Caminho Sinodal Alemão

A experiência sinodal atual terminou a sua primeira fase, em 15 de agosto deste ano. Foi um tempo para escutar “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias” experimentadas pelo Povo de Deus no seu itinerário pelo mar da história. A entrega ao Secretariado do Sínodo das sínteses elaboradas foi no mês de agosto.

A elaboração das sínteses é sem dúvida um dos grandes desafios na aprendizagem do caminho sinodal. Não é fácil reduzir em poucas páginas a riqueza do que foi dito.

Como se faz a decantação das questões importantes?

Estamos habituados a optar pela maioria e a eliminar como residual o que emerge de grupos mais restritos. A lógica do Sínodo não é uma lógica parlamentar. Introduz um elemento e um desafio: o discernimento. Como se aprende? Como se constrói?

Talvez seja bom recordar a conclusão da Assembleia de Jerusalém para dirimir a questão dos judaizantes, dos fiéis às tradições judaicas: “O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveis…” (Act 15 28). Como chegar aqui?

Como nos primeiros tempos, ao longo deste caminho sinodal foram surgindo as polémicas de Pedro e Paulo, as acusações e os bloqueios, os receios de que a Igreja se deixe envolver pelo populismo, que a tradicional autoridade do papa seja demolida, etc… etc…

Cardeal Kasper, Caminho Sinodal Alemão
Cardeal Kasper, Caminho Sinodal Alemão, https://www.wir-sind-kirche.de

A experiência sinodal alemã fez soar as campainhas de alarme. Gerou-se o pânico nos que têm dificuldade em olhar os desafios que a vida de hoje coloca à Igreja e acrescentou preocupação a quem honestamente quer que a Igreja se renove na fidelidade ao Evangelho. Ouvimos as reservas do Cardeal Kasper, de algumas Conferências Episcopais, da Secretaria de Estado do Vaticano, para não falar das acusações de heresia e de desmantelamento da Igreja, do pedir condenações.

As palavras do Papa Francisco vêm por água na fervura:

Na Alemanha há uma Igreja Evangélica muito boa. Não precisamos de duas. O problema surge quando o caminho sinodal tem origem nas elites intelectuais, teológicas e é muito influenciado por pressões externas. Há algumas dioceses onde o caminho sinodal está a ser feito com os fiéis, com o povo, lentamente… Quis escrever uma carta a propósito do vosso caminho sinodal. Escrevi-a pela minha própria mão e demorei um mês a escrevê-la. Não queria envolver a Cúria. Fi-la mesmo sozinho. O original é em espanhol e a carta, em alemão, é uma tradução. Aí está escrito o que penso.

E na conversa com os jornalistas no voo de regresso do Canadá refere-se ao comunicado da Secretaria de Estado do Vaticano:

Em primeiro lugar, este comunicado foi feito pela Secretaria de Estado… Foi um erro não dizer isso… Foi um erro não ter assinado como Secretaria de Estado; mas um erro de ofício, não de má vontade. Sobre o Caminho sinodal escrevi uma carta, que fiz sozinho, após um mês de oração, reflexão e consultas. Eu disse tudo o que tinha que dizer sobre o Caminho Sinodal, mais do que isso não direi: este é o Magistério papal sobre o Caminho sinodal… Fiz por minha iniciativa, como pastor, como irmão, como pai e como cristão para uma Igreja que está à busca de um caminho. Esta é a minha mensagem. Sei que não é fácil, mas tudo está escrito nesta carta. Obrigado.

Por seu lado o Cardeal Grech, referindo-se ao Sínodo Alemão, diz:

Não é preocupante, desde que respeitemos os princípios da Igreja católica: a vontade de querer ser discípulos de Jesus, o serviço dos bispos na sua igreja local… os bispos alemães “não são independentes, mas fazem parte do colégio mundial”, vinculado ao Papa, “garante da unidade” … ninguém será excluído, todos devem poder contribuir. Nada deve ficar debaixo do tapete… A sinodalidade proporciona o espaço especial onde podemos partilhar os nossos medos e alegrias, as nossas certezas e dúvidas, incluindo os sonhos. Há sonhos que podemos realizar e outros que não. Alguns podem realizar-se amanhã, outros exigirão mais tempo.

Christopher Lamb, em The Tablet 2

Lembro que os documentos finais já foram entregues à Secretaria do Sínodo e que os responsáveis do Sínodo responderam às dúvidas afirmando o seu desejo de caminhar com a Igreja chamando a atenção para as problemáticas onde é necessária uma reflexão atualizada.

Concílio Plenário da Austrália

Concílio Plenário na Austrália
Concílio Plenário na Austrália

A Igreja australiana concluiu em Sydney, no dia 8 de julho, um processo de discernimento desenvolvido nos últimos quatro anos e desencadeado como resposta aos problemas da pedofilia.
Foi um verdadeiro caminho sinodal com longos tempos de escuta e discernimento.
As conclusões abrem perspetivas exigentes. Esperemos agora a palavra ponderada e de discernimento do Papa Francisco. Um discernimento que, como aconteceu no documento Querida Amazónia deixe abertas as portas para continuar a reflexão e a escuta do Espírito.

Apresenta-se uma pequena síntese do conjunto de declarações aprovadas, após intenso debate, sobretudo em relação às diaconisas.

  • A Igreja na Austrália “implementaria” diaconisas se a lei da Igreja permitir e as mulheres serão parte da “estrutura de tomada de decisões de governo”. Cada diocese compromete-se a encontrar “novas oportunidades para as mulheres participarem nos ministérios”.
  • O concílio também aprovou uma moção pedindo uma nova tradução inglesa do Missal Romano da Austrália, para assegurar que é “sensível a uma linguagem que comunica e inclui claramente todos na assembleia”.
  • Procurar enfrentar uma “cultura do clericalismo” incluindo os leigos nas principais decisões e garantir que o governo seja realizado de “maneira sinodal” por meio de estruturas como conselhos pastorais. A Igreja também está comprometida com a “liderança sinodal prevista no Vaticano II” e solicitada por Francisco
  • Considerar se a Terceira Forma do Rito da Penitência pode ter um uso mais amplo em ocasiões em que seja particularmente apropriado, desde que haja entre os fiéis compreensão de sua natureza e exigências.
  • No plano para a futura direção da Igreja na Austrália inclui-se um “quadro nacional para a formação na Doutrina Social Católica” e um compromisso de cada instituição paroquial e eclesiástica de agir sobre o meio ambiente elaborando planos de ação Laudato si.

A barca da Igreja continua no mar encrespado. Sabemos que o Senhor Jesus está na barca.

Foto da capa: Caminho Sinodal Alemão, https://www.wir-sind-kirche.de

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