A vitalidade da benção

Escrevo estas linhas na véspera do Natal. Sei bem que quando elas vos chegarem às mãos já estaremos em 2022, mas, ainda assim, julgo que vale apena partilhar o que por estes dias me interpelou.

Sempre o presépio me desinstalou

Sempre que olhei e olho para ele (durante todo o ano existe um em minha casa) não posso deixar de me interrogar sobre a força do seu mistério. Porquê foi assim que aconteceu? E a pergunta não se refere só ao modo e forma do acontecimento − um local pobre, longínquo, no meio de gente sem destaque social, um quase não lugar −, mas ao próprio acontecimento em si.

Para se dar a conhecer, para partilhar o seu projeto, não poderia Deus ter feito de outra maneira? Porquê assumir a nossa condição? Porquê fazer a experiência de ser um como nós?

Ao formular assim as perguntas imediatamente ecoa em mim aquela resposta, dita de tantas maneiras ao longo da história do cristianismo, mas sempre impactante, sempre abrindo novos horizontes: fez a experiência de ser como nós, para que nós possamos perceber que podemos ser à maneira dele; quis viver a nossa vida, para que possamos perceber que essa é também a vida dele, porque entre humanidade e divindade, apesar de não serem o mesmo, não há incompatibilidade, não há antagonismo, pelo contrário, por causa do Natal, a partir do Natal, para nós cristãos, elas não podem mais ser pensadas uma sem a outra.

Para chegarmos ao divino temos de passar pelo humano

Tenho consciência de que a linguagem utilizada está nos limites do que alguns possam considerar a ortodoxia, mas talvez resida aí aquilo a que muitas vezes chamo o paradoxo do cristianismo e que posso formular deste modo: para chegarmos a conhecer o divino, para encontrarmos verdadeiramente Deus, temos de passar pelo humano, pelo verdadeiramente humano.

Daqui resulta que o cristianismo é uma experiência que deve ser vivida no coração da vida humana, não à volta da vida, não por cima da vida e, muito menos, apesar da vida. O cristianismo não nos descompromete com a vida, nem com a construção do mundo, pelo contrário, lança-nos para essa missão. O presépio lembra-me isso, chama-me a isso. Nele não vejo condenação, pelo contrário vejo a bênção deste mesmo mundo, da vida e do ser humano.

A benção é a razão de ser da religião

Benção ecuménica. Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Santo António dos Olivais, Colimbra. Foto MSA, 24 JAN 2020.
Benção ecuménica. Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Santo António dos Olivais, Colimbra. Foto MSA, 24 JAN 2020.

Com isto não estou a afirmar que tudo está bem, que tudo deve ser aceite. Porque o presépio me remete para a bênção, não podemos deixar de denunciar tudo aquilo que não dignifica a humanidade em geral e cada ser humano em particular. Não podemos deixar de lutar para que essas situações e dinâmicas se transformem. Essa tem de ser também uma das consequências do acontecimento do presépio.

Tudo isto me levou a reler um pequeno livro A vitalidade da Bênção, de Elmar Salmann (Apostolado de Oração, 2017). Nesse exercício encontrei, logo na introdução, uma pequena passagem que me ajuda a perceber melhor uma das missões mais importantes que as comunidades cristãs são chamadas a realizar:

De facto, a bênção é a razão de ser da religião, a sua força e o seu charme. Através dela, os tempos tornam-se kairoi, isto é ocasiões para nos encontrarmos com as marcas de Deus e com um futuro vivível e promissor, para escavar nas vastas profundezas da solidão e da comunhão entre os homens, para acompanhar a génese de uma biografia, para enfrentar fecundamente o caráter tragicómico da existência, para viver o aspeto abissal e místico-consolador da fé e para compreender o mistério cristão como arte de tradução entre Céu e Terra, Deus e Mundo, pecado e santidade, entre tempos e culturas, entre profetas e sacerdotes. A bênção transforma escolhos em passagens, desfiladeiros em caminhos.

No quotidiano deste 2022, e sempre, porque não dizê-lo, as comunidades cristãs são chamadas a ser sinal visível desta bênção. E são desafiadas a isso não porque aceitam tudo, não porque concordam com tudo, mas porque sabem que no mais nuclear do cristianismo está a bênção que Deus quer ser para toda a humanidade, porque sabem que a maneira como assumem e promovem a condição humana é um dos sinais mais credíveis para aferirem e a sua fidelidade a Deus e para testemunharem a vitalidade da sua fé.

O momento histórico que estamos a viver, enquanto humanidade, precisa evidentemente de sentir esta bênção. O Deus em quem acreditámos está a concedê-la, pois essa é a sua maneira de ser, agora é preciso que aqueles que nele acreditam tenham a ousadia de ser traço visível dessa presença.

Foto da capa: Presépio na biblioteca do Palácio Apostólico, Vaticano, em 27 de dezembro de 2020. Foto EPA/VATICAN MEDIA HANDOUT.

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