Carta a Filémon

A Epístola a Filémon – um dos mais pequenos escritos do Novo Testamento – constitui o estímulo e o contexto para uma bela reflexão sobre a vivência da liberdade enquanto caminho espiritual. Adrien Candiard – dominicano francês a residir na cidade do Cairo – consegue em breves páginas apresentar um exercício de leitura rico e incisivo sobre a qualidade da vida cristã, mantendo um tom coloquial próprio do contexto de pequenos grupos nos quais este livro encontrou a sua origem.

A experiência da escravatura – na qual o tecido económico da sociedade mediterrânica do primeiro século assentava, tal como o nosso – é o mote para um percurso que envolve o encontro com outros episódios do Novo Testamento, como a “conversão” de Paulo, o diálogo de Jesus com Marta e Maria ou a prece sobre o perdão das dívidas. A questão de fundo é a saída de uma visão da vida cristã enquanto observância de preceitos e restrições, visão alimentada por muita da nossa prática pastoral. A radical novidade cristã assenta no absurdo de um escravo e o seu senhor poderem partilhar uma mesma vida digna, o mesmo pão eucarístico, a mesma liberdade no seu interior e no seu exterior. E, como bem percebeu a filosofia e a literatura do século XX, de nada serve a luta pelo fim das estruturas sociais injustas se cada ser humano não se deixar recriar na sua liberdade.

Não existe, na fé cristã, vida moral sem vida espiritual. Porque é a amizade com Cristo, é a presença de Deus em nós – a que damos o nome de Espírito Santo – que pode, simultaneamente, esclarecer-nos sobre o que é bom, dar-nos desejo de o cumprir e libertar-nos, pacientemente, de tudo o que nos retém. É a frequência de Deus, a familiaridade com Deus a única a libertar-nos do pecado que nos impede de fazer o que queremos, que destrói a nossa liberdade.

Autor: Adrien Candiard
Edição: Apostolado da Oração
Páginas: 88

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