil. Ninguém lhe era indiferente. Uma alegria contagiante e ao mesmo tempo muito prático: “vamos construir o Reino de Deus”.

O Frei Domingos era a personalização do Amor e Alegria de Cristo. Ele amava a Igreja, até à morte, e amava todos. No coração dele todos cabiam, mesmo se por vezes o seu coração estava apertado. Tinha uma esperança e uma vida nele únicas.

Adorava partilhar a sua vida incluindo até os pequenos episódios de encontros quotidianos que o enchiam de humanidade. Adorava a vida em comunidade, mas os braços da sua comunidade não paravam nos muros do convento.

Tinha uma visão da natureza humana na perspectiva de Francisco: tudo está ligado! Tudo é belo! O Domi não quer que choremos! Quer que honremos a sua passagem na Terra e os dons que nos passou:

Ama!
Não pares de amar!
Não julgues !
Não tenhas medo!
O Amor de Deus envolve-nos a todos, não escolhe.
Ri mesmo se te apertam os lábios, ama mesmo que te apertem o coração.
Não vivas na superfície, enraíza-te na experiência da vida.
Tudo é belo ! Tudo é dom do Pai! Tudo é Amor!

Quinzé

Ti voglio bene

Obrigado Frei Domingos
Ti voglio bene. Ti voglio bene,
Obrigado.*

Francisco seguiste e me deste a conhecer
que a vida na pobreza é uma forma de viver.
Connosco viveste o grande sonho de Jesus:
construir o Seu reino de Paz e de Luz;
   viver em comunidade como os primeiros cristãos,
   partilhar a nossa vida, ser família, irmãos.
   Ser cristão no mundo de hoje é intervir na sociedade,
   da política à Igreja, ser caridade.

Obrigado Frei Domingos
Ti voglio bene. Ti voglio bene,
Obrigado.*

Agora que vais embora, que desafios irão surgir?
Com Jesus do teu lado, outras gentes seduzir?
Connosco ficarás pois uma semente em nós plantaste
Nossa vida transformaste: Somos Sal!

Jovens de S. Maximiliano Kolbe e Sta. Clara

Ecos de Coimbra

O frei Domingos tornou-se no meio de nós, um frade e um pastor que amou muito, ficou-lhe na pele o cheiro de tantas ovelhas, pessoas e instituições. Com a sua simplicidade, espírito de procura, entusiasmo contagiante, proximidade aos pequenos (crianças e idosos) e aos últimos, tornou-se um belo pastor de almas. Sim belo, redondo, luminoso, cativante, apesar dos sinais de que precisava ter mais amor pela sua saúde e pessoa.

Os grupos de Jesus

Quando conheci o frei Domingos vi uma pessoa afável com um sorriso que deixava entrever a alegria que sempre o acompanhou como pessoa e como pároco. A sua humildade, o seu poder de reconciliação e humanidade, o cuidado e o interesse pelo outro são qualidades que me foram formando nestes anos de proximidade. Muito me incentivou e apoiou no caminho que ia fazendo, na descoberta e conhecimento do Pai, “PAPÁ”, como o chamava. Foi e contínua a ser o meu apoio no seguimento dos passos de Jesus, para viver em consonância com os seus valores (e ser capaz de vivê-los na relação com os outros), uma descoberta que  vou fazendo passo a passo , no crescimento mutuo na partilha, partindo de Jesus para chegar ao amor gratuito do Pai. Assim nasceram na Paróquia os Grupos de Jesus, onde Deus vai atuando sobre cada um dos buscadores a sua ação libertadora e amorosa. Não esqueço a simplicidade, sinceridade e humildade da sua partilha no Grupo de Jesus. Quando falávamos a sós via a sua grandiosidade em simultâneo com a fragilidade do seu ser humano, inclusive no silêncio a que se remetia durante o diálogo. Para sempre o seu sorriso, característica sua, ficará gravado em mim, nas pessoas e nos lugares por onde passava (e as gargalhadas que ainda ecoam)  ficarão como exemplo da sua entrega generosa e gratuita.

