Aos quatro ventos

Ilustração: Luca Salvagno

António viveu em perene disponibilidade para ir onde Deus lhe indicava.

António provinha do Sul e por lá tinha andado, quando, ao sair da sua terra natal, desembarcou nas areias escaldantes de Marrocos, para pregar o Evangelho entre os mouros. Também tinha andado para Norte: da África à Sicília, talvez a contrafeito, e depois até Assis para, finalmente, chegar ao norte da Itália, primeiro, por obediência e, depois, por zelo pastoral, como ministro provincial dos frades.

Para Oeste, dito e feito! Foi pregar para a França; mas voltou, ainda, a Portugal, em Lisboa, para libertar o pai da forca, injustamente acusado de um crime, mesmo que tenha sido por milagre (ou, melhor, dois: a bilocação, isto é, sem se mudar fisicamente de Pádua, e a ressurreição do jovem morto). Mas, talvez isso não conte.

Faltava, portanto, a direção Leste. Aqui, as notícias são escassas, mas o compromisso de António de visitar os frades da sua província religiosa, previsto pela Regra, e muitas outras tradições locais, provasdignas, embora exíguas e antigas, garantem-nos que tenha percorrido também os distritos: de Trieste, Parenzo (o atual Porec, na Croácia), Udine e, sobretudo, Gemona. Aqui foi construído, provavelmente, o santuário mais antigo dedicado a Santo António, mesmo antes da Basílica de Pádua estar concluída. A tradição está ligada a uma capela que, segundo documentação antiga, teria sido doada ao grande Santo Taumaturgo, em 1229.

Podemos, portanto, afirmar verdadeiramente que Santo António pregou… aos quatro ventos! Isto é, caminhou em direção a todas as “fronteiras”, desde o extremo oeste até ao extremo oriente. Foi por todo o lado, como se a Palavra de Deus estimulasse de tal maneira o seu coração e os seus lábios, que era impossível travá-los ou abafá-los. Como dizia o Coelho branco de Alice no País das Maravilhas: “Caramba! Estou atrasado! Estou atrasado!” Como dizer “cheguei aqui e agora chega”?! Como desculpar-se adiando tudo para amanhã?

Esta é singela tradição franciscana, que não precisa de púlpitos marmóreos nem de investiduras solenes para se sentir sempre “em missão”. Se a ocasião, como diz o ditado, faz o ladrão, também pode fazer do frade um missionário. A vida, a minha e a das pessoas que se encontram nas praças, nos campos, nas encruzilhadas, nas catedrais e nas capelas, está cheia de ocasiões propícias, não tanto para ensinar a doutrina, mas sim para viver a fé nos caminhos da vida, como São Francisco exortava os seus frades e como ele próprio fazia – relatam as Fontes Franciscanas – espalhando o seu testemunho evangélico pelos caminhos do mundo.

Não é possível manter a vida e a missão em compartimentos separados: “Assim que acreditei em Deus, entendi que não podia fazer outra coisa senão viver apenas para Ele”, reconheceu Charles De Foucault, querendo com isto dizer que “viver apenas para Deus” é outra forma de dizer ser enviado para o mundo inteiro, pois, Deus chama e envia. António vive na contínua expectativa de ser enviado por Deus para um país e outro e mais outro, evangelicamente obrigado a viver em regime provisório.

Não é que não haja tempo e espaço para outras coisas; António não perde o “vício” do ermitério, do silêncio, da solidão e da fraternidade. Como aconteceu, aliás, com Francisco de Assis e, sobretudo, com o modelo de ambos: Jesus Cristo que, logo que podia ou sentia necessidade, se refugiava em casa dos amigos Marta, Maria e Lázaro. Mas há almas constantemente inquietas, pouco inclinadas a diversões e despreocupadas de si mesmas. Caminham porque assim é que é, faz parte das regras evangélicas do chamamento. Lá fora o caminho espera.

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