A corrida mais louca em tempo de Natal

A corrida às prendas, aos preços da Black Friday ou Cyber Monday, demonstram como existe ainda um caminho longo a percorrer para re-orientar a nossa vida na corrida mais louca do mundo: a do desapego. Louca por ser contra o espírito económico que entrou na corrente cultural sanguínea e se tornou vital para muitas pessoas. Por que razão assistimos em Novembro a carrinhos cheios de brinquedos e a um acumular de gente nos Centros Comerciais senão pelo apego à ideia de que, sem prendas, seria impossível viver bem o Natal?

Contra mim penso na corrida louca do desapego. Na nossa família sempre procurámos ir ao encontro da ideia de prenda como sinal de que te quero bem e de que te quero conhecer melhor. Mas nem sempre é fácil encontrar o equilíbrio entre o tempo/preço investido numa prenda e saber se o fazemos no desapego das coisas, refletindo um pensamento centrado na pessoa. Por outro lado, pensar numa pessoa e naquilo que queremos oferecer-lhe implica ter uma ideia de quem é para nós e, ao mesmo tempo, estar dispostos a desapegarmo-nos da ideia que temos para ir ao encontro da realidade que o outro é?

A corrida louca ao desapego implica deixar de parte uma cultura do descarte que, como dizia o Papa Francisco em 2020, “impregnou a nossa maneira de nos relacionarmos”. O descarte de um idoso pode não ir ao ponto de o abandonarmos, mas ao simples ato de não lhe darmos muita conversa durante o Natal por ser uma pessoa “chata”. O descarte de um pobre pode não ir ao ponto de não lhe darmos a nossa esmola, basta não lhe dirigirmos sequer uma palavra. O descarte até das crianças pode não ir ao ponto de não lhes ligarmos muito, bastando oferecer um telemóvel para as mãos para que se mantenha entretida, deixando-nos a consciência livre de que não precisamos de lhe prestar atenção.

A corrida louca do desapego exige uma cultura transformativa que nos tira da mentalidade descartável

Fotomontagem MSA: Foto Juliescribbles, Commons Wikimedia, 2021. Foto Ljupco Smokovski - stock.adobe.com
Fotomontagem MSA: Foto Juliescribbles, Commons Wikimedia, 2021. Foto Ljupco Smokovski – stock.adobe.com

Em 2020, numa entrevista à edição espanhola da revista semanal “Il mio Papa”, Francisco diz que − “contra a cultura do descarte, viver a cultura do receber, do acolher, da proximidade, da fraternidade. Hoje, mais do que nunca, somos solicitados a ser fraternos”.

O desapego daquilo que nos divide impulsiona a descoberta daquilo que nos une e torna irmãos uns dos outros. Seria algo que vai para além dos nossos relacionamentos genéticos, ou da família vocacional que abraçámos, mas estende-se à família humana que inclui o desconhecido que se cruza no nosso caminho e ao qual podemos oferecer o nosso lugar na fila, um sorriso ou uma palavra.

Uma vez li a história de um superior num mosteiro que recebeu presentes de todos os monges, excepto de um deles. O que não lhe ofereceu qualquer presente foi ter com ele, explicou que viver o voto de pobreza não deveria passar por oferecer ou receber bens materiais e o superior percebeu. Aquele monge tinha-lhe oferecido o dom do desapego.

Ser desapegado não quer dizer ser indiferente ou pouco entusiasta pelas coisas. Como dom espiritual, o desapego ajuda-nos a centrar a nossa vida nos seus aspectos mais essenciais e relacionais, não tanto em nós próprios. Quando isso acontece, e à pergunta que todos fazem a seguir ao Natal — “Então, recebeste muitas prendas? O que recebeste?” — surge o que os psicólogos chamam de Desordem Afetiva da Época (Seasonal Affective Disorder, SAD que seria a palavra inglesa para “triste”). Se alguém receber no Natal a atenção do outro, um abraço, uma boa conversa, e o interesse pela sua pessoa, fica feliz, mas sem grande resposta a dar ao colega que lhe faz a pergunta.

Responder com profundidade nem sempre é fácil, mas por isso é que o desapego pode tornar-se uma corrida louca, pois poucos poderão compreender que existem coisas mais importantes do que a quantidade e qualidade das prendas recebidas.

Imersos neste mundo, sem ser do mundo, é um desafio permanente que nos leva a hesitar quando nos questionam sobre as prendas e pensamos em oferecer uma resposta profunda. A conversão como processo transformativo da nossa vida passa pelas pequenas (grandes) coisas como ter a coragem de responder com profundidade.

O desapego das coisas vãs para testemunhar com a vida o que é mais profundo, é a melhor prenda que cada um de nós poderia oferecer, neste momento da nossa história, ao mundo conturbado pela superficialidade de vida de que nem sequer se dá conta.

A corrida ao desapego leva-nos à meta de uma vida interior mais livre e aberta com uma diferença: não tem preço e não se esgota em disponibilidade.

Foto da capa: Yakobchuk Olena – stock.adobe.com

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