A Festa de Santo António em São Martinho do Porto

Conta uma lenda que em São Martinho do Porto, perto de Alcobaça, apareceu em tempos idos uma imagem de Santo António num nicho nos montes. Os frades do Mosteiro de Alcobaça teimavam em levá-la para a igreja, mas esta voltava insistentemente para o nicho sem que ninguém lhe tivesse mexido. Então, a população resolveu construir uma capelinha perto do nicho e só assim conseguiram que o Santo não tornasse a fugir.
Desde essa altura que Santo António vela pelos pescadores na sua capela no alto do monte, como ficou perpetuado num painel de azulejos ali colocado.

Capelinha de Santo António à entrada da barra da baía de São Martinho do Porto. Foto de Francisco Teotónio Pereira.
Capelinha de Santo António à entrada da barra da baía de São Martinho do Porto. Foto de Francisco Teotónio Pereira.

Lenda do Lago

N’aquela tarde de calma, fora a pesca abundante;
Sant’António do seu nicho, assiste vigilante
À faina. Os pescadores largam já d’amarra
E, como o mar é manso, lá vão de proa à barra
Alegremente em fila, o porto demandando.
O leme vai na orça, velozes vão passando
Na linha da “carreira”, em frente da capela:
O Santo vai contando, um por um, vela por vela.

O sol é posto já. Traiçoeiro a refrescar
O vento aflige o Santo e atormenta o mar.
Toldou-se o céu também, logo a terra escureceu
E no regaço Santo, Jesus adormeceu.
Já nas ondas envergam os novelos d’espuma
Mas, na conta das velas, inda falta uma!
Nos lábios d’António, trémulos d’amargura
Alguma praga ao mar, entre as preces se mistura.

Um ponto branco, ao sul, lá longe entre a procela,
Traz rumo aproado, à alvura da capela.
O bom do Santo ao ver, essa asa de gaivota
Que, tão audaz procura, a linha da derrota,
Empalidece, e treme, temendo-lhe o destino,
Não se atreve porém a acordar o seu Menino
E murmura: “Jesus, Senhor! A vaga é tão alta!”
“E aquela vela é a mais pequena que me falta!”

Enquanto dura, a luta, entre o mar e a vela
António nota já, não ser deserta a capela.
Uma pobre mulher, nos degraus ajoelhada
Cinge contra o seio, uma cabecita dourada;
No seu ardente olhar e nos olhos da creança,
O ponto branco brilha, como um pharol d’esp’rança
E o pescador afoito, aproa sempre a vela
Ao vulto da mulher, à brancura da capela.

O mar redobra a fúria, é um leão rugindo
E tranquilo Jesus, no regaço vai dormindo;
Mas avistando o pano, roto já p’la rajada
A cabecita d’ouro exclama apavorada:
“Ó mãe? Ó minha mãe?”
“É o meu pae, que lá vem?!”
N’isto; o Menino acorda e mui mal humorado,
O aio Santo increpa, de sobrolho carregado;
“O que foi isto António? – “Quem foi que se atreveu?”
O Santo aponta a medo, a vela, o mar, o céu.

Nos olhos da mulher, onde a vela é gravada
Uma lágrima… Uma pérola pendurada.
Desvairado ao vê-la, implora Sant’António:
“Senhor… fazei bonança… O mar é um demónio”…
Jesus serenamente, do nicho então desceu,
Com a mãozita em concha, a pérola colheu,
O seu rosado braço, enérgico balança
E às ondas enfernais, a humilde joia lança.

Depois… sorriu ao Santo, com divino afago
E no mar, defronte da capela, fez-se o “lago”

Um Pescador

Ainda hoje, no dia 13 de junho, em São Martinho do Porto, se realiza a procissão que desce até à baía. Os andores, onde se destacam o de Santo António e o de Nossa Senhora, entram a bordo e abençoam o mar e as embarcações, numa singular procissão marítima em honra deste Santo que também é padroeiro dos pescadores.

Foto da capa: Entrada da barra da baía de São Martinho do Porto com a capelinha de Santo António. Foto de Francisco Teotónio Pereira.

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