Escutar com o ‘ouvido’ do coração

“A linguagem da Igreja é complicada”. Muitas vezes ouvimos e pensámos nisto. Na memória dos mais velhos, ainda há a lembrança de quando antigamente as missas eram em latim. Há lá algo mais complicado para a comunicação do que não entender a língua em que nos falam?

Desde o Concílio Vaticano II que as missas são celebradas nas línguas dos povos, mas esse facto não descomplicou toda a linguagem. Hoje, muitos fiéis, sobretudo os mais jovens, mas não apenas eles, utilizam com hesitação a pessoa verbal do vós, conjugando verbos estranhos ao quotidiano numa segunda pessoa do plural que desapareceu do português-padrão.

Os nossos irmãos espanhóis rezam ao Padre nuestro que estás en el cielo, enquanto a maioria de nós trata Deus como um ser (aparentemente) distante (no tempo e na relação) a quem nos dirigimos formalmente. E não, não é verdade que os espanhóis tratem toda a gente por tu, como às vezes se diz. E não, não é que seja mesmo típico dos espanhóis. Os italianos também falam com Deus usando o tu e − espanto! − até os alemães o fazem.

Será interessante voltarmos a esta questão até porque sabemos que a Conferência Episcopal Portuguesa votou por maioria a adoção do tu na relação com Deus e que a tradução da Bíblia (1.º volume com os Evangelhos e os Salmos, 2019) com a sua chancela já contempla esta opção.

A linguagem é fundamental no acesso ao conhecimento, à informação, ao outro. Enfim, no acesso ao encontro. Conhecer as palavras e o seu significado, assumir a linguagem religiosa como própria, saber exprimir-se e entender o que está a ser dito.

Neste Especial da revista Mensageiro de Santo António falamos de Sínodo, mais exatamente do Sínodo dos Bispos da Igreja Católica. Alguns dos nossos leitores já ouviram falar do Sínodo, outros já estarão até envolvidos em grupos sobre o Sínodo, mas também haverá quem não conheça o processo, nem entenda bem a palavra. Queremos ajudar a que todos saibamos do que falamos. Porque às vezes a linguagem da Igreja é realmente complicada. Como a traduzir dos clérigos para o povo?

Não se trata, evidentemente, de uma tradução entre línguas estrangeiras, mas é antes uma tradução entre realidades às vezes estranhas: a da Igreja e a das pessoas.

Nem sempre foi assim

O “antigamente” de que falo no primeiro parágrafo é um “recentemente” na história do cristianismo. Se regressarmos às origens, ao espaço-tempo-protagonistas de há dois mil anos, encontramos Jesus de Nazaré que sabe falar com quem está com ele, mas principalmente sabe escutar e entende a linguagem de quem se dirige a ele; entende porque conhece e ama.

Na homilia para a abertura do Sínodo, de domingo, 10 de outubro de 2021, o Papa Francisco escreve sobre três verbos fundamentais para o caminho sinodal que se inicia: encontrar, escutar, discernir. A partir do encontro relatado no Evangelho de Marcos (Mc 10, 17), conhecido como o episódio do homem rico, o Papa recorda justamente como Jesus “primeiro encontra o homem rico, depois escuta as suas perguntas e, por fim, ajuda-o a discernir o que fazer para ter a vida eterna”. Com tempo e atenção.

O Papa avisa que o caminho que agora se inicia não pode ser o de “organização de eventos” ou de “reflexão teórica sobre os problemas”. Trata-se de olhar o rosto do outro e parar para escutar a sua história.

É este o convite e é este o exemplo: seguir Jesus

Como há dois milénios, ninguém o segue sozinho. Este foi e tem sido sempre um caminho conjunto, pelo menos um percurso lado a lado. O desafio atual é, porém, um pouco mais exigente: é o de que ultrapassemos algumas distâncias e algumas distrações e nos concentremos em escutar com “o ouvido do nosso coração”.

A chave está na linguagem: naquela a que chamamos verbal e na linguagem apaixonada do coração. Saibamos escutar e falar, saibamos perguntar e caminhar em conjunto. Descompliquemos a linguagem da Igreja. Ela é porventura tão simples como aquela canção de infância cujo refrão cito de cor:

Amar como Jesus amou
sonhar como Jesus sonhou
pensar como Jesus pensou
viver como Jesus viveu
sentir o que Jesus sentia
sorrir como Jesus sorria.

Talvez sínodo seja apenas uma palavra nova para retomarmos o caminho de sempre.

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