Ana Maria Meneses

O meu frei

Hoje, um aluno meu, o Pedro, de 8 anos, sabendo da partida do freizito, disse quase a gritar e com grande tristeza: ‘Mas o frei Domingos é o meu frei’.
Palavras sábias!
O ‘meu’ frei, era a alegria profunda de Deus, de grande coração, onde todos tinhamos um lugar especial.
Nestes 16 anos, como pároco,  acolheu a todos, principalmente a quem estava afastado ou perdido. Sarou almas e reconfirmou-as no Amor de Cristo. Foi o verdadeiro Pastor.

Graça Pimparel

Meu mano, meu guia, meu confessor

Dissociar o frei Domingos, pároco, do frei Domingos, pessoa, não é fácil para mim, pois ele foi sempre o mesmo, em todos os momentos da sua vida. Na brincadeira, na oração, no confessionário, na preparação de um qualquer encontro, na celebração de uma Eucaristia, num jantar entre amigos…
Homem de gargalhada fácil, não soube nunca dizer “não!” Tinha sempre uma palavra de alento, de conforto. Tratava-me por “mano”…e eu a ele. Ajudou-me a descobrir o imenso Amor que o Papá tem por mim. Era meu guia e meu confessor.
Dizia sempre que a catequese de adultos lhe tinha dado uma vida nova, e deu! Foi testemunha do Amor de Deus e, através da sua vida tantos ficaram a conhecer Cristo Ressuscitado. Tal como Cristo, tornou-se servo, ao serviço da comunidade paroquial, e foi servo até ao fim.

Pedro Ivo

Catequese de adultos / catequese familiar

Evangelizador incansável, Frei Domingos, como carinhosamente é tratado, dinamizou na paróquia de Santo António dos Olivais, a partir do ano de 2014, o projeto diocesano da catequese de adultos, o qual tem subjacente a ideia de que é possível chamar para o Reino de Deus aqueles que dele estavam afastados, fosse porque eles mesmos por qualquer motivo se afastaram, fosse porque nunca antes haviam sentido o apelo da fé. Concretamente o Frei Domingos animou desde essa altura, em conjunto com outros leigos, dois grupos de catequese de adultos em Santo António dos Olivais.

Com o verdadeiro espírito de pescador de homens e a sua lucidez e capacidade de acolhimento, Frei Domingos conseguiu transformar cada encontro da catequese de adultos num espaço de aberta partilha das experiências da vida de cada um e de profunda reflexão sobre os mistérios da fé e da palavra de Deus, fazendo desses encontros uma verdadeira caminhada, a qual, referia sempre, também ele estava a fazer.

Paralelamente implementou na paróquia de Santo António dos Olivais a chamada catequese familiar, cujo objetivo primordial é conseguir que cada família seja anunciadora da Boa Nova do Cristo Ressuscitado. Para isso convidaram-se os pais dos meninos das catequeses dos primeiros anos para encontros nos quais se tenta fornecer ferramentas para que possam, eles mesmos e no seio da família e das suas dinâmicas, iniciar a educação da fé. No ano anterior Frei Domingos, em conjunto com um casal, animou o grupo da catequese familiar do primeiro ano.

Bruno Carvalho

Um homem simples e bom que chamava a Deus, Papá

O frei Domingos era um homem simples e bom. E, ao mesmo tempo, profundo. E que aproximava. A profundidade com que “lia” a Palavra tornava-a simples, próxima e sempre construtora de bondade.

O modo simples e bom como viveu o seu ministério de Pároco de Santo António dos Olivais, dinamizando toda a comunidade com iniciativas como a catequese familiar e a catequese de adultos, aproximou os afastados e os pobres. E a toda esta comunidade, da Igreja para além das fronteiras da paróquia, da Igreja una, universal e evangelizadora, mas também sempre de porta aberta e ecuménica.

