Desenvolvimento Sustentável – Desafio ou Responsabilidade?

Filipa Pires de Almeida


Três visões diferentes e complementares sobre a temática do Desenvolvimento Sustentável:

O lugar do Humano no Desenvolvimento Sustentável: A visão da Teologia João Manuel Duque, teólogo e professor de Teologia na Universidade Católica portuguesa;

Liderar é Servir: Uma Nobre VocaçãoJoão Pedro Tavares, Presidente da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores);

Uma Oportunidade de Liderança ao nível Paroquial?Ricardo Zózimo, Professor Auxiliar de Gestão na Nova SBE.

O Especial de Maio da revista Mensageiro de Santo António reúne a contribuição de três autores muito distintos que nos trazem visões diferentes e complementares sobre a temática do Desenvolvimento Sustentável.

João Duque, teólogo e professor de Teologia na Universidade Católica portuguesa, alerta-nos, com uma visão curiosa, para a passagem do antropocentrismo ao pós-humanismo. Coloca-nos assim perante a grande questão do Desenvolvimento Sustentável: qual o papel do Homem e qual a sua responsabilidade?

João Pedro Tavares traz-nos a perspectiva do líder empresarial e do seu papel no Desenvolvimento Sustentável. Chama-nos a atenção para a necessidade premente de uma mudança da mentalidade empresarial, que deve ir além do lucro, para que a gestão seja responsável e seja “cuidado” de todos os envolvidos na comunidade empresarial. Só assim, poderemos, todos, ser agentes de mudança.

Por fim, Ricardo Zózimo desafia-nos a olhar com olhar crítico sobre a organização da Igreja Local e como esta, através dos seus membros afeta (ou não) o desenvolvimento integral do Homem e, por consequência, da Casa Comum.

Esta pequena introdução ou prólogo, cabe-me a mim que, como organizadora, procurarei, de forma sucinta, dar uma visão agregadora deste conceito de Desenvolvimento Sustentável, sua evolução e seus desafios para nós, para a Igreja e para o Mundo.

O conceito de Desenvolvimento Sustentável é recente, se o olharmos no espectro temporal que abarca a vivência do Homem sobre a Terra. Num planeta com cerca de 4,5 billiões de anos, o homem moderno habita nele há cerca de 200 mil anos. No entanto, e após centenas de milhares de anos de vida humana moderna, apenas em 1972 se começou a falar de forma séria sobre o tema do Desenvolvimento Sustentável, com o lançamento da obra: Os limites do crescimento, da autoria de Donella and Dennis Meadows, Jørgen Randers e William Behrens. Os autores alertam para o crescimento da industrialização, desde 1850, o que nos levaria a uma destruição do planeta, através da hiper-industrialização e poluição. Os mesmos autores disseram, em 1972, que havia a possibilidade de uma reversão da História, substituindo o crescimento exponencial por um “desenvolvimento equilibrado”, respeitando os limites do planeta, num período de 50 a 100 anos, desde essa mesma data.

É nesta mesma altura que é lançado o Clube de Roma e que a ONU organiza a grande Conferência de Estocolmo, de 5 a 16 de junho de 1972, com o objetivo de promover o equilíbrio entre desenvolvimento económico e redução da degradação ambiental. Assistíamos ao início da discussão dos temas do Desenvolvimento Sustentável.

Passados exatamente 50 anos, estamos em 2022 e em plena Década da Ação (proclamada pela Organização das Nações Unidas). Esta Década da Ação alerta-nos para a emergência da nossa ação até 2030. Se nada for feito nos próximos 8 anos, até 2030, e se até 2050 não conseguirmos respeitar o limite do aquecimento global, mantendo-o abaixo dos dois graus da era pré-industrial, acordados em Paris, em 2015, atingiremos limites não controláveis que poderão tornar a vida sobre a Terra impossível para muitas espécies, incluindo a espécie humana. Perante este cenário o desafio é real. E como nos questionará, mais à frente, João Duque, qual será o papel e a responsabilidade do Homem neste contexto?

Em 1987, há 34 anos, é pela primeira vez apresentado, no Relatório Bruntdland, o conceito de Desenvolvimento Sustentável como “o desenvolvimento que permite satisfazer as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades”. Este conceito, muito simples e compreensível, pode hoje ser colocado como o grande guia de decisão dos líderes mundiais e empresariais.

Se assim o fosse, como nos indica João Pedro Tavares, todas as partes interessadas seriam equacionadas na tomada de decisão e o mundo dos negócios não seria fonte de destruição, mas sim, de criação de valor. Este guia na tomada de decisão existe na verdade e é bastante específico. Em 2015, além do Acordo de Paris, houve outro grande marco na História da Humanidade. Foi lançada a Agenda do Desenvolvimento Sustentável, composta por 17 objetivos, 169 metas e 232 indicadores: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. São a Agenda Comum da Humanidade, a única linguagem universal capaz de nos levar a um caminho de prosperidade partilhada e o único acordo de metas universais subscritas pelos 193 Estados-membros das Nações Unidas, chefes de estado e representantes de empresas e indústria global.

Assim sendo, e sabendo nós que em 200 mil anos de História, não podemos deitar tudo a perder em menos de 100 anos, é-nos colocado o Grande Desafio: promover um desenvolvimento que seja equilibrado, que cuide da criação de Deus e que nos dignifique na nossa condição de “Cuidadores da Terra”. Esta é, afinal de contas, a missão primária, que nos foi confiada pelo criador.

É precisamente neste ponto, que o Papa Francisco toca quando nos chama a “Louvar a Criação” na Laudato Si e a “Cuidar do Irmão” na Fratelli Tutti. Na verdade, o papel da Igreja, como bem foca Ricardo Zózimo, não é o papel de uma instituição oca, demasiado grande ou distante para que o consideremos impessoal. A Igreja somos nós, tu e eu, e desde a nossa realidade somos chamados ao “nosso” Desenvolvimento Pessoal para assim contribuirmos para o Desenvolvimento Global Sustentável, para o qual todos somos chamados a contribuir.

Este ano, as Nações Unidas celebram os 50 anos da Conferência de Estocolmo com a organização da Grande Conferência, no mesmo local, intitulada: Stockholm + 50. Guia-se pelo mote: “Um planeta saudável para a Prosperidade de Todos! A nossa responsabilidade, a nossa Oportunidade”.

Se olharmos alguns anos para trás e colocarmos em nós o olhar da criação, o que nos pede o Senhor? “Qual a “minha” responsabilidade?”, pergunta-te!

Seja qual for a tua resposta, a Esperança perdurará sempre, pois a criação será sempre obra do Criador, não nossa:

No princípio, Deus criou o céu e a terra, a terra era um caos sem forma nem ordem. Era um mar profundo coberto de escuridão; mas sobre as águas pairava o Espírito de Deus.

Genésis, 1 e 2

Filipa Pires de Almeida

Investigadora no Centro de Liderança e Negócios Responsáveis da Católica de Lisboa, explorando como as empresas podem abraçar estratégias sustentáveis ​​para alavancar o seu próximo nível de vantagem competitiva.
Mentora de Economia Social em diferentes países, formadora em Inovação Social e leciona Educação Executiva em diferentes instituições.

Faz parte do Conselho Comunitário de uma das maiores comunidades mundiais de empreendedores sociais – Makesense.

Integra o grupo de Economistas que aconselha o Papa Francisco sobre um novo Modelo Económico, na iniciativa do Papa chamada “Economia de Francisco”.

É licenciada em Economia pela Universidade Católica do Porto e Mestre em Administração de Empresas pela Católica de Lisboa.

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