A cruz de Santo António

Já aqui falámos da representação de Santo António Menino do Coro na Sé de Lisboa. Refere-se aos primeiros anos da vida do então Fernando de Bulhões, que iniciou a sua formação na escola catedralícia da Sé, a partir dos seus sete/oito anos, onde aprendeu a ler pelo Saltério, a cantar os salmos e os hinos do Ofício Divino, aprendeu gramática por alguns dos autores utilizados na época, assim como um pouco de Lógica e de Retórica (Henrique Pinto Rema, Coletânea de Estudos Antonianos, 2019, p. 290).

As primeiras biografias revelam que por volta dos seus quinze anos é confrontado com várias dúvidas e inquietações, que são simbolicamente corporizadas no episódio do milagre da cruz, um dos primeiros atribuídos ao jovem estudante.

A tradição fixou a cruz na parede, identificada com a respetiva tabela, que muitas vezes passa despercebida aos inúmeros turistas que todos os dias passam por ela, no acesso ao Museu do Tesouro da Sé. Mas é uma marca relevante que sobreviveu séculos e que relembra que o Santo nasceu em Lisboa, onde viveu a sua infância. Também o cancioneiro português perpetuou este episódio, através de narrativas que passam de geração em geração, como esta que o escritor e deputado Luiz. A. Gonçalves de Freitas publicou na edição de 1912 do Álbum Português.

O ataque do demónio, Painel de azulejos, 1ª metade do século XVIII. Nave da Igreja do Convento de Santa Cruz, Coimbra. @ Nuno Gonçalves.
O ataque do demónio, Painel de azulejos, 1ª metade do século XVIII. Nave da Igreja do Convento de Santa Cruz, Coimbra. @ Nuno Gonçalves.

Lenda

I
Naquele tempo, reza a lenda,
Que o bom Fernando, cuja fé
Lhe assinalava santa senda,
Vira passar, perto da Sé,
Sob o luzir de um sol brilhante,
Uma judia bem formosa,
Figura hebraica, deslumbrante
De negros olhos, boca rosa….

II
Menino era de coro ainda
E sentiu a vida cativa…
Na sua mente imagem linda
Fernando via, sempre viva.
Os seus devotos fanatismos e
O esquecimento lhe bradavam…
Do amor porém nos abismos
Seus pensamentos se afundavam….

III
Um certo dia em que, cismando,
Do coro as escadas subia,
Deu de repente o bom Fernando
Com a judia que sorria…
E os olhos dela, humedecidos,
E a sua boca de coral
Eram tesouros prometidos,
Num antegozo divinal.

IV
De enlevo preso, ei-lo, aturdido,
Pela formosa aparição,
E quis, de amor, louco, perdido,
Cingi-la, bem, ao coração…
Mas de Deus o auxílio invocando,
Traça uma cruz contra o demónio…
Desde esse instante, o bom Fernando
Passou a ser o Santo António.

Foto da capa: Cruz riscada na pedra por Santo António ainda criança. Escada de acesso à Torre, Sé Catedral, Lisboa. @ Leonor Wagner Alvim.

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