O frei Domingos era um homem simples e bom que nos fez mais simples e melhores. E que nos tornou mais próximos do Pai, ensinando-nos a chamar-Lhe Papá.

Francisco Alves

Amabilidade, entrega, sabedoria e santidade…

Partiu para o seu Papá um Homem com uma amabilidade, entrega, sabedoria e santidade fora do vulgar. Poucas vezes me senti tão triste com a partida de alguém. Já sinto a enorme falta das suas palavras carinhosas e de discernimento que constantemente recordavam que por aqui temos apenas uma passagem, a verdadeira vida vem a seguir, na casa do nosso Papá. Até breve Domenico Celebrin,

Nuno Cruz

Ecos da Diocese de Coimbra

Quebrar fronteiras

Uma presença sábia e inspiradora, sobretudo, no Conselho Presbiteral. Um homem muito conhecedor dos problemas da cidade e da diocese que ama muito este território e estas pessoas e que procurava ser instrumento da graça de Deus na sua ação pastora.

A sua alegria e o seu entusiasmo, reforçados pela amizade e presença comprometida, fazem do Frei Domenico um testemunho permanente do Evangelho. Enquanto Arcipreste da Cidade quis quebrar fronteiras e construir para além dos territórios individuais. Um homem ecuménico, generoso, entusiasta e bondoso. Um irmão, um companheiro, um peregrino… da eternidade.

Pe. Nuno Santos

As palavras que tardaram a sair…

Acompanhar o Frei Domingos nesta fase de doença foi um grande desafio, mas também um tempo de graça que me permitiu conhecer em profundidade um verdadeiro Homem de Deus!

“Os desígnios do Senhor são insondáveis” – uma grande lição de humildade enquanto profissional de saúde. Não podemos tudo, não sabemos tudo, não podemos salvar todos…Mas o Frei Domingos teve o privilégio de saber, com a devida antecedência, que a partida estava próxima. Disse-me várias vezes ao longo deste percurso – quero descansar nos braços do meu Papá! Não há nada melhor!

Particularmente na última semana, viveu momentos de grande proximidade com Deus, experiências muito místicas, transcendentes… Abriu o seu coração aos mais próximos, a sua alma tornou-se ainda mais pura e límpida, nada ficou por dizer…

Leva uma grande preocupação: o clericalismo que se vive na Igreja, uma praga que o fazia sofrer e temer o pior. Fica este legado do nosso querido Frei Domingos, para padres e leigos. Que tenhamos todos a coragem de refletir e encontrar novas formas de ser Igreja.

Tinha um grande sonho: construir uma Igreja verdadeiramente sinodal, fraterna, em que caminhamos todos juntos, lado a lado, com Cristo no centro, ao encontro das periferias – os mais pobres, frágeis, excluídos da sociedade, os seus preferidos. Na cama do hospital, sonhámos juntos esta Igreja em saída, com uma fé incarnada na própria vida, transformada em serviço e entrega total ao próximo.

Uma mensagem para todos, que me repetiu até à exaustão, agora ampliada pela experiência da sua própria fragilidade e sofrimento: “TEMOS UM DEUS QUE NOS AMA INCONDICIONALMENTE, APESAR DE TODAS AS NOSSAS FRAGILIDADES, ERROS, CULPAS, DIFERENÇAS… TEMOS UM DEUS QUE NUNCA NOS DEIXA SÓS!” Isto precisa ser dito Sílvia, só isto importa! (percebi a mensagem, sabe que eu gosto de comunicar…).

Foram muitas as confidências, pedidos, promessas… Ainda me sinto esmagada por tanto que recebi, mas também, por tanto que prometi! Promover a humanização dos doentes e profissionais de saúde nos CHUC, lutar por uma Igreja sinodal, dar voz ao papel da mulher nos processos de reflexão e decisão da Igreja, olhar pelos mais frágeis… PROMETE-ME SÍLVIA!

