4. Francisco e Jacinta Marto

Filhos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus dos Santos, com uma diferença de apenas dois anos (Francisco nasceu a 11 de junho de 1908 e Jacinta a 11 de março de 1910), a história destas crianças haveria de se converter num dos episódios mais marcantes da História Religiosa do séc. XX. Juntamente com a prima Lúcia dos Santos, são dois dos “Três Pastorinhos de Fátima”, testemunhas das “aparições” do “Anjo da Paz” (em 1915 e 1916) e da Virgem Maria (entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917).

Batizados na Igreja Paroquial de Fátima, partilharam as vivências típicas das crianças do Portugal rural do início do século passado. Libertos das obrigações do ensino escolar, os seus dias tinham a cadência das idas e vindas do pastoreio nos campos da “Cova da Iria”, animados pelos jogos e brincadeiras de então: “das pedrinhas, o das prendas, passar o anel, o do botão, o fito, a malha, as cartas…” (Memórias da Irmã Lúcia, vol. 1, p. 138).

Eram amantes da música e seus cantares (tradicionais e religiosos), e “bastante afeiçoados ao baile” (Ibidem, p. 43). Não obstante, notavam-se algumas diferenças relevantes. Se Jacinta era uma criança vivaz, caprichosa e facilmente impressionável, Francisco era a despreocupação e tranquilidade em pessoa, ao ponto de Lúcia afirmar que “se houvesse crescido, o seu defeito principal seria o de não-te-rales” (Ibidem, p. 139).

Francisco gostava de se sentar em cima dos penedos, a tocar o seu pifarito e a cantar versos como estes:

Amo a Deus no céu.
Amo (-O) também na terra.
Amo o campo, as flores.
Amo as ovelhas na serra.

(Ibidem, p. 138)

Rapaz “de poucas palavras”, gostava de estar sozinho, a olhar os passarinhos (dos quais gostava tanto que se irritava com quem lhes roubava os ninhos), a rezar o Terço no cimo de um monte… ou a fazer companhia ao seu grande amigo: “Jesus escondido”.

Gosto tanto de Deus! Mas Ele está tão triste, por causa de tantos pecados! Nós nunca havemos de fazer nenhum. (…) Nossa Senhora disse que íamos ter muito que sofrer! Não me importo; sofro tudo quanto Ela quiser! O que eu quero é ir para o Céu.

(Ibidem, p. 143)

Quem com ele se cruzava, encontrava-o sempre a sorrir, sempre afável; e quando algo o perturbava, retirava-se para o seu “canto”, em silêncio.

Aquando das aparições, e em particular a terceira (em que se deu a “visão do Inferno”) foi ele o que menos se deixou impressionar; pelo contrário, o que o arrebatava e “absorvia” profundamente era a presença de Deus que pressentia em cada “aparição”.

Também ele cumpriu escrupulosamente os pedidos feitos pela Virgem. Se a oração, para ele, era sinónimo de “passaporte para o Céu”, os seus rigorosos jejuns poderão ter sido a causa da sua fraqueza à hora do seu corpo tentar resistir à gripe pneumónica que assolou o país no final da 1ª Grande Guerra. Sabendo próxima a sua derradeira hora, foi com alegria e confiança que, como o “outro” S. Francisco, abraçou a “irmã morte”.

– Sofres muito, Francisco?
– Bastante; mas não importa. Sofro para consolar a Nosso Senhor; e depois, daqui a pouco, vou para o Céu!

(Ibidem, p. 162)

Morreu em 1919, com 11 anos, e deixou-nos como herança uma oração que já faz parte da religiosidade popular: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem” (Ibidem, p. 163).

Mais impressionável e frágil, a personalidade de Jacinta foi profundamente transformada pela experiência das “aparições”. Assustada pela visão do inferno, decide fazer da sua vida um permanente sacrifício pela salvação dos pecadores. Tinha uma aura de virtude que simultaneamente seduzia e impunha respeito naqueles que com ela se cruzavam. Sempre preocupada em não ofender a Deus, era muito firme na hora de assumir as exigências da sua fé, tendo sido, provavelmente, aquela que, de entre os três, mais mortificações e penitências tenha feito.

Tal como Francisco, acabou por falecer vítima da febre pneumónica, a 20 de fevereiro de 1920.

Pendões da canonização de Francisco e Jacinta Marto. Sílvia Patrício, 2017
Pendões da canonização de Francisco e Jacinta Marto. Sílvia Patrício, 2017

A 13 de maio de 2000, o Papa João Paulo II fez de Francisco e sua irmã Jacinta os beatos não mártires mais jovens de toda a História da Igreja. A 13 de maio 2017, no centenário das aparições, os dois foram canonizados pelo Papa Francisco.

Nos santos Francisco e Jacinta Marto, […] a santidade desenha-se com radical novidade, como é sempre típico de Deus. Crianças humildes, surpreendem-nos pela fidelidade de quem nunca aceitou alternativas aos planos amorosos de Deus. Consoladores e intercessores, reconhecidos com gratidão e veneração, são, hoje, ao jeito do Ressuscitado, sinal do triunfo da Vida e do Bem e anunciadores do Céu.

(cfr. www.pastorinhos.com)
Papa Francisco. Com Maria peregrino na esperança e na paz, 13 maio 2017.
Papa Francisco. Com Maria peregrino na esperança e na paz, 13 maio 2017.

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