Construir novos sonhos

No dia 16 de outubro, realizou-se no Seminário de Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, a primeira conferência da ACEAG Portugal: Wethxa. Vamos Construir Novos Sonhos!

Para quase todos os que nos leem a frase acima pouco diz. Talvez alguns saibam que Alfragide fica ao lado de Lisboa, mas é provável que só o meu vizinho das páginas anteriores, o querido Juan Ambrosio, saiba o que é a ACEAG Portugal.

Trata-se da irmã gémea de uma associação com o mesmo nome, fundada em Moçambique, na província da Zambézia pelos padres dehonianos: Associação Centro de Ensino e Agricultura do Gurué.

Caros amigos, escrevo-lhes emocionada com o que tenho visto e sei que está programado: não é só mais uma associação a atuar num país africano. Não é apenas mais um grupo de pessoas com um projeto para implementar e “agir no terreno”. Em países onde falta tudo, países que são os últimos dos últimos em todos os índices de desenvolvimento humano (Moçambique ocupa o lugar 181 no conjunto de 189 países deste índice das Nações Unidas), qualquer ação faz a diferença.

A ACEAG faz e fará uma grande diferença com a construção de escolas, o empowerment (empoderamento) das mulheres, a formação na Escola Machamba, as mandalas circulares agrícolas, as capoeiras com a criação para autoconsumo e para a venda de ovos, as bombas de água, a utilização da energia solar, etc. Convido os leitores a saber mais sobre a ACEAG em https://aceag.org/.

Coordenada pelo madeirense, P. Luciano Vieira, a ACEAG nasce de uma vontade informada e colaborativa sobre o que é necessário para uma mudança positiva junto das pessoas e do território. Para quem trabalhamos? Sobretudo, com quem iremos trabalhar? O que pode ser feito no lugar onde estamos? Como cuidar dos seres humanos sem descuidar da terra que lhes dá o chão e o sustento? Como ouvir aqueles que precisam de ir ao encontro das suas aspirações? Quais são as prioridades?

Tantas são as perguntas que (re)conhecemos no contexto de várias missões. São as mesmas perguntas que levaram as Nações Unidas a procurar repostas, sintetizando-as em
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), também conhecidos por Agenda 2030. Cada um dos Objetivos incorpora várias metas que se tornam reais e fazem sentido em diferentes contextos nacionais e comunitários.

No caso da ação da ACEAG no Gurué, podemos observar que quase todos os ODS estão presentes. Desde logo os primeiros oito, encabeçados pela ambição urgente e radical de “erradicar” a fome e a pobreza. Quase em jeito de brincadeira, e por mera impossibilidade geográfica, diríamos que a ACEAG só não pode agir no âmbito do ODS 14, “proteger a vida marinha”.

Distrito de Gurué, província da Zambézia, Moçambique.
Distrito de Gurué, província da Zambézia, Moçambique: 5 688 km quadrados, 200 000 habitantes, Média de 5 filhos por mulher, 53% das crianças subnutridas, Economia depende 90% do chá, Cidade desde 1998.
Imagem de NordNordWest | Wikimedia Commons

Se o nosso ponto de vista forem os Objetivos Laudato Si’, sistematizados em função da proposta do Papa Francisco na encíclica com o mesmo nome (2015) sobre o cuidado da casa comum, então veremos que a ação da ACEAG no Gurué responde na totalidade a estes objetivos: resposta ao clamor da Terra, resposta ao clamor dos pobres, economia ecológica, adoção de estilos de vida sustentáveis, educação ecológica, espiritualidade ecológica, envolvimento da comunidade e ação participativa.

ODS ou Objetivos Laudato Si’ são formas diferentes de dizer o mesmo: é precisa uma nova humanidade. No sábado, dia 16 de outubro, na sua intervenção, Juan Ambrosio reiterou este apelo fundamental que nos chega dos escritos do Papa. Uma nova humanidade não significa descartar estas pessoas, desistir de nós e dos outros, inventar outras gentes. Uma nova humanidade significa renovar a esperança, renovar a nossa maneira de estar em relação (insisto, somos os outros dos outros…).

Há pessoas que levam tudo por diante, com(o) um sopro abençoado de força anímica, de talento na mobilização dos outros, com uma visão ampla e estruturada, com capacidade para perceber as prioridades de um projeto ambicioso e arrojado.

A ACEAG nasceu do sonho e da persistência de uma dessas pessoas. Não é um herói nem um super-homem, é tão-só um de nós, sabendo fazer com que cada um queira, livremente, dar o melhor de si a quem precisa de uma mão que o segure e oriente. Não de uma mão que aperte e estrangule, mas de uma mão firme que puxe o passo seguinte para que cada um, cada comunidade, possa prosseguir confiante o seu caminho.

Sala de aula do 1º ciclo no Gurué, agosto 2021
Sala de aula do 1º ciclo no Gurué, agosto 2021
 3 extensionistas com os seus diplomas de conclusão da formação em agricultura sustentável, 16-10-2021, Dia Mundial da Alimentação
3 extensionistas com os seus diplomas de conclusão da formação em agricultura sustentável, 16-10-2021, Dia Mundial da Alimentação
Vista aérea de uma mandala circular agrícola. Fotos ACEAG.
Vista aérea de uma mandala circular agrícola. Fotos ACEAG.

Como ajudar: https://aceag.org/doacoes
130 euros apoiam uma família para:

  • construção de mandala,
  • fornecimento de 30 galinhas,
  • rede para a capoeira,
  • mudas para os canteiros agrícolas,
  • apoio técnico especializado.

Foto da capa: Conferência ACEAG, Carla Martins, testemunho de uma voluntária. Foto ACEAG.

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