A morte não mata a vida

Diz-nos a filósofa judia Hanna Arendt que “os homens, embora tenham de morrer, não nasceram para morrer, mas para começar”. É grande a ousadia desta fé na vida sem tempo limitado, que precisamos agora de revitalizar, quando na nossa Europa rufam os tambores de uma guerra que já semeou tantas mortes e sofrimentos aterradores.

O horizonte cristão da vida abre-nos para além da morte, mas os passos que damos nessa direção são quase sempre pequenos e titubeantes, porque não nos asseguram firmes garantias de respostas para as angustiantes perguntas que nos assediam. No calendário da nossa Esperança, há sextas-feiras santas, cheias de gritos desprotegidos. Sentimos isso agora de uma maneira lancinante, ao ver na carne a sangrar dos nossos irmãos ucranianos o corpo de Cristo crucificado.

A alegria da manhã de Páscoa não apaga as descidas aos infernos do sofrimento nem os silêncios de sábado santo, pontuados por despojamentos e abandonos. Será esse compasso de emudecimento que nos desafia a perceber o mistério da semente, que apenas germina a vida anunciada, quando mergulha na escuridão silenciosa da terra.

Acreditamos que no sepulcro vazio de Cristo se inscrevem os indícios de uma existência nova extraordinária, não por sermos sonhadores fantasiosos, mas por acreditarmos que Cristo ressuscitado envolve todos os homens neste movimento de vida imortal. Ele é o Senhor do último dia em que se cumprirão todos os anseios humanos de salvação. É à luz deste mistério, que poderemos vislumbrar o palpitar do Amor mais forte que a morte, reverberado na luminosa madrugada da Ressurreição. A Páscoa de Cristo é fonte de uma esperança inimaginável que nos fará encarar a vida como uma passagem para um ponto Ómega de plenitude.

Precisamos de nos deixar iluminar por esse horizonte, para entrever pressentimentos desta fecundidade eterna nas pequenas ressurreições na nossa vida. A esperança celebrada na Páscoa não é um refúgio num mundo imaginário para esconjurar uma perda, mas sim a entrega confiante a um Amor que sustenta a vida. É essa confiança que fará rolar a pedra dos túmulos em que a nossa esperança pode estar sepultada.

Há em nós sonhos, projetos e belas utopias, que podem ficar atrofiados sob o peso de rotinas e obrigações, confortos e seguranças, que assassinam as exigências ilimitadas do nosso espírito. A celebração das alegres festas pascais constitui um convite a romper os hábitos repetitivos que fazem estiolar a frescura, o encanto e a fecundidade deste horizonte de Esperança.

A Páscoa renova aquele feliz momento, em que a noite mais sombria cedeu o passo aos primeiros alvores de uma aurora sem fim, para que à luz dessa magnífica madrugada fique desvelado o futuro sem ocaso da nossa própria ressurreição. Diante das situações incontroláveis, das desconcertantes interrogações e dos profundos desassossegos provocados pela louca violência da guerra, tornamo-nos sedentos de uma fonte de Esperança que não faça estiolar a confiança no modo como olhamos o mundo e encaramos o futuro. Possamos todos nós dessedentar-nos neste manancial, para que a celebração pascal num tempo de tão duras provações possa avivar as brasas da nossa Esperança, severamente posta à prova.

Foto da capa: Guerra na Ucrânia, 7 de março de 2022. Foto EPA/ROMAN PILIPEY.

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