Diálogo com Nicola Vegro

Com vista ao lançamento da versão portuguesa do romance histórico António Secreto, o Mensageiro de Santo António (Frei Severino e Secundino) organizou um Diálogo com o autor (Nicola Vegro), a tradutora (Maria da Graça Ferrão), a Paulinas Editora (irmã Eliete Duarte e irmã Rina) e o Museu de Lisboa – Santo António (Pedro Teotónio Pereira).

Frei Severino: Sei que antes do livro existiu um guião para fazer um filme histórico sobre Santo António. Como é que desse guião resultou este romance histórico sobre Santo António?

Nicola Vegro: Quando saiu a primeira tradução em italiano dos Sermões de Santo António, um livro de 1200 páginas e de não fácil leitura, o acaso quis que eu pegasse no livro, quando estava na biblioteca da Basílica de Santo António, e deparei com uma página que me deixou atordoado.
Vi uma modernidade de pensamento naquelas palavras, uma atualidade nos problemas tratados. Então, comprei o livro, fui para casa, comecei a lê-lo e a estudá-lo e apercebi-me que tudo aquilo que tinha escrito até àquele momento no guião que estava a escrever sobre a figura de Santo António, era para ser atirado para o lixo. Porquê?
Porque o Santo apareceu-me de uma forma muito diferente daquela que, até então, a devoção sempre o tinha pintado; descobri uma nova faceta, além da devoção baseada sobre o aspeto milagroso, descobri um Santo que se envolveu num compromisso social, num trabalho social. Foi algo que me fascinou.
Desta forma recomecei a fazer o guião do filme, encorajado pelo Realizador Ermanno Olmi, um roteiro bastante empenhativo, mas sempre muito próximo e muito respeitoso dos escritos do Santo.
Quando fui à RAI (Rádio Televisão Italiana), disseram-me que ou cortava algumas passagens ou o filme não iria sair. Mas eram palavras do Santo, que eu não tinha acrescentado nem modificado. Eram palavras contra a usura e contra o lucro dos bancos: um assunto muito delicado. E, provavelmente, iria levantar acusações contra a igreja que tinha de mudar muita coisa.
Nessa altura, a nossa igreja era diferente, talvez a nossa sensibilidade fosse diferente, a sensibilidade da RAI era diferente e eu não avancei com o filme. Porquê? Porque não queria trair o que tinha descoberto nas palavras do Santo.
Por isso, o roteiro ficou numa gaveta durante 25 anos. Para mim, cada 13 de junho, festa do Santo, era uma dor de coração, porque vivia aquele dia não com alegria, mas com frustração por algo que eu teria gostado de fazer.
Por isso, ao refletir sobre a minha vida e calculando em centímetros a duração da minha vida, retirando a parte já vivida e aquela que excede a vida média, digamos 80 anos, disse: a margem que sobra fica cada vez mais pequena. Por isso, se não avançar já com este livro, nunca mais o farei.
Então, fui bater à porta do Mensageiro de Santo António, em Itália, e apresentei o meu projeto.
Fui bem recebido, conheci o Alberto Vela, que me apoiou e assim nasceu este livro.

Frei Severino: Foi António que o fez crescer na paciência, para lhe fazer experimentar a mesma angústia que o Santo experimentou ao longo da sua vida ao ver uma sociedade, uma igreja, muito envolvidas em interesses de parte…
Gostaria de perguntar à Graça Ferrão se também ela sentiu, ao traduzir o livro, esta mesma paixão que animou a vida de Santo António.

Graça Ferrão: Sempre me fascinou a pessoa de Santo António e sobretudo desde que, há cerca de 45 anos, vim viver para a paróquia de Santo António dos Olivais, onde estavam os frades menores conventuais de que o frei Severino faz parte e que é um bom amigo.
Ao aproximar-me deles, fiquei a conhecer melhor a figura de Santo António.
Aliás, no outro dia, ao mexer nos meus livros encontrei um de Vergilio Gamboso, de que fiz algumas traduções, há já bastantes anos, que já nem me lembrava.

Em Santa Cruz, o tilintar da sineta anunciava o encerramento do capítulo. Excerto do Livro António Secreto.

Nicola Vegro: Quando há muitos anos comecei o primeiro rascunho do guião, fui conhecer o Padre Virgílio Gamboso.
Ele sempre me recomendava: “Põe de lado os milagres e pensa no homem!”. No início não conseguia entender o que ele queria dizer. E aqui talvez o Frei Severino tenha razão em dizer que o tempo também funcionou para eu entender melhor.

