D. Hélder Câmara

A notícia passou quase despercebida:

O Instituto D. Hélder Câmara levou cerca de três anos para reunir manuscritos, livros e documentos, que foram então digitalizados. A enorme coleção de 500 kg foi transportada para Roma pela companhia aérea TAP Air Portugal, que apoia o projeto. A documentação entregue fará parte do acervo para o processo de canonização de D. Hélder.

D. Hélder é um desafio para a Igreja. Pelo que foi, pelo que fez, pelo que disse.

Passados quase 23 anos depois da sua morte (27 de agosto de 1999), que aconteceu para que este homem, pequenino em estatura, se apresente agora como alguém a ser proposto como modelo e referência de santidade? Ele, a quem chamavam o bispo vermelho, odiado de morte pelo poder vigente e acusado até por colegas no episcopado de ser alguém ao serviço do marxismo.

Dele afirmou Leonardo Boff:

D. Hélder Câmara é o maior profeta do Terceiro Mundo, diria, de toda a Igreja Universal. O profeta é o homem da palavra de denúncia, que anuncia, que consola e que constrói o horizonte utópico sem o qual ninguém nem a sociedade pode viver. A palavra do poeta nasce da escuta de outra palavra, a divina, que queima na consciência, que grita da boca dos pobres e que ecoa suavemente do universo.

D. Hélder é uma testemunha. É homem de percursos vários. No início da sua vida de presbítero esteve comprometido profundamente com os setores integralistas do Brasil. Depois de nomeado Bispo foi encarregado de organizar, em julho de 1965, o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, um evento que movimentou a cidade do Rio de Janeiro e envolveu centenas de milhares de pessoas. Demonstrou a sua capacidade de mobilização da sociedade, de angariar recursos e de conseguir o apoio de empresas e do governo. Mas este congresso marca o grande ponto de viragem do bispo D. Hélder.

Um dos Cardeais, presentes no Congresso, Pierre-Marie Gerlier interpela-o:

Permita-me que lhe fale como um irmão, um irmão através do sacerdócio, um irmão no episcopado, um irmão em Cristo: por quê, meu irmão Hélder, você não põe todo esse talento de organizador que Deus lhe deu ao serviço dos pobres? Você sabe que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas do mundo. Mas é ao mesmo tempo uma das mais pavorosas, porque todas essas favelas, como vocês chamam, são um insulto ao Criador.

D. Hélder respondeu a Gerlier:

Esta é uma virada na minha vida. O senhor verá que eu me consagrarei aos pobres. Não estou convencido de minha capacidade excecional de organizador de que o senhor fala, mas garanto que todos os dons que o Pai me confiou eu os porei ao serviço dos pobres.

Para trás ficariam as suas ligações a uma visão integralista da Igreja defendida pelo movimento de Plínio Salgado: Deus, Pátria e Família. Para trás ficavam os dias de carreira junto das famílias influentes, dos poderes. Uma vocação evangélica nascia no coração de D. Hélder.

Agora novos trabalhos vão ser caminhos abertos nessa nova etapa. O compromisso com os homens e mulheres das favelas para encontrar habitação condigna. Imaginação criativa para iniciativas de financiamento e apoio aos pobres das favelas: Cruzada S. Sebastião, Feira e Banco da Providência.

A sua ação de compromisso com os pobres não deixa de lado o compromisso com a Igreja, dum modo especial na Ação Católica: a JUC (Juventude Universitária Católica) e a JOC (Juventude Operária Católica).

Através duma relação estreita com o cardeal Montini, que será depois o Papa Paulo VI, põe em marcha a constituição da CNBB (Conferência Episcopal dos Bispos de Brasil), abrindo caminho a uma estruturação e reorganização da Igreja do Brasil, que depois será completada com a o CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano) unindo as igrejas da América Latina num esforço de organização para o trabalho eclesial.

Com a abertura do Concílio Vaticano II, D. Helder inicia um tempo de intensos contactos com os jovens teólogos que participam no Concílio. A Domus Mariae, onde estavam instalados os bispos brasileiros, é um dinâmico centro de debates e de confronto de opiniões. Foi o promotor mais ardente do grupo de bispos apelidado Ecuménico ou Conferência dos 22, pelo número de conferências episcopais ou organismos que se reuniam cada terça e depois cada sexta-feira. Nas suas cartas durante o Concilio anota o desejo profundo de unidade mesmo quando há posições calorosamente defendidas:

Sugeri que sugeríssemos ao Santo Padre (Ele está em diálogo com o Ecuménico: recebe nossas petições e as atende na mesma hora, como o Papa João) que Ele, na véspera do encerramento da 2ª Sessão, venha fazer uma manhã de recolhimento connosco, sobretudo para dizer: Vocês são irmãos. Andaram discutindo, por vezes, de modo mais vivo. Chegaram, aqui e ali, a veemências. Talvez ou certamente, haja travos, amarguras […] Vamos esquecer mágoas, perdoar-nos mutuamente, mergulhar na caridade. Peçam a Deus por estes dias finais. Que eles sejam aproveitados até o fim!Que até o fim sejamos instrumentos nas mãos de Deus […] A nós escapam os resultados: a Deus pertencem.

Participa como o seu grupo duma forma muito ativa nos debates conciliares sobretudo no esquema 13 do qual nasceria a Gaudium et Spes. Assina, com outros padres conciliares, o que se designou como esquema 14: o Documento das Catacumbas, defendendo uma Igreja que faça uma clara opção pelos pobres e que ponha de parte os sinais de poder e de riqueza.

A sua presença em Olinda-Recife como bispo está definida na sua saudação ao chegar:

Um cristão se dirigindo a cristãos, mas de coração aberto, ecumenicamente, para os homens de todos os credos e de todas as ideologias. Um Bispo da Igreja Católica que, à imitação de Cristo, não vem para ser servido, mas para servir.

Vive esses tempos de confronto e perseguição com a ditadura militar, mas também com as distâncias e acusações de alguns dos companheiro no episcopado. O processo de canonização e a leitura das suas obras abrem caminho para um conhecimento mais profundo do itinerário deste homem que teve como lema: In manus tuas.

In manus tuas (Nas tuas mãos)

Só Tu e mais ninguém
me poderias soprar lema tão feliz,
que resume, a cada instante,
minha miséria total
e minha riqueza em tuas mãos.
Nada peço e nada recuso.
Nada ouso e nada temo.
Decides por mim.
Ages por mim.

D. Helder Câmara

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