Um pai, um filho e uma bicicleta roubada

Numa entrevista feita por Monsenhor Dario Viganó, publicada no seu último livro – Lo sguardo: porta del cuore. Il neorealismo tra memoria e attualitá (que eu saiba não está traduzido em português) – o Papa Francisco faz esta afirmação: “Depois da pandemia, são necessários novos olhos para olhar a realidade”. E referindo-se a alguns filmes que viu em Buenos Aires, quando era criança, diz: “Os filmes do neorrealismo formaram os nossos corações e ainda podem formar. Eu diria mais: esses filmes ensinaram-nos a olhar a realidade com olhos novos. Quanta necessidade temos hoje de olhar!… É um olhar que, nas trevas, conserva o sabor e o sentido da luz”.

Tendo lido estas palavras do Papa Francisco, tive a oportunidade de (re)ver o inolvidável Ladrões de Bicicletas, projetado por estes dias com outros filmes italianos da mesma época. Se acrescentar que estamos no Ano de São José e que li também um magnífico livro – Être Père avec Saint Joseph, de Fabrice Hadjadj (que eu saiba também não traduzido) – tenho de confessar que, afinal, vi outro filme. O meu olhar foi iluminado.

De facto, sob a luz mágica do preto e branco, Ladrões de Bicicletas acaba por ser o filme de um pai e de um filho à procura da bicicleta roubada e que é absolutamente necessária para o pai conseguir garantir o sustento da família. Estamos na Itália do pós-guerra (1948) e o desemprego atinge uma larga maioria dos pobres que procuram desesperadamente uma oportunidade. Antonio consegue o trabalho de colador de cartazes, mas só o pode cumprir tendo uma bicicleta. Ele tem, mas está penhorada. A sua mulher decide penhorar os lençóis para a reaver.

Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, Drama, M/6, ITA, 1946.
Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, Drama, M/6, ITA, 1946.

É muito bela a imagem do pai e do filho, na madrugada do primeiro dia de trabalho. Ver a alegria e a felicidade com que o pequeno Bruno cuida daquele objecto precioso, imita os gestos do pai e sai com ele sentado no quadro da bicicleta é um tratado de educação. Escreve Fabrice Hadjadj, lembrando como ‘a graça de Deus’ estava com o Menino, em Nazaré:

É esta graça que é preciso aprender antes de tudo na Casa de Nazaré. Mas esta graça não se ensina verdadeiramente. Está para lá do que é devido. Manifesta-se menos através das ordens dadas do que pelo tempo passado juntos, apenas para isso, para rir, jogar, conversar, fazer brincadeiras… A graça é gratuidade e é também o perdão de uma dívida. Aquele que repetisse ao seu filho “Eu dei-te tudo” não lhe daria o essencial: é preciso reconhecer-se em dívida para com o seu filho. Um pai demasiado perfeito, sem falhas, sem reconhecer a sua miséria… não seria um pai, mas um especialista. Para um especialista, um falhanço é uma derrota. Para um pai, é o caminho… O pai não é um educador especializado…

É esse caminho que pai e filho vão percorrer penosamente pelas ruas de Roma e a que nós vamos assistir angustiados. E no fim, perceberemos bem estas palavras do mesmo livro: “José teve de ajoelhar-se diante de seu filho. Era dele que recebia a salvação. Do mesmo modo, quando tivermos gritado muito alto, quando tivermos batido estupidamente, podemos fazer bem melhor do que ter educado sem defeitos e ter sido escutados sempre. Podemos pedir perdão ao nosso filho. Podemos pôr-nos de joelhos diante dele… Mais uma vez, aquilo que o pai transmite antes de tudo, de modo diferente de um professor ou de um pedagogo, é a própria vida tal como ela é, através da sua palavra.”

O filme termina com pai e filho a caminharem lado a lado, num silêncio difícil e denso, depois daquela grande peregrinação em que cai em todas as tentações. Talvez aquele Domingo tão longo e aparentemente perdido tenha sido, afinal, um dia de ressurreição.

Uma história e um filme únicos. Desses, como diz o papa Francisco, capazes de educar o olhar e de nos curar da indiferença. E talvez de nos converter.

Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, Drama, M/6, ITA, 1946. Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro e Globo de Ouro na mesma categoria, entre muitos outros prémios.

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