Frei Severino: Nós entendemos bem esta expressão “pensa no homem”, porque a ouvimos quando Paulo VI veio visitar Fátima, em Portugal.
O seu grito nessa ocasião foi esse mesmo: “Homens, sede homens!”, por isso quem cultiva a humanidade profunda está próximo de Deus, porque Deus é profundamente humano.
Gostaria, agora, de perguntar à Irmã Eliete: qual foi a sua reação quando recebeu a proposta de editar a tradução do romance de Nicola?

Irmã Eliete Duarte: Foi um momento de muita alegria, por aquilo que Santo António representa. Santo António de Lisboa, com todo o respeito por Pádua, é um Santo que nos enche a alma sobretudo pela sua humanidade, pela sua capacidade de se relacionar com os pobres e com o povo. Nós queríamos, já há muito, publicar um livro sobre Santo António. Quando nos apareceu este livro pensámos logo que seria uma obra que não devíamos deixar de publicar, porque é um livro que se dirige a todas as pessoas particularmente àqueles que não estão muito dentro da igreja.

Frei Severino: O que espera, então, da publicação deste romance?

Irmã Eliete Duarte: O que esperamos com a publicação deste romance é poder atingir o maior número de pessoas: aqueles que estão dentro da igreja, mas também os que estão fora, porque com este livro nós entramos em todas as livrarias. Nós temos uma boa distribuição junto da Bertrand, da FNAC, El Corte Inglês, Almedina: as livrarias mais laicas. Achamos que com este livro podemos atingir um público realmente muito vasto e muito diversificado.

Frei Severino: Muito bem. Um livro para todos.
Agora gostaria de pedir ao anfitrião da casa, o Pedro Teotónio que irá acolher-nos na altura da apresentação do livro, no dia 11 de junho: o que é que está à espera desta apresentação e deste livro em particular, porque eu sei que nestes dias foram lançados vários livros sobre Santo António, sobre a sua figura. Este livro, é mais um ou tem alguma particularidade?

Pedro Teotónio: Este livro está a ser aguardado com muita expectativa, com muita curiosidade. Realmente têm sido editados vários livros sobre Santo António, mas é um pouco a biografia oficial, muito centrada nos milagres, é uma história já muito conhecida mesmo que seja pela rama.
Eu acho que este livro vai dar uma visão mais humana de Santo António, a vivência dele, a vida dele e a importância que ele teve no seu tempo e que chegou até nós. É importante tentar perceber como a vida dele e como a atitude dele contribuiu para a evolução da ordem franciscana. E depois como foi importante para a cidade de Pádua e para os paduanos que o adoram. Eu acho que este livro pode explicar aos portugueses porque é que Pádua gosta tanto de Santo António, não só por ter lá o corpo dele, com certeza, mas porque defendeu muito os paduanos numa época muito complicada para a cidade de Pádua. É, portanto, com muita expectativa que esperamos este livro.

Frei Severino: Gostaria de voltar ao Nicola e satisfazer uma curiosidade. O livro já foi traduzido para outras línguas? E que espera, com esta tradução, do público português?

Nicola Vegro: O português é a primeira tradução, que espero seja a primeira de muitas. Além da satisfação pessoal, eu gostaria de constatar como a sociedade, nestes últimos 25 anos, mudou. Antes, não tive sucesso e agora, pelo contrário, tenho uma boa recepção.
Cada 13 de junho para mim era triste, mas no ano passado o dia 13 de junho foi o primeiro que vivi com um grande sorriso e com uma grande surpresa. Começou a tocar o telefone e comecei a receber mensagens que me diziam que na basílica de Santo António “estão a falar de ti”. Pensei que fosse uma piada, porque eu não estava na igreja. Mas, depois, recebi uma outra mensagem de uma amiga que certamente não iria brincar comigo e comecei a acreditar na notícia.
O que é que tinha acontecido? O ministro provincial dos Franciscanos, padre Roberto Brandinelli, tinha lido algumas páginas do livro, precisamente durante a Missa mais solene do dia. Para mim foi a prova da boa recepção do livro, e que a mensagem de António, como o padre Roberto Brandinelli sublinhou, era de grande importância e atualidade.
Ora bem, o que eu espero do vosso esforço é esta abertura para um novo mundo… e recordo sempre a emoção que tive naquela noite ao saber que o livro estava a ser traduzido na língua portuguesa. Era como se ouvisse António falar na sua língua original. Foi uma grande emoção, motivada não apenas pela língua, mas também pelo significado original: a internacionalidade de António que volta a falar ao mundo.
António, de Portugal foi para Espanha, depois para Marrocos, veio para Itália, passou três anos em França: eis aqui a internacionalidade, precisamente “Inter nações”, algo que neste momento, creio eu, precisamos muito. “Inter nações”, isto é, uma conjunção entre os povos, entre as pessoas, entre os Estados. Eis, portanto, um farol a seguir, que é o exemplo de António na sua simplicidade, na sua honestidade e no seu compromisso social. Há uma parte do meu livro que gostaria de enfatizar, quando António, em França, recebe o mandato para falar da unidade da Europa, porque “está nas tuas mãos”. Agora, mais uma vez, “a unidade da Europa está nas nossas mãos”.
Precisamos redescobrir os nossos valores europeus. Temos o Euro, que nos permite de uma forma fácil viajar para todo o lado, mas, mesmo antes do Euro, já nos tempos de António, tínhamos algo que nos unia: o pensamento.
O pensamento europeu que sustenta toda a nossa civilização e nos faz sentir que habitamos na mesma casa, nos faz sentir irmãos, nos faz sentir sempre em casa, em qualquer parte da Europa. Devemos lembrar-nos disto. Acho que António nos lembra isto.

