Caminhada Sinodal – 4: O Processo Sinodal Fase Continental

Na abertura do processo sinodal da Igreja universal, que culminará em 2024 com a segunda sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, dedicado ao tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”, o Papa Francisco delineou os traços fundamentais deste “caminhar juntos” e sublinhou que é uma ocasião propícia para a escuta do Espírito Santo, que se revela na escuta do povo de Deus, com vista a uma “Igreja diferente, aberta à novidade que Deus quer sugerir”.

Comunhão, participação e missão são, portanto, elementos indispensáveis tanto para a assembleia como para toda a Igreja, que é chamada a uma reforma interior na perspectiva da proximidade e da sinodalidade, considerada esta última não só como um modelo de decisão, mas também como objectivo teológico e jurídico. O itinerário iniciado no dia 9 de Outubro de 2021 é composto por três fases interligadas que visam tornar possível uma verdadeira escuta do povo de Deus e, ao mesmo tempo, envolver todos os bispos em diferentes níveis da vida eclesial: diocesana, continental e universal.

No final da etapa diocesana, as Conferências Episcopais e os Sínodos das Igrejas Orientais são chamados, através de reuniões denominadas Pré-sinodais, a discernir e elaborar uma síntese das conclusões deste primeiro momento de reflexão. Estas sínteses servirão então de base para a primeira edição do Instrumentum laboris, que será publicado pela Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos. Este Instrumentum laboris inicial será o documento de trabalho para as sete reuniões continentais: África (SECAM), Oceânia (FCBCO), Ásia (FABC), Médio Oriente (CPCO), América Latina (CELAM), Europa (CCEE) e América do Norte (USCCB e CCCB).

Cerca de
50 especialistas de
todo o mundo entregam ao Papa o Documento Preparatório para a Fase Continental. Vatican Media, 2 out 2022, Frascati, Roma.
Cerca de 50 especialistas de todo o mundo entregam ao Papa o Documento Preparatório para a Fase Continental. Vatican Media, 2 out 2022, Frascati, Roma.

O objetivo desta fase é o de promover o diálogo ao nível das grandes regiões continentais que, tendo por base o texto do documento de trabalho, conduza a um novo “discernimento à luz das particularidades culturais específicas de cada Continente”. Estas assembleias continentais elaborarão, por sua vez, um documento final, que será enviado em Março de 2023 para a Secretaria Geral do Sínodo. Em simultâneo, poderão realizar-se assembleias regionais de especialistas que enviarão também as suas contribuições para a referida Secretaria Geral.

Esta fase ficará concluída com a elaboração de um segundo Instrumentum laboris, cuja publicação se prevê para Junho de 2023 e que servirá de documento de trabalho da assembleia dos bispos que reunirão com o Santo Padre, na Assembleia do Sínodo dos Bispos em Roma, em Outubro de 2023 e Outubro de 2024, com o objetivo de discernir a nível universal o que o Espírito Santo infundiu em toda a Igreja.

Num quadro que tem como ponto central o Sínodo dos Bispos – órgão consultivo introduzido pelo Papa Paulo VI com a Carta Apostólica Apostolica sollicitudo, o Papa Francisco pretende introduzir uma reforma que abranja não só a própria assembleia dos bispos como também todo o sistema de relações entre os batizados. Prova disto é a disponibilização de uma fase preparatória, com o objetivo de ouvir os fiéis e oferecer ao catolicismo uma nova identidade que, ao mesmo tempo, se ajuste ao desígnio do seu Divino Fundador.

Isto não surpreende em Francisco que, como sabemos, é um fervoroso adepto das formas de sinodalidade que visam favorecer a participação de todos os batizados na solicitude pastoral, tornando-os mais conscientes da sua corresponsabilidade e koinonia.

Aliás, é fácil constatar que esta orientação se encontra desde cedo no seu pontificado plasmada em vários documentos do magistério, nomeadamente: na Exortação Pós-sinodal Evangelii gaudium, onde convida a percorrer um itinerário sinodal para viver a colegialidade de forma mais significativa; na Amoris laetitia, onde aponta a experiência sinodal como forma de entrar em contacto com a realidade dramática de muitas famílias; ou ainda, na perspectiva expressa em Querida Amazónia que emergiu do diálogo proporcionado pelo Sínodo Pan-Amazónico, de uma Igreja sinodal que saiba valorizar o carisma feminino e garantir que as mulheres ocupam na Igreja um papel que corresponda à dignidade que lhes é conferida pelo batismo.

Foto da capa: Caminho Sinodal Alemão conclui texto básico sobre o papel da mulher na Igreja. Foto Toussaint, 9 set 2022.

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