Hoje, sinto-me terrivelmente só, incapaz de lutar. Mas ficaram gravadas, no mais fundo do meu coração, as palavras exageradas com que me descreveu. Ao ver o meu ar incrédulo, pediu-me para acreditar e nunca esquecer o que me estava a dizer. Tentarei cumprir o seu pedido… mas suplico pela sua INSPIRAÇÃO!

Até já, Frei Domingos! Bom descanso. Sílvia Monteiro

A caravana ecuménica

Foi um arauto do ecumenismo participando sempre ativamente na organização e dinamização da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, pois acreditava que é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

Do coração daquele que crê em mim, hão de nascer rios de água viva. João 7,38

Frei Domingos era o exemplo vivo deste versículo. Do seu coração transbordavam águas de sementeira, de refrigério, de alegria, de irreverência, de uma profunda espiritualidade. O riso alto e contagiante, a fé posta em ação, a entrega, o sentido de missão era um rio de testemunho que nos envolvia e nos empurrava a ir até onde o Senhor nos mandasse.

Foi neste rio transbordante de determinação e serviço, que navegou o movimento ecuménico da zona centro, liderado pelo frei Domingos, desde 2005. Nas frias noites de janeiro, inventou a caravana ecuménica, desafiando católicos e protestante a estarem presentes todas as noites nas celebrações da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Nas reuniões de preparação e nas celebrações, éramos filhos de Deus com diferentes sensibilidades unidos no mesmo coração. O Movimento Ecuménico da Região Centro tem uma dívida de imensa gratidão pelo exemplo deste nosso querido, tão querido irmão.

“Sabemos que há tempo para todo o propósito debaixo do céu… que há tempo de nascer e que há tempo de morrer”. Mas este golpe cortou a nossa alma e sentimo-nos órfãos. Verdadeiros filhos de Deus, entram na nossa vida e por privilégio imensurável mudam a nossa trajetória, ficam no nosso coração, fazem a diferença, marcam a nossa vida e jamais serão esquecidos.

Que privilégio, que bênção, que lágrimas de alegria estão hoje nas nossas vidas porque conhecemos o nosso frei Domingos. Paz e bem, para sempre estarão escritos nos nossos corações.

Maria Eduarda Titosse, Pastora da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal

O Frei Domingos tinha um coração profundamente ecuménico. Tendo chegado a Coimbra, à paróquia de Santo António dos Olivais, em setembro de 2005, foi com todo o entusiasmo que logo abraçou esta dimensão do diálogo com os irmãos na fé cristã presentes na região centro, ortodoxos do Patriarcado ecuménico de Constantinopla e protestantes, designadamente, da Igreja Presbiteriana, bem como do Centro Cristão de Vida Abundante.

De encontros quase unicamente dirigidos à preparação da celebração anual na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC), de 18 a 25 de janeiro de cada ano, com ele se passou à realização de vários durante o ano, algumas vezes com periodicidade quase mensal. Eram normalmente iniciados com uma refeição comum, em que, com todo o à vontade, se partilhavam, além dos alimentos, orações, experiências, ideias, interpretações, projetos. Deles resultaram alguns retiros em comum, a participação em momentos celebrativos de uns e de outros, a preparação e o alargamento das celebrações da SOUC a, pelo menos, cinco dias. Assim se percorreram “em caravana” igrejas da região centro, de uma e outra confissão, de Coimbra aos concelhos da Figueira da Foz, Montemor-o-Velho, Cantanhede e Mira, elegendo em cada ano uma causa ou instituição a favor da qual revertiam as ofertas recolhidas nas celebrações. Com que alegria e criatividade o Frei participava na sua preparação, fazia de mestre de cerimónias nas celebrações e, por vezes, cumulava essas funções com homilias inspiradas!

E foi assim que se foi consolidando cada vez mais o “ecumenismo da vida”, antes iniciado com o Frei Eliseu. E nem a pandemia cortou este diálogo. Com alguma criatividade, conseguimos realizar, com transmissão pelas redes sociais, uma belíssima e vastíssima celebração, de âmbito nacional, da SOUC 2021, da qual o Frei Domingos foi um dos grandes impulsionadores. E, visto que os vários confinamentos e restrições não permitiam os habituais “jantares cristãos”, foi virtualmente que, com a sua participação, realizámos alguns neste período. Ficou por concretizar o que tínhamos agendado, já presencialmente, para 26 de setembro…

Para o Frei Domingos a motivação e o objetivo do diálogo ecuménico consistiam em fazer de Jesus Cristo, no seu desejo profundo de comunhão, o centro da vida de todos os cristãos, de modo a que Deus conceda o dom da unidade pela qual Cristo orou e que só Ele pode dar. Por isto entregou a sua vida e agora temos, no céu, um irmão a interceder, na comunhão dos santos, por todos nós.

Graça Ferrão

Ciao Domenico, até já….

Frei Domingos acreditava que na Igreja há espaço para todos os buscadores, que Deus é misericórdia, não faz acepção de pessoas e a todos ama incondicionalmente. Todos os que se cruzaram com ele receberam uma graça e uma herança.

Agora é a nossa vez.

Nota Biográfica

Frei Domingos (Domenico Emilio Celebrin) nasceu a 4 de março de 1956, em Sabaudia, no Centro-Sul de Itália, a meio caminho entre Roma e Nápoles.

Frei Domingos Celebrin

Aos 17 anos alistou-se, como voluntário, no exército Italiano. Depois de três anos abandonou os sonhos de carreira militar e poucos meses depois, a 25 de Setembro de 1977, entrou no Seminário dos Franciscanos Conventuais, em Pádua, onde fez os estudos teológicos e filosóficos, tendo, depois, feito Teologia Pastoral, no Instituto Pontifício Lateranense, em Roma.

Fez a profissão dos votos temporários como franciscano conventual em Pádua, na Basílica de Santo António, a 12 de Setembro de 1981 e os votos perpétuos como frade, em Roma, a 19 de novembro de 1985, na paróquia de São Marcos Evangelista.

Foi ordenado presbítero, a 20 de setembro de 1986, em Borgo Vodice, na praça da aldeia, sob uma palmeira, por ser demasiado pequena a igreja para conter todos os habitantes do lugar e os amigos de Roma.

Viveu os seus primeiros 7 anos de ministério pastoral numa paróquia das periferias de Roma, São Marcos Evangelista, em Agro Laurentino.

Tendo manifestado o desejo de ir como missionário para o Chile, os seus superiores acharam mais oportuno enviá-lo para Portugal, para um dos bairros da periferia de Lisboa: Chelas, (famosa pela zona J, o bairro do Relógio, o bairro do Camboja…).

Chegou a Lisboa, a 19 de setembro de 1991, onde ficou 14 anos, até setembro de 2005, na paróquia de São Maximiliano Kolbe, tendo sido vigário paroquial e membro do Conselho Presbiteral do Patriarcado, entregando-se com entusiasmo à vida pastoral e social.

A 25 de Setembro de 2005, veio para Coimbra, onde foi guardião do convento durante 12 anos e pároco em Santo António dos Olivais durante 16 anos, até 2 de outubro de 2021, altura em que passou o testemunho ao Frei Fabrizio Bordin. Com dedicação total deu a sua vida à paróquia e à diocese, tendo sido arcipreste do Arciprestado de Coimbra Urbana, membro do Conselho Presbiteral Diocesano, membro do Secretariado Diocesano da Coordenação Pastoral e grande impulsionador do movimento ecuménico na diocese.

Faleceu em Coimbra, ao fim da tarde de 26 de outubro de 2021.

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