Sem papas na língua: contra a usura. Excerto do Livro António Secreto.

Frei Severino: No domingo passado, foi canonizado Carlos de Foucauld, uma figura que considero muito unida ao “carisma franciscano”. O desejo de ser verdadeiramente homem evangélico, que foi uma característica de Francisco e de António, foi vivido, no século passado, por Carlos de Foucauld.
E pergunto-me se a atualidade de António se aplica aos dias de hoje, ou é apenas uma coisa bonita, mas que permanece nas prateleiras dos livros?

Nicola Vegro: Vale absolutamente para hoje. É por esta razão que sinto a necessidade de falar com as pessoas, de chamar a atenção que este livro é para todos. Espero que não fique na prateleira dos livros religiosos, mas na dos livros históricos, que são mais próximos das pessoas, que assustam menos.
Tenho notado que nas reuniões de apresentação que faço há um grande ausente: não há jovens e creio que a culpa não é deles.
No que diz respeito aos santos, por exemplo, sempre foram pintados, falados, construídos, colocados numa posição tão elevada em relação ao mundo que quase foram afastados do mundo e o mundo mantém-nos fora da sua vida.
Se os jovens soubessem quanto “rock” há na santidade! Eu recordo uma frase que alguém dizia aos jovens: “A vida é uma aventura, arrisca-a”. Quem disse esta frase? Bon Jovi, Elton John, o teu cantor preferido? Não, foi madre Teresa de Calcutá. Que desejo revolucionário há nestas palavras, quanto desejo de arriscar, não simplesmente para viver sem travões, mas para viver como António viveu.
Ele deixou tudo, deixou todas as garantias da família. Ele, que era um homem culto e com uma carreira aberta à sua frente, deixou tudo.

Frei Severino: Sim, deixou tudo, mas para abraçar uma novidade, que ainda hoje nos diz algo de importante.
Irmã Eliete, qual é a prateleira onde vai querer colocar o livro de Nicola e vai convidar os jovens a participar na próxima apresentação?

Irmã Eliete Duarte: Gostaríamos de pôr o livro nas prateleiras de todas as famílias, onde se possa descobrir de verdade quem é, quem foi este homem e a atualidade que tem para os dias de hoje.
Ouvindo agora o autor, percebi melhor o problema que a Europa vive neste momento; não é muito diferente daquele do seu tempo; portanto este livro, hoje, vem dar uma resposta a todos e uma resposta muito pertinente que devemos agarrar com todas as mãos para poder construir uma Europa mais solidária, uma Europa de paz e sobretudo uma Europa onde todos e cada um tenha o seu lugar.
Pedro Teotónio: É um desafio lançar este livro nesta altura exatamente, porque chama a atenção para este lado de Santo António ligado à sua humanidade.
Acho que é interessante também esta ligação aos jovens, pois que estamos a preparar as Jornadas Mundiais da Juventude que vão decorrer para o ano aqui na cidade de Lisboa e vai ser um momento interessante porque no fundo é um novo olhar para os jovens, para saírem da sua zona de conforto. Eu acho que é um desafio para todos os jovens, é um livro que pode ter interesse para a Juventude, pois apresenta um novo olhar sobre Santo António.

Nicola Vegro: Acredito que este livro nos pode ajudar a renovar a missão que esteve nas intenções de António e que consiste em deixar o mosteiro e ir para as ruas, ir para as praças, ir no meio do povo.
E conto uma história relacionada com os jovens: na capela onde está o corpo de Santo António, há 9 baixos-relevos de mármore que retratam os milagres de Santo António. No primeiro à esquerda, os frades costumam explicar: estes baixos-relevos falam de milagres, exceto o primeiro, que diz respeito à tomada do hábito, isto é, ao momento em que Fernando mudou de vida e vestiu o saio franciscano e assumiu o nome de António.
Eu, que observava, permiti-me dizer: irmão, também este é um milagre, o milagre da rebelião.
Os frades olharam para mim de forma estranha. E eu continuei: Digo isto porque a primeira coisa, o primeiro milagre que Santo António fez foi a rebelião contra um ambiente que ele não achava certo, de que ele não gostava, que era diferente daquele que tinha no seu coração com o desejo do bem e teve a coragem de mudar, de deixar tudo, de vestir os trapos de um saio pobre e partir para ir pelo mundo por um ideal que tinha no coração. É isto, precisamente, que todos os jovens devem fazer.

