Desafios da Educação – 2
Formação Humana para a Liberdade

A promoção da liberdade, a edificação da paz e a erradicação do trabalho infantil são apenas alguns dos desafios que se colocam, hoje, à missão de educar.

ESPECIAL setembro 2021 – Juan Ambrosio (Coordenação)

Formação Humana para a Liberdade

O ser humano não é a única entidade que é passível de ser instruída, isto é, de ganhar novas competências cuja origem lhe é alheia e cuja operacionalização é mecânica ou aproximadamente mecânica.

Sabe-se sem margem para dúvida que todos os seres vivos só conseguem sobreviver através da resiliência que têm e que esta é tanto mais eficiente quanto mais cada um de tais seres é capaz de ganhar instrução através do modo como vive, adaptando-se inteligentemente ao meio em que existe, meio que é constituído não sobretudo por coisas, mas por atos.

Crianças brincando, na escola Waldorf Kelip, Shah Alam, Kuala Lumpur, Malásia, Foto 2019 EPA/AHMAD YUSNI
Crianças brincando, na escola Waldorf Kelip, Shah Alam, Kuala Lumpur, Malásia, Foto 2019 EPA/AHMAD YUSNI

Sabe-se bem da capacidade que seres como os vírus têm de, como espécies, funcionar como se fossem uma entidade unitária capaz de instrução. Não é exatamente assim que tal ocorre, mas a casualidade de novas estirpes mais bem adaptadas à parasitação dos seus hospedeiros funciona como se fosse a espécie a ganhar nova instrução de como fazer melhor para melhor parasitar.

Como é evidente, este modo de proceder não consiste propriamente numa instrução, a menos que se queira transformar uma espécie viral ou uma sua nova estirpe em algo como uma entidade capaz de instrução, como, por exemplo, um cão.

A capacidade de receber instrução ou algo que com tal se assemelhe prova que a realidade, sobretudo a realidade biológica, é constituída fundamentalmente por inteligência, em muitas e variadas formas.

Todas estas formas, no entanto, têm como finalidade objectiva pelo menos a sobrevivência dos entes que constituem. Não há, assim, vida, sob qualquer forma, que não dependa quer da inteligência quer da capacidade de instrução ou algo de análogo a esta última.

A instrução é puramente objetiva: é por esta razão que se pode instruir uma máquina, através quer do modo como se constrói a sua realidade física, impondo mecanicamente instrução – programação – na simples matéria formalizada que a constitui (por exemplo, um relógio) quer escrevendo e reescrevendo programas informáticos já não meramente mecânicos (como os das máquinas de tecelagem programadas por cartão). Há alguns anos que se pensa que seja possível – teoricamente, é – programar máquinas de modo a que estas possam produzir as suas próprias instruções. Tal ainda não é um processo de educação, mas de simples reprodução diferencial de instruções.

Escuteiros, Agrupamento 109, Santo António dos Olivais. Foto MSA 2019.
Escuteiros, Agrupamento 109, Santo António dos Olivais. Foto MSA 2019.

Então, o que é que diferencia a educação da mera instrução?

O sabor do saber. Quer isto dizer que a educação implica sempre que o ser que recebe a instrução tenha inteligência do sentido de isso de que é instruído e que, no mesmo ato, saiba que ele próprio coincide com tal sentido, o que não sucede em qualquer dos casos abordados acima. De notar que se algum dia for possível criar uma máquina que consiga tal coincidência de si própria com o sentido da instrução, será criada a primeira real «inteligência artificial», indistinta do que é um ser humano do ponto de vista do cerne do que constitui propriamente o ato do espírito.

A educação é um ato do espírito e para o espírito. Não se limita a procurar transferir informações ou conteúdos formais quaisquer para um ser humano, como se este se tratasse de uma máquina ou de um ente simplesmente instruível, programável (que também é; os tiranos vivem desta possibilidade de programação humana, substitutiva do espírito).

A educação é o processo – ou o ensaio do processo – segundo o qual se procura que uma pessoa humana se desenvolva maximamente como pessoa, quer dizer, como entidade espiritual, de sentido. A educação serve para possibilitar e, possibilitando em ato, para transformar isso que é um ser humano em plena potência de humanidade num ser humano em plena realização de humanidade, na sua absoluta diferença antropológica, precisamente essa que faz dele uma pessoa e não apenas mais um indivíduo indiferenciado.

Deste modo, a educação é o único verdadeiro instrumento de liberdade, pois é ela que permite a cada pessoa encontrar isso que é o seu sentido próprio, no seio de um mundo que é constituído não apenas por realidades físicas e biológicas sem sentido autónomo próprio, mas também por realidades de sentido autónomo próprio e irredutível: os outros seres humanos, as outras pessoas.

Ora, para que tal possa suceder, a educação deve sempre servir o processo de construção autónoma do sentido próprio de cada ser humano. Tal não significa que esta construção seja feita de modo solipsista (não é mesmo possível que o seja, porque implicaria impossibilidade de contacto com isso que é passível de adquirir sentido na relação) ou de forma egoísta (limitadora da grandeza do sentido possível, porque limita as relações possíveis), mas que o sentido tem de ser construído na máxima abertura inteligente possível, de modo a que as possíveis relações de sentido sejam tão vastas quanto permite a grandeza própria de cada pessoa, diferente de ente para ente.

Festa da comunidade em Santo António dos Olivais, Coimbra. Foto MSA 2019.
Festa da comunidade em Santo António dos Olivais, Coimbra. Foto MSA 2019.

É neste ponto que se funda o sentido de que a minha liberdade termina onde começa a dos outros: se limito a liberdade dos outros pela minha ação violenta sobre eles, como pode a minha capacidade de adquirir sentido – de eu ser como sentido – engrandecer-se, pois acabei de eliminar parte da sua possibilidade? É apenas vivendo a vida como permanente atualização da possibilidade de sentido próprio, de que tudo o mais faz parte como, precisamente, possibilidade, que é possível (a repetição é propositada, pois é o que está em causa) construir-me como pessoa, quer dizer, é vivendo a vida como real processo de educação permanente que posso ser pessoa.
Se se restringir a educação a um processo – que é o comum – de instrução para seres humanos, está-se a transformar estes em realidades mecânicas ou biológicas socialmente programadas – como foi triste exemplo a «Juventude Hitleriana» –, assim matando o que há de propriamente humano nas pessoas.

Educar é mostrar e permitir que se perceba o sentido mundano e divino da beleza dos lírios do campo; instruir é passar a informação de quanto se pode ganhar com eles cortando-os e vendendo-os. A educação faz viver, abrindo o absoluto do horizonte de possível futuro; a instrução mata, reduzindo o bem e o belo de cada coisa a fórmulas mais ou menos úteis. Todavia, a instrução subsumida à educação pode ser um bom instrumento de libertação. Sozinha é apenas uma grilheta formal, um veículo de opressão e de impossibilidade de liberdade.

Foto da capa: Regresso às aulas, em Coimbra, setembro 2020. Foto PAULO NOVAIS/LUSA.

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