Celebrar a amizade

Recebi por estes dias a mensagem de um amigo convocando um encontro. Há já algum tempo que este grupo não se encontra, apesar de irmos sabendo notícias uns dos outros. Somos todos professores e tínhamos o hábito de nos juntarmos para partilhar experiências e reflexões e, sobretudo, celebrar a amizade. Chegou o momento de reiniciamos essa prática.

Este acontecimento fez-me pensar um pouco na amizade e na sua importância na vida das pessoas. O que vejo e sinto, aquilo que constantemente oiço e testemunho, não me deixa margens para dúvidas: os amigos são verdadeiramente essenciais na existência de cada um de nós. Eles são sempre fruto de uma eleição.

A amizade implica sempre uma eleição e um exercício de tessitura

O primeiro momento de encontro pode ter sido, até, fruto do acaso, acontecendo no meio de situações em que estávamos muito longe de imaginar a relação de amizade que daí surgiria. Outra vezes nem nos lembramos bem desse primeiro momento, pois esse amigo parece estar na nossa vida desde sempre.

Sejam quais forem as circunstâncias, a verdade é que a amizade implica sempre uma relação querida e alimentada e, por isso, implica uma eleição. Com isto não me refiro a uma escolha feita de uma vez para todas, ou seja, escolho que tu sejas meu amigo e isso acontece automaticamente, mas a uma relação que se constrói constantemente por vontade daqueles que nela estão implicados. Isso implica tempo, espaço, vontade. Mesmo quando parece acontecer por acaso a amizade requer sempre um exercício de tessitura.

É por isso que me faz bastante confusão a maneira inapropriada e leve com que muitas vezes nos referimos a esta realidade. O modo como comunicamos e nos relacionamos neste mundo em que tudo e todos estamos interligados facilita essa confusão. Colecionam-se os amigos que chegam a perfazer milhares, como se fosse possível ter milhares de amigos. Conhecidos talvez, seguidores certamente, mas amigos não, pois o tal trabalho de tessitura requer uma presença e disponibilidade que não são compatíveis com esses números. Ao longo da nossa vida cruzar-nos-emos com milhares de pessoas, teremos também muitos conhecidos, mas o encontro da amizade só será vivido com um número bem mais reduzido de pessoas.

Também no contexto familiar e profissional utilizamos essa palavra de um modo que me parece desadequado. Com frequência oiço dizer a muitos pais que procuram ser os melhores amigos dos filhos. Julgo perceber o que querem dizer com isso. Procuram expressar uma relação construída ao longo do tempo e que vai muito para além de uma mera relação biológica. Mas para mim é isso mesmo que significa ser pai. Não se trata simplesmente de gerar a vida, mas de alimentá-la e fazê-la crescer sempre e em todas as circunstâncias. Nunca me considerei o melhor amigo dos meus filhos, nem nunca procurei sê-lo. Tenho por eles um amor e carinho, uma relação vital, que a palavra pai me parece traduzir de uma maneira mais justa e precisa.

Algo de parecido, ainda que em contextos muito diversos, se pode dizer no âmbito das relações profissionais. No desempenho dos nossos trabalhos acabamos sempre por nos relacionar com muitas pessoas. Com muitas delas chegamos mesmo a ter relações de empatia e proximidade e, porque passamos muito tempo juntos, até chegamos a conhecer muita coisa acerca das suas vidas e elas das nossas. Apesar disso não me parece que muitas dessas relações cheguem a configurar uma verdadeira amizade.

A amizade precisa de ser alimentada e celebrada

A maneira como muitas vezes a amizade é referida e mencionada tem provocado uma certa banalização, não dando a verdadeira conta do que ela é na vida das pessoas. ‘Separar as águas’ parece-me, por isso, fundamental, não para desvalorizar as relações laborais, nem muito menos as familiares, mas para poder destacar o que é específico e constitutivo da relação de amizade.

Agora que vamos entrar num tempo que proporciona, para muitos, mudanças de ritmo, talvez seja um momento oportuno para revisitarmos e revermos amizades.

É verdade que a amizade resiste a muita coisa, mesmo a longas distâncias e também a longas ausências, mas não tenhamos ilusões, ela tem de ser alimentada, ou, então, os amigos não são afinal tão importantes na nossa via e, nesse caso, talvez corram o sério risco de já não ser, em verdade, amigos, ainda que por eles alimentemos um certo carinho.

A amizade, para sê-lo, precisa mesmo de ser alimentada e celebrada.

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