Frei Severino: Estou muito sensibilizado com este detalhe, porque a tomada de hábito de António teve lugar na nossa igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra, e eu vesti a veste franciscana exatamente na Basílica de Santo António em Pádua, em 1962 e, em 1963, fiz a minha primeira profissão religiosa. A tela da tomada de hábito de Santo António, na sacristia da igreja de Santo António dos Olivais, é muito bonita: é uma pintura do pintor italiano Pasquale Parente.
Ficaremos muito felizes se o senhor Nicola puder vir a Coimbra visitar esta obra de arte.
Espero que esta iniciativa possa realmente dar frutos e possa ser um estímulo de esperança e confiança para todas as pessoas que irão conhecer melhor Santo António, após a leitura deste livro. Passo, agora, a palavra ao Secundino, diretor adjunto do Mensageiro de Santo António.

Secundino: A primeira vez que li o livro, em italiano, senti logo este desejo: será que ninguém traduzirá isto para português? Porque é um livro fantástico.
Espero, sinceramente, que este livro possa ser um pequeno contributo para aquelas mudanças que urge dinamizar neste tempo em que vivemos, nesta sociedade que bem precisa de jovens como Santo António, que tragam rasgo e que projetem uma visão europeia, mas com futuro.
Agradeço ao Nicola Vegro pelo testemunho que aqui nos deixou; muito mais do que os milagres, o grande milagre de Santo António foi ter contribuído para nos darmos conta desta dimensão Europeia. Penso que foi aí que a Europa começou a ser construída e nós portugueses devemos isso a Santo António. Estamos aqui na ponta da Europa, mas desta ponta da Europa saiu Santo António para o centro da Europa, para começar uma revolução que é necessário, hoje, recomeçar e refazer, porque a Europa neste momento está adormecida, precisa de um grande abanão.
Oxalá estas crises que agora vivemos possam dar uma ajuda para este abanão, porque se não aparecerem jovens como António que nos mostrem para onde pode ir o futuro, eu sinto alguma preocupação em relação ao futuro da Europa.

Frei Severino: Muito bem! Não sei se alguém quer dizer mais alguma coisa, senão daríamos por concluído o diálogo.

Irmã Rina: Venho da terra onde António pôs os pés na Itália pela primeira vez, Milazzo. Eu sou de Messina e conhecem certamente a devoção a Santo António que existe em Messina. O meu testemunho é este: eu conheci primeiro Santo António e só depois Jesus Cristo!
Os três primeiros que me ensinaram foram a minha avó, a minha tia e o meu avô: “Santo António a minha coroa abençoada que levo na cabeça, eu não sei se é de lã ou não é”. Em Messina há uma grande devoção por Santo António e no dia de Santo António há um mundo de gente e eu pensei nos jovens, pois a festa é muito participada pelos jovens.
Depois tive o dom, naquela igreja, de tomar a decisão de me tornar Irmã Paulina; era ali que ia confessar-me, ali conheci Jesus. Este é o meu testemunho.

Irmã Eliete Duarte: Queria agradecer e dizer a grande alegria que experimento neste momento, por podermos publicar António Secreto graças a todas estas parcerias, o que é uma coisa muito bonita na igreja e na sociedade. Sozinhas, não teríamos conseguido, mas com toda a vossa colaboração e agora também com o empenho na difusão, penso que poderemos todos juntos chegar mais longe, por isso o meu sincero obrigada e a minha grande gratidão por este acontecimento.
Estamos, por assim dizer, numa caminhada sinodal.
Uma última palavra de parabéns à tradutora que realmente nos oferece uma versão maravilhosa.

Santo António, em Santa Cruz, dá esmola aos frades franciscanos. Pintura a óleo sobre tela do sec. XVI-XVII. Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, Évora, na exposição De Fernão se fez António, no Jubileu dos 800 anos da vocação franciscana de Santo António. Foto MSA.
Santo António, em Santa Cruz, dá esmola aos frades franciscanos. Pintura a óleo sobre tela do sec. XVI-XVII. Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, Évora, na exposição De Fernão se fez António, no Jubileu dos 800 anos da vocação franciscana de Santo António. Foto